sexta-feira, 20 de outubro de 2017
RECONSTRUÇÃO
Voltei. É gente.
Dentre outras coisas comecei a fazer terapia há cerca de um mês. Nenhuma vergonha em falar disso. Na verdade me sinto bem com essa ideia. A vida adulta às vezes chega com umas pedradas e nem sempre nosso muro aguenta ileso. Busquei cimento e novos tijolos pra reconstruir tudo.
Esse blog existe desde sei lá, 2012? Sim, desde 2012. Cinco anos que tenho esse espaço e sempre foi um apotecário de sentimentos, pensamentos, intuições, vivências. Nunca fiz imenso sucesso ou ganhei grana com ele. Sempre apenas desabafei, como todos os blogs de quando tudo era mato na internet.
Ainda continuo com o Decor Honesta, que pra mim não é bem um blog, e sim algo que eu gostaria de fazer como um trabalho e realmente ganhar grana: falar sobre comida e decoração. Mas vamo que vamo. O insta do DH também tá lindo.
Mas acredito que agora que a terapia tem um papel tão importante na minha vida, é o caso de eu voltar a escrever. E sempre gostei desse cantinho. Mudei o layout como quem troca a cor do cabelo, e por sinal o meu anda azul. Nesses anos todos ele foi de castanho pra preto, ruivo acobreado, vermelho vinho, azul escuro, roxo e agora turquesa. Os fios brancos também chegaram, finalmente, no alto dos meus 28 anos.
E mesmo no alto desses quase 30, de vez em quando eu me sinto aquela mesma menina. Aquela, com 16 anos, na escola onde não conhecia ninguém, no dia que acordou no escuro e vestiu os pés dos sapatos trocados. E só percebeu subindo a rampa do colégio.
Mas não faz mal. É sempre essa eterna reconstrução. E eu me sinto assim, tapando cada buraco, erguendo cada tijolo, brick by boring brick.
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OBS: Não é uma promessa, mas vou tentar voltar a escrever semanalmente.
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Lyra
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terça-feira, 11 de julho de 2017
Do chão não passa
Hoje acordei com essa sensação. De que não importa se você salta da ponta do penhasco, ou da beirada do oceano, ou da última nuvem antes do purgatório: do chão não passa.
Eu sou só uma menina que não chegou a três décadas de vivência, então o que eu sei, não é mesmo?
Eu não sei de nada. Nada mesmo.
O que eu sei é que os anos foram passando e eu fui ficando mais calejada, de várias situações. A primeira vez que eu lidei com uma traição, uma separação brusca, meu deus. Eu achei que eu ia morrer.
Acho que eu morri um pouco. Depois a gente ressuscita, e segue o jogo.
Mas eu realmente achei que ia morrer, e digo fisicamente mesmo. Achei que meus sentidos iam explodir, ou pelo menos implodir. Um prédio condenado ruía dentro de mim. Nossa, como doeu. Doeu demais. Deixei um pouco daquela menina alegre e inocente por lá.
Na segunda vez, olha, foi tão foda quanto a primeira. Mas nada nem se compara à última.
Mas dessa vez, nem senti vontade de morrer não. Eu só queria engolir em seco, cuspir cacos de vidro, e seguir em frente.
Do chão eu não passei. Realmente.
Não importa o que aconteça, e quantas vezes as pessoas te decepcionem profundamente na sua cara; você sacode a poeira, as lágrimas partidas, e segue em frente. Talvez dê passos mais lentos. Talvez decida percorrer o trecho sozinha. Mas só segue, somente isso. Sacode a poeira, passa um batom vermelho, sorri um pouco mais quebrado, e segue em frente.
Afinal, do chão você não passou. Só levanta e anda.
Eu sou só uma menina que não chegou a três décadas de vivência, então o que eu sei, não é mesmo?
Eu não sei de nada. Nada mesmo.
O que eu sei é que os anos foram passando e eu fui ficando mais calejada, de várias situações. A primeira vez que eu lidei com uma traição, uma separação brusca, meu deus. Eu achei que eu ia morrer.
Acho que eu morri um pouco. Depois a gente ressuscita, e segue o jogo.
Mas eu realmente achei que ia morrer, e digo fisicamente mesmo. Achei que meus sentidos iam explodir, ou pelo menos implodir. Um prédio condenado ruía dentro de mim. Nossa, como doeu. Doeu demais. Deixei um pouco daquela menina alegre e inocente por lá.
Na segunda vez, olha, foi tão foda quanto a primeira. Mas nada nem se compara à última.
Mas dessa vez, nem senti vontade de morrer não. Eu só queria engolir em seco, cuspir cacos de vidro, e seguir em frente.
Do chão eu não passei. Realmente.
Não importa o que aconteça, e quantas vezes as pessoas te decepcionem profundamente na sua cara; você sacode a poeira, as lágrimas partidas, e segue em frente. Talvez dê passos mais lentos. Talvez decida percorrer o trecho sozinha. Mas só segue, somente isso. Sacode a poeira, passa um batom vermelho, sorri um pouco mais quebrado, e segue em frente.
Afinal, do chão você não passou. Só levanta e anda.
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terça-feira, 18 de abril de 2017
Menina uva
Há mais de um ano que não apareço aqui. 2016 foi um borrão que passou por mim e eu nem percebi. Aconteceu coisa pra caralho. E esse blog meio que contou uma parte dessa história, todos esses anos.
Como eu cresci. Como eu criei uma casca bem grossa.
Tão grossa que acho bem difícil alguém perfurar. Eu, minha casca, meus cabelos cor de uva.
Panci se foi em 2015. Ainda sinto muita falta dela.
Hoje estão comigo: Ninica, Chiq e Nana. Muito amor felino.
Eu mudei de casa. Hoje moro na casinha dos sonhos. Que bom que eu tenho isso pra me acalentar. Porquê o resto... foi só um remendo de ilusão que me arrastou por anos.
Mas acabou. Como tudo na vida.
Eu amadureci? Pergunto pra mim mesma.
Meus cabelos de menina de 15 anos dizem que não. Mas tá tudo bem agora, quando eu escolho amar eles, entre tantas coisas que eu amo muito mais hoje do que ontem, em mim mesma.
Como eu cresci. Como eu criei uma casca bem grossa.
Tão grossa que acho bem difícil alguém perfurar. Eu, minha casca, meus cabelos cor de uva.
Panci se foi em 2015. Ainda sinto muita falta dela.
Hoje estão comigo: Ninica, Chiq e Nana. Muito amor felino.
Eu mudei de casa. Hoje moro na casinha dos sonhos. Que bom que eu tenho isso pra me acalentar. Porquê o resto... foi só um remendo de ilusão que me arrastou por anos.
Mas acabou. Como tudo na vida.
Eu amadureci? Pergunto pra mim mesma.
Meus cabelos de menina de 15 anos dizem que não. Mas tá tudo bem agora, quando eu escolho amar eles, entre tantas coisas que eu amo muito mais hoje do que ontem, em mim mesma.
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terça-feira, 15 de março de 2016
Encarnação
Virou meu sono do avesso quando eu era pranto e desgraça. Me puxou dali, da forma mais terna e selvagem do mundo. Mas eu gosto de pensar que o salvei também.
Aí me jogou na lama. Pisoteou. Me enterrou viva. Fiquei estática.
Eu dirigia pelas ruas e pensava o tempo todo, o tempo todo. Cada segundo de ócio eram pensamentos mil em suas mãos enormes. Tinha medo de esquecer seu rosto. Era o desespero por carinho.
E nada.
E nem ninguém.
E um quarto vazio. E o vento que balançava os lençóis.
Aqueles lençóis.
A ferida ficou ali muito tempo. Necrosou.
Necrosou com a sensação de falta de amor. De falta de importância. De segundo plano. Eu olhava e não via nada. E até pequenos gestos doíam. Tocar a ferida, rasgá-la de novo, over and over.
Eu fiz isso. Eu fiz isso várias vezes. Eu deixei você me dilacerar várias vezes, sempre esperando por alguma coisa.
Me deixei rasgar. Deixei que rasgasse.
Até que não tinha mais nada de mim. Nada mesmo, só uma sombra daquela mocinha de riso doce. Agora eu era mulher. O rosto sério virou o único. Eu cresci.
E agora, agora que me ama, não há mais nada em mim pra se amar. Meu amor eu direciono pra outro, pra outras coisas, pra outra vida.
Porque na necrose você nem me via.
O fantasma que eu fui agora de repente brilhava. Mas era só uma impressão de outra vida. Na verdade eu sempre estive aqui.
Até não estar mais.
Aí me jogou na lama. Pisoteou. Me enterrou viva. Fiquei estática.
Eu dirigia pelas ruas e pensava o tempo todo, o tempo todo. Cada segundo de ócio eram pensamentos mil em suas mãos enormes. Tinha medo de esquecer seu rosto. Era o desespero por carinho.
E nada.
E nem ninguém.
E um quarto vazio. E o vento que balançava os lençóis.
Aqueles lençóis.
A ferida ficou ali muito tempo. Necrosou.
Necrosou com a sensação de falta de amor. De falta de importância. De segundo plano. Eu olhava e não via nada. E até pequenos gestos doíam. Tocar a ferida, rasgá-la de novo, over and over.
Eu fiz isso. Eu fiz isso várias vezes. Eu deixei você me dilacerar várias vezes, sempre esperando por alguma coisa.
Me deixei rasgar. Deixei que rasgasse.
Até que não tinha mais nada de mim. Nada mesmo, só uma sombra daquela mocinha de riso doce. Agora eu era mulher. O rosto sério virou o único. Eu cresci.
E agora, agora que me ama, não há mais nada em mim pra se amar. Meu amor eu direciono pra outro, pra outras coisas, pra outra vida.
Porque na necrose você nem me via.
O fantasma que eu fui agora de repente brilhava. Mas era só uma impressão de outra vida. Na verdade eu sempre estive aqui.
Até não estar mais.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Uma troca
A chuva tinha lavado a cidade um dia antes quando eu recebi, saindo do jornal, a seguinte ligação:
"Dai, eu resgatei um gatinho sarnento. Ele está no veterinário mas quando ele sair, você poderia dar lar temporário a ele?", disse uma amiga muito querida. Aceitei sem piscar duas vezes.
Minha casa tem exatos dois cômodos que o uso não é frequente: um banheirinho e um quarto de visitas, que uso pra guardar algumas coisas. Alguns dias antes, a Pan (minha gata mais velha) tinha sido diagnosticada com leucemia felina - a temida felv.
| Pan |
Chorei muito, me desesperei e fui obrigada a deixar a Pagu (a filhotona escaminha, gritona e carente adotada há seis meses) na casa dos meus pais. Pra quem não sabe, a convivência entre um gato negativo e um positivo para felv é altamente desaconselhada.
Me senti a pior gateira do mundo ao deixar ela por lá, mesmo sabendo que ela seria muito mimada e amada pelos meus pais e pela minha irmã, doeu porque me senti irresponsável. Além disso, doía no peito saber que a Panci não viveria tanto quanto eu gostaria que ela vivesse, ao meu lado.
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| Pagu |
Eu não gosto muito de chorar. É uma fraqueza minha. Mas quando descobri que a Panci tinha felv chorei muito. Sim, por um gato. Porque ela é minha alma gêmea felina, nós estamos sempre em sintonia e eu fiquei de verdade mal com tudo. A Pan é a minha companhia mais frequente hoje, que está comigo a todo momento quando estou em casa. Partilhamos uma rotina, afagos, momentos de silêncio. Cumplicidade. Quando fomos examiná-la para felv ela agrediu três pessoas na clínica. Eu tive que entrar na sala e segurá-la. E com o som da minha voz ela se acalmou e permitiu que tirassem o sangue. Só a minha presença ali a acalmou. E só a dela me acalma.
Então quando minha amiga pediu ajuda para dar abrigo ao Chuvisco, eu não tive como negar. Foi como se eu me sentisse em dívida. Ouvi muita crítica que aquilo podia perturbar a saúde da Panci, mas não tive como negar. E Chuvisco-Brie (eu chamava ele de queijinho porque ele é todo branco) chegou num dia quente com o rosto já melhor pela sarna que o desfigurou, porém totalmente careca. Ele estava irreconhecível.
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| Chuvisco pouco depois do resgate |
Nos 20 dias de LT que dei a ele, ficamos companheiros. Eu ficava várias horas com ele no quartinho. Obrigava ele a tomar um pouco de sol e via, pasma, ele abrir sozinho a trava da janela. Ele melhorou muito, ganhou peso e ficou mais bonito. Encontramos o lar dele, mas ele foi devolvido. Naquele dia, minha amiga e eu ficamos muito chateadas. Nos sentimos impotentes naquela missão que tomamos: ajudar um animal de rua.
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| O primeiro banho com 1 semana lá em casa |
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| 15 dias lá em casa - bravinho porque coloquei ele no sol |
Hoje Chuvisquinho está um pitel de gatinho, mora em uma casa com outros bichinhos de estimação e duas crianças que adoram ele. Fica escondido de dia mas de noite cola com a família e balança o rabicó peludo em busca de carinho e atenção. E ganha tudo isso de sobra, assim como devolve em dobro o carinho.
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| Hoje, após sua adoção <3 |
Meu esforço em tudo isso, eu considero que foi mínimo. Eu dei a ele uma chance, só isso. Foi pouco? foi. Mas pra ele fez muita diferença. Assim como fez diferença pra mim o dia em que cheguei perto de uma gaiolinha de doação de gatos em 2008, e uma gatinha rajada e branca agarrou minha manga e fez: "pruuu". Foi o dia que conheci a minha Panpi.
Jamais fui a mesma pessoa novamente. Esse tipo de coisa transforma a gente. Basta abrir um pedacinho do coração. Basta pensar "eu posso jogar isso nas costas dos outros. Ou eu posso, uma vez na vida, me responsabilizar". E eu não me arrependo nem um minuto de ter sido LT de um animal de rua. Eu o ajudei a curar machucados, lhe dei comida e um teto. E ele me ajudou a cicatrizar feridas e esquecer tristezas.
PS: Panci está muito bem, por sinal. Hoje pediu muito atum e amassou muito pãozinho na coberta <3
segunda-feira, 4 de maio de 2015
O que a gente come é (também) o que a gente é
Eu tenho pensado muito a respeito da minha relação com meu próprio corpo, assim, do jeitinho que ele é: costas largas, sobrepeso, coxas grossas, barriga saliente, pescoço com dobras. Eu nunca tive problemas graves com meu corpo, os outros é que sempre tiveram. Claro que às vezes eu pensava: não vou usar essa blusa aqui porque marca a barriga. Mas no geral, eu realmente penso que a vida pode ser um pouco mais do que isso. E sempre foi, ao menos pra mim e pra muitas amigas queridas minhas que também estão acima do peso, sofrem preconceito mas tão nem aí pra isso. O recalque bate na minha dobrinha e volta, queridos!
Já fui xingada de gorda? Já. E de outras coisas também, mais ofensivas até. E que mulher não foi xingada de: insira aqui qualquer coisa. Sim, qualquer coisa. Se você não é gorda, você "não tem onde pegar e uzomi gosta de carne". Não existe ideal dentro de um espectro onde NADA é ideal caso você seja mulher. Você pode ser branca, hetero, magra, loira, alta, e ainda sim a sociedade vai achar um defeito em você, fica sossegada. Nem que seja apenas pra te chamar de vadia. Mas eu divago.
Tenho refletido muito sobre como era minha alimentação há cerca de uma semana atrás: comendo rápido pra voltar pro trabalho, sem sentir a comida e o sabor dela, almoço no refeitório do jornal que por vezes incluía carnes boiando em óleo (não tô brincando). Muito arroz branco, macarrão e nenhuma fruta, no máximo uma vez por semana. Fast food, comer fora, nenhum cereal. Chegava em casa da rua esfomeada pelas horas que ficava de jejum então fazia o que tava na mão mais rápido: fritura. Comida processada. Mais macarrão. E de manhã saia sem tomar café da manhã. No trabalho enchia a cara de café preto e comia no máximo um salgado. E assim por diante em loop.
Sabe o que eu tinha todos os dias? Refluxo. Gastrite. Não aguentava subir direito a escada do trabalho mais de uma vez. Dor no joelho que tem a rótula fraca.
Eu sempre gostei muito de várias comidas legais tipo legumes e verdura. Nunca foi problema comer salada, inclusive eu gosto muito. Então decidi, de uma vez por todas, não mudar minha relação com meu corpo, que é meu e de mais ninguém. E sim mudar minha relação com a comida e com o exercício físico. Por mim, pra me sentir mais saudável, pra sentir melhor o sabor das coisas, pra valorizar o que entra no meu organismo, pra consumir e ser responsável comigo mesma.
Pra uma pessoa que nunca tomou café da manhã na vida com regularidade, está sendo uma luta genuína. E estou fazendo de tudo, e sei que ainda posso melhorar.
Minha rotina mudou completamente há apenas 7 dias e sei que isso é um compromisso pra vida toda, o de não abandonar minha saúde. Não importa se eu vou emagrecer. Importa se eu vou parar de ter refluxo. Não importa quantos quilos vou perder porque isso só vai ser uma consequência de uma melhoria nessa alimentação trash. A maior causa vai ser comer melhor e movimentar meu corpo. Eu não aceito que, querer ser saudável, seja uma porta de entrada pra gordofobia.
Hoje eu chego em casa depois de um expediente duplo em dois empregos, cozinho arroz integral, feijão, legumes, carne sem gordura, tudo no azeite e pouco sal. Peso a mão no manjericão, na pimenta, no alho, porque além de tudo precisa ser saboroso e prazeroso. Monto duas marmitas que vão me acompanhar, mais os lanchinhos pra aguentar o dia sem sentir fome e sem deixar o estômago se remoendo, a ponto da gastrite colar junto. Saio de casa carregada de sacolas, uma de roupa de malhar e outra de comida.
Acordo cedo, sento e como, venho trabalhar mais disposta. Tento respeitar os horários de comer e de uma vez por todas, saborear o que estou comendo.
Não tem sido fácil mudar bruscamente um hábito de uma vida. Mas no meu corpo mando eu. E na minha saúde também.
Já fui xingada de gorda? Já. E de outras coisas também, mais ofensivas até. E que mulher não foi xingada de: insira aqui qualquer coisa. Sim, qualquer coisa. Se você não é gorda, você "não tem onde pegar e uzomi gosta de carne". Não existe ideal dentro de um espectro onde NADA é ideal caso você seja mulher. Você pode ser branca, hetero, magra, loira, alta, e ainda sim a sociedade vai achar um defeito em você, fica sossegada. Nem que seja apenas pra te chamar de vadia. Mas eu divago.
Tenho refletido muito sobre como era minha alimentação há cerca de uma semana atrás: comendo rápido pra voltar pro trabalho, sem sentir a comida e o sabor dela, almoço no refeitório do jornal que por vezes incluía carnes boiando em óleo (não tô brincando). Muito arroz branco, macarrão e nenhuma fruta, no máximo uma vez por semana. Fast food, comer fora, nenhum cereal. Chegava em casa da rua esfomeada pelas horas que ficava de jejum então fazia o que tava na mão mais rápido: fritura. Comida processada. Mais macarrão. E de manhã saia sem tomar café da manhã. No trabalho enchia a cara de café preto e comia no máximo um salgado. E assim por diante em loop.
Sabe o que eu tinha todos os dias? Refluxo. Gastrite. Não aguentava subir direito a escada do trabalho mais de uma vez. Dor no joelho que tem a rótula fraca.
Eu sempre gostei muito de várias comidas legais tipo legumes e verdura. Nunca foi problema comer salada, inclusive eu gosto muito. Então decidi, de uma vez por todas, não mudar minha relação com meu corpo, que é meu e de mais ninguém. E sim mudar minha relação com a comida e com o exercício físico. Por mim, pra me sentir mais saudável, pra sentir melhor o sabor das coisas, pra valorizar o que entra no meu organismo, pra consumir e ser responsável comigo mesma.
Pra uma pessoa que nunca tomou café da manhã na vida com regularidade, está sendo uma luta genuína. E estou fazendo de tudo, e sei que ainda posso melhorar.
Minha rotina mudou completamente há apenas 7 dias e sei que isso é um compromisso pra vida toda, o de não abandonar minha saúde. Não importa se eu vou emagrecer. Importa se eu vou parar de ter refluxo. Não importa quantos quilos vou perder porque isso só vai ser uma consequência de uma melhoria nessa alimentação trash. A maior causa vai ser comer melhor e movimentar meu corpo. Eu não aceito que, querer ser saudável, seja uma porta de entrada pra gordofobia.
Hoje eu chego em casa depois de um expediente duplo em dois empregos, cozinho arroz integral, feijão, legumes, carne sem gordura, tudo no azeite e pouco sal. Peso a mão no manjericão, na pimenta, no alho, porque além de tudo precisa ser saboroso e prazeroso. Monto duas marmitas que vão me acompanhar, mais os lanchinhos pra aguentar o dia sem sentir fome e sem deixar o estômago se remoendo, a ponto da gastrite colar junto. Saio de casa carregada de sacolas, uma de roupa de malhar e outra de comida.
Acordo cedo, sento e como, venho trabalhar mais disposta. Tento respeitar os horários de comer e de uma vez por todas, saborear o que estou comendo.
Não tem sido fácil mudar bruscamente um hábito de uma vida. Mas no meu corpo mando eu. E na minha saúde também.
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| Almoço maravilhoso: eu que fiz <3 |
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Lyra
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quinta-feira, 16 de abril de 2015
Casaco sobre a cadeira
Junho de 2013, domingo, 9 horas da manhã.
Lembro perfeitamente que eu estava alimentando a Panci na cozinha da casa dos meus pais e meu celular tocou. Era minha editora, na época em que eu era repórter. A voz dela baixinha ao telefone, quase sumindo. "Lyra, você pode vir trabalhar mais cedo hoje?". Aos domingos geralmente o expediente no jornal começa às 13h. Respondi: "O que aconteceu?". "Seu Alê morreu".
Talvez as soleiras da redação toda feita em vidro e piso de cerâmica estejam acostumadas à tragédia. Mas talvez não. Seu Alexandre era o editor executivo do jornal. No sábado (nossa folga), ele partiu num ataque cardíaco fulminante.
Nós, que estamos acostumados com as tragédias normais da vida, nos pegamos de vez em quando encarando o vidro como se pudesse ver além das paredes, além das luzes. Jornalista, aquele que relata a vida. A morte na rua. Homem morto no córrego. Assassinato. Acidente. Vive em delegacia olhando alguns algozes de frente. Lida com a perda em sua forma mais profunda: a factual, a recente.
Temos medo de ficarmos indiferentes, de vez em quando. Acho que todo jornalista já teve esse medo. Eu, pelo menos, já tive.
Há algumas semanas, a redação foi impactada com a morte de D. Regina, nossa revisora, que trabalhava no jornal desde que ele abriu. Ela amava gatos e vivia me contando do quanto mimava sua gatinha, me dando dicas, me perguntando se as minhas gatinhas já estavam se dando bem.
Algumas vezes fui perguntar coisas de revisão pra ela e fiquei papeando. "Dona Regina, qual o uso dessa palavra?". Ela sempre me respondia sorrindo e emendava: "E suas gatinhas, como estão?". Não convivemos muito, mas fiquei muito triste.
Fui perguntar à uma diagramadora justamente se alguém sabia da existência da gatinha, se precisava alimentá-la, e meus olhos pousaram sobre o casaco rosa claro sobre a cadeira. Do jeito que ela deixou. Ela poderia ter estado ali há cinco minutos atrás. Porém jamais estaria de novo.
(texto escrito em 5 de março de 2015).
Lembro perfeitamente que eu estava alimentando a Panci na cozinha da casa dos meus pais e meu celular tocou. Era minha editora, na época em que eu era repórter. A voz dela baixinha ao telefone, quase sumindo. "Lyra, você pode vir trabalhar mais cedo hoje?". Aos domingos geralmente o expediente no jornal começa às 13h. Respondi: "O que aconteceu?". "Seu Alê morreu".
Talvez as soleiras da redação toda feita em vidro e piso de cerâmica estejam acostumadas à tragédia. Mas talvez não. Seu Alexandre era o editor executivo do jornal. No sábado (nossa folga), ele partiu num ataque cardíaco fulminante.
Nós, que estamos acostumados com as tragédias normais da vida, nos pegamos de vez em quando encarando o vidro como se pudesse ver além das paredes, além das luzes. Jornalista, aquele que relata a vida. A morte na rua. Homem morto no córrego. Assassinato. Acidente. Vive em delegacia olhando alguns algozes de frente. Lida com a perda em sua forma mais profunda: a factual, a recente.
Temos medo de ficarmos indiferentes, de vez em quando. Acho que todo jornalista já teve esse medo. Eu, pelo menos, já tive.
Há algumas semanas, a redação foi impactada com a morte de D. Regina, nossa revisora, que trabalhava no jornal desde que ele abriu. Ela amava gatos e vivia me contando do quanto mimava sua gatinha, me dando dicas, me perguntando se as minhas gatinhas já estavam se dando bem.
Algumas vezes fui perguntar coisas de revisão pra ela e fiquei papeando. "Dona Regina, qual o uso dessa palavra?". Ela sempre me respondia sorrindo e emendava: "E suas gatinhas, como estão?". Não convivemos muito, mas fiquei muito triste.
Fui perguntar à uma diagramadora justamente se alguém sabia da existência da gatinha, se precisava alimentá-la, e meus olhos pousaram sobre o casaco rosa claro sobre a cadeira. Do jeito que ela deixou. Ela poderia ter estado ali há cinco minutos atrás. Porém jamais estaria de novo.
(texto escrito em 5 de março de 2015).
quinta-feira, 19 de março de 2015
Escarlate não é vermelho
"Me ensine a ver as coisas
E todas as pistas estão, tão embaçadas, através
Escarlate não é vermelho"
Acordei com esse verso na cabeça. E ele não é meu. É de uma banda independente que fez parte de um jeito muito louco da minha adolescência: Torivas.
Me ensine a ver as coisas.
E hoje esse verso significa que eu tenho tanta coisa pra aprender na jornada. Mas agora é como se eu olhasse por uma janela e lá fora só fizesse neblina. Quando abri os olhos hoje e me lembrei desses versos, alguma coisa me incomodou. Talvez estar envelhecendo.
Vim procurar agora se essa banda ainda existia e não, não existe mais. Pararam de atualizar o Fotolog ainda naquela época. Mas ao ouvir os primeiros acordes de "Escarlate" um mundo de memórias veio na minha cabeça, de um tempo que eu não sinto exatamente saudades. Talvez de algumas coisas. Me veio um sentimento engraçado, de que eu vou fazer 26 anos. E eu quero gritar, tal qual eu gritava na minha banda, expurgando demônios a cada apresentação, independente de ter plateia.
Sei lá. Talvez esse loop em que eu me encontro de volta e meia relembrar um tempo que não volta mais seja uma parte do meu desabafo de finalmente estar do lado de cá, na vida adulta.
Me ensine a ver as coisas...
E todas as pistas estão, tão embaçadas, através
Escarlate não é vermelho"
Acordei com esse verso na cabeça. E ele não é meu. É de uma banda independente que fez parte de um jeito muito louco da minha adolescência: Torivas.
Me ensine a ver as coisas.
E hoje esse verso significa que eu tenho tanta coisa pra aprender na jornada. Mas agora é como se eu olhasse por uma janela e lá fora só fizesse neblina. Quando abri os olhos hoje e me lembrei desses versos, alguma coisa me incomodou. Talvez estar envelhecendo.
Vim procurar agora se essa banda ainda existia e não, não existe mais. Pararam de atualizar o Fotolog ainda naquela época. Mas ao ouvir os primeiros acordes de "Escarlate" um mundo de memórias veio na minha cabeça, de um tempo que eu não sinto exatamente saudades. Talvez de algumas coisas. Me veio um sentimento engraçado, de que eu vou fazer 26 anos. E eu quero gritar, tal qual eu gritava na minha banda, expurgando demônios a cada apresentação, independente de ter plateia.
Sei lá. Talvez esse loop em que eu me encontro de volta e meia relembrar um tempo que não volta mais seja uma parte do meu desabafo de finalmente estar do lado de cá, na vida adulta.
Me ensine a ver as coisas...
quinta-feira, 5 de março de 2015
A publicidade brasileira não se garante
No dia 12 de fevereiro, a Revista Fórum publicou um artigo sobre a última publicidade machista do mês: das sopas Vono. Essa semana a discussão toda estava ao redor da propaganda da Always onde Sabrina Sato comparava o “vazamento” da menstruação (quem nunca?) com o “vazamento” de vídeos íntimos na internet. Só que nunca.
As pessoas ficaram bem bravas. E com razão. Entre outras questões, a propaganda fez o que tem sido feito no Brasil à exaustão: culpou a vítima.
Eu trabalhei dois anos numa agência de publicidade e jornalismo, mas as redações eram juntas e hoje eu trabalho diretamente com um publicitário. Sempre admirei o trabalho dos diretores de arte, redatores, mídias e atendimentos. Acho um trabalho tão árduo quanto o de muitos jornalistas que eu conheço. Por isso eu aprendi o seguinte: publicidade machista não é culpa só da agência de publicidade.
Uma campanha passa por NO MÍNIMO três pessoas: o atendimento, o diretor de criação e o cliente. Isso se a agência for pequena. Em grandes agências deve passar por umas 30 pessoas. Mas o fato é que existem conceitos a serem mudados de todos os lados. A agência precisa se despir de machismo e preconceito na hora de criar ou sugerir uma campanha e precisa sim pensar no impacto negativo que isso vai ser gerado depois que ela for ao ar. Hoje a internet não poupa ninguém. Mas o cliente precisa entender que publicidade burra e preconceituosa muito mais atrapalha do que ajuda.
No Brasil, a publicidade não se garante. E é por isso que propagandas de cerveja com mulher seminua continuam sendo feitas. Não é porque vende. A publicidade tem medo de deixar a campanha padrão-machista de lado e investir em outro conceito e fracassar. Mas o que ela não percebe é que essa falta de coragem já é um fracasso por si só.
A publicidade tem poder de emocionar, de tocar, de abrir horizontes e de despertar emoções. De fazer rir mas também de incomodar. E mesmo assim as mulheres continuam sendo meros objetos decorativos e sexuais. Isso quando a propaganda não faz apologia à dominação e ao estupro. Em um mundo onde uma maioria esmagadora de consumidores é do gênero feminino e onde os índices de violência feminina são alarmantes, a publicidade continua tendo medo de empoderar as mulheres.
Um trecho muito pertinente do artigo da Fórum sobre a propaganda da Vono: "Aliás, falar na linguagem do capitalismo às vezes é a melhor alternativa que as mulheres possuem para que sejam ouvidas. Afinal, mulheres também bebem cerveja, compram sopa em pó, consomem e pagam por produtos e serviços. Em muitos casos, as mulheres ainda são responsáveis pela feira da semana ou do mês e são elas que se deslocam até supermercados para escolher o que vão colocar na mesa. Parece lógico, mas no mundo da publicidade, só quem recebe o devido respeito é o público masculino, em detrimento das mulheres, que são constantemente hostilizadas e agredidas em propagandas misóginas".
Se o mundo é metade feminino, porque a publicidade brasileira é tão machista? Se nós consumimos cerveja, porque estamos nuas nas propagandas? Porque somos vendidas como meras donas de casa ou objetos sexuais segurando uma garrafa? Porque, meus queridos, a propaganda é a alma do negócio. Enquanto a publicidade vender que somos seres inferiores, tem muita gente que vai acreditar e continuar alimentando o monstro do machismo. Simples assim. A publicidade tem medo das mulheres.
Isso só mostra que estamos no caminho certo. Mas ainda existe muito a se fazer.
Outros links pra se ler:
Dez propagandas históricas machistas
Mídia Feminista
O machismo que impregna a propaganda
As pessoas ficaram bem bravas. E com razão. Entre outras questões, a propaganda fez o que tem sido feito no Brasil à exaustão: culpou a vítima.
Eu trabalhei dois anos numa agência de publicidade e jornalismo, mas as redações eram juntas e hoje eu trabalho diretamente com um publicitário. Sempre admirei o trabalho dos diretores de arte, redatores, mídias e atendimentos. Acho um trabalho tão árduo quanto o de muitos jornalistas que eu conheço. Por isso eu aprendi o seguinte: publicidade machista não é culpa só da agência de publicidade.
Uma campanha passa por NO MÍNIMO três pessoas: o atendimento, o diretor de criação e o cliente. Isso se a agência for pequena. Em grandes agências deve passar por umas 30 pessoas. Mas o fato é que existem conceitos a serem mudados de todos os lados. A agência precisa se despir de machismo e preconceito na hora de criar ou sugerir uma campanha e precisa sim pensar no impacto negativo que isso vai ser gerado depois que ela for ao ar. Hoje a internet não poupa ninguém. Mas o cliente precisa entender que publicidade burra e preconceituosa muito mais atrapalha do que ajuda.
No Brasil, a publicidade não se garante. E é por isso que propagandas de cerveja com mulher seminua continuam sendo feitas. Não é porque vende. A publicidade tem medo de deixar a campanha padrão-machista de lado e investir em outro conceito e fracassar. Mas o que ela não percebe é que essa falta de coragem já é um fracasso por si só.
A publicidade tem poder de emocionar, de tocar, de abrir horizontes e de despertar emoções. De fazer rir mas também de incomodar. E mesmo assim as mulheres continuam sendo meros objetos decorativos e sexuais. Isso quando a propaganda não faz apologia à dominação e ao estupro. Em um mundo onde uma maioria esmagadora de consumidores é do gênero feminino e onde os índices de violência feminina são alarmantes, a publicidade continua tendo medo de empoderar as mulheres.
Um trecho muito pertinente do artigo da Fórum sobre a propaganda da Vono: "Aliás, falar na linguagem do capitalismo às vezes é a melhor alternativa que as mulheres possuem para que sejam ouvidas. Afinal, mulheres também bebem cerveja, compram sopa em pó, consomem e pagam por produtos e serviços. Em muitos casos, as mulheres ainda são responsáveis pela feira da semana ou do mês e são elas que se deslocam até supermercados para escolher o que vão colocar na mesa. Parece lógico, mas no mundo da publicidade, só quem recebe o devido respeito é o público masculino, em detrimento das mulheres, que são constantemente hostilizadas e agredidas em propagandas misóginas".
Se o mundo é metade feminino, porque a publicidade brasileira é tão machista? Se nós consumimos cerveja, porque estamos nuas nas propagandas? Porque somos vendidas como meras donas de casa ou objetos sexuais segurando uma garrafa? Porque, meus queridos, a propaganda é a alma do negócio. Enquanto a publicidade vender que somos seres inferiores, tem muita gente que vai acreditar e continuar alimentando o monstro do machismo. Simples assim. A publicidade tem medo das mulheres.
Isso só mostra que estamos no caminho certo. Mas ainda existe muito a se fazer.
Outros links pra se ler:
Dez propagandas históricas machistas
Mídia Feminista
O machismo que impregna a propaganda
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Lyra
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segunda-feira, 2 de março de 2015
Callas, essa maravilhosa
Há algumas semanas, o caderno que eu edito no jornal ficou em polvorosa com a chance de entrevistar uma atriz maravilhosa, diga-se de passagem: Silvia Pfeifer. Quem assiste ela na novela das sete como vilã, hoje, não imagina a simpatia que ela é. Uma pessoa centrada, acessível, que, como diz a minha estagiária Lua, ganha em todos os níveis de maravilhosidade. A Silvia veio pra cá pra estrelar a peça "Callas", baseada na vida trágica da soprano grega Maria Callas, que morreu nos anos 70.
Resolvi ir assistir já antecipando que seria uma peça daquelas boas. E de fato, foi. A Silvia, incrível, o cenário extremamente elegante e bonito, iluminação surpreendente e sensível. Em quase uma hora de montagem, você tem a oportunidade de conhecer mais sobre uma cantora que fez história na ópera mundial, e que teve uma trajetória cheia de problemas pessoais e profissionais.
| Foto: Marcelo Victor |
O enredo se desenrola, curiosamente, como se fosse uma enorme entrevista jornalística daquelas que só repórteres próximos à fonte fariam, já que, na sinopse, o jornalista John, personagem fictício, convida Callas para conhecer uma exposição que fará sobre ela e aproveita para entrevistá-la. Só que, nesse momento, a intensidade e a dramaticidade de uma história real acabam dominando a história. Em determinado ponto, John (o jornalista) vira o entrevistado pela curiosa Callas, que, nesses momentos, deixa a amargura pessoal de lado para fazer perguntas. Mas John foge e recomeça a tocar nas feridas dela.
A peça me fez refletir não só sobre a história de uma mulher imensamente forte que passou por muitas coisas ruins como uma mãe opressora, a cobrança de ser a melhor cantora do mundo, o casamento sem amor e depois o amor que se casa com outra, o filho que é natimorto, as críticas pesadas da imprensa. Tudo isso pelo amor à música e ao seu público, que ela cultivava com apreço. A maior reflexão que me trouxe foi sobre a relação fonte-repórter.
Callas cita, em vários momentos, sua relação de amor e ódio com a imprensa. Muitas vezes, jornais italianos e franceses usaram sua rixa famosa com a cantora Renata Tebaldi, para vender exemplares. E essa pisoteação fazia sucesso. Maria Callas não confiava na imprensa. Mas amava estar nela quando era ovacionada. Nem sempre nosso papel é destruir carreiras ou humilhar, mas revendo a situação dos jornais na época que Callas viveu, muitas vezes isso era serventia da casa. A cantora teve o azar de ver a imprensa em sua face mais grotesca.
E, quando Callas diz à John que foi execrada pelos jornais porque "abandonou o espetáculo mais uma vez", com manchetes e letras garrafais, ela se vira para o amigo, e diz: "minha voz estava acabada, John". Na biografia dela, é contado que ela desmaiou de exaustão e pela dor da voz há muito perdida atrás das cortinas. Que se fecharam pra sempre.
![]() |
| Momento tietando a Silvia <3 |
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Lyra
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Dos diários e de um outro tempo
Quem eu era, há alguns anos. A menina que eu fui quando adolescente. Os diários que eu sempre escrevi. Tive um milhão de agendas, cadernos, livrinhos de desabafo. Eu sempre gostei de escrever pra desabafar.
Desses milhares de diários, alguns cadernos ainda permanecem, que eu escrevi na adolescência. Eu sai da casa dos meus pais e não sei porque senti que precisava deles na minha casa nova. Não folheei nenhum durante a mudança.
Todos os escritos são reticências de ser adolescente e ter um monstrinho de dúvidas e inquietações dentro de você. E como tudo isso se conecta à mim hoje, quando minha única concessão é escrever nesse blog, raramente, assumo, menos do que deveria.
Desses cadernos e linhas e folhas de papel, o que sobrou de mim. Ontem a noite precisei abri-los e foi como abrir uma cápsula do tempo, o que na verdade eles são. E perceber que o ensejo não mudou. A música ainda é a mesma. Os desejos de adolescente eu tranquei numa caixa de chumbo aqui dentro. Mas eu não posso continuar mais negando que eles existem e eles já estavam lá naquela época.
Eu já imaginei criar uma fogueira enorme com esses cadernos e queimar tudo, os canhotos de cinema, os desenhos, os recadinhos de amor e as letras de música. Já imaginei ver aquilo ardendo, queimando, meu passado e minha definição. Mas desisti. Ás vezes a gente precisa se encontrar um pouco. Aquela menina risonha e que funcionava à mil, eu não consigo mais acreditar que não sobrou nada mais dela. A gente não pode aceitar que se perdeu entre os numerais 15 e 30. Nossa idade. Nosso crescimento.
Março, esse mês que se aproxima, quando eu completo, no dia 31, meus 26 anos, sempre me faz refletir dessa forma. Sempre, como aqui. Fuçando nos diários como se fossem tábua de salvação, encontrei a data onde eu comecei a odiar aniversários, em 2004, a contabilizar o caos e a amargura não de ficar mais velha, e sim de me sentir mais frustrada, quando nada que eu imaginei aconteceu. É um sentimento ruim por tempo demais.
"
Março chegou. Sempre que eu lembro do mesmo mês no ano passado, sinto um aperto no peito. Eu tinha tanta certeza sobre tantas coisas. Sobre o que eu era, o que eu queria e onde iria estar. Minhas certezas eram de ferro. E eis me aqui, vivendo outra vida, que em nenhum momento foi planejada por mim. Março me faz olhar pra trás, pra todos os dias 31 que já passei e lembrar com muita clareza desses planos que nunca floresceram.
"
Eu disse em março de 2013. Não mais
Esse ano, prometo, vou deixar os diários e o mês de março em paz. E só assim vou sorrir com 26.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
4 Dicas práticas para usar o Feng Shui na decoração
Na
hora de comprar móveis para a casa ou escritório o Feng Shui pode servir como
uma ferramenta útil para harmonizar os ambientes, tanto em um sentido
decorativo quanto no sentido energético. Por isso reuni neste artigo 4 dicas práticas para
usar o Feng Shui na decoração. Confira:
A entrada da sua casa vale mais do que você
imagina
A
porta de entrada é um dos pontos principais de atenção para o Feng Shui, pois é
por ela que a maior parte da energia (aqui chamada de Chi) entra dentro do
ambiente. Sua porta da frente precisa ser agradável e convidativa tanto para
seus amigos e clientes quanto para as energias positivas e novas oportunidades
de negócios.
Garanta
que nada atrapalhe a visão e o caminho de entrada, tanto por dentro quanto por
fora. Para o Feng Shui, a facilidade de entrada e saída das pessoas também vai
facilitar o fluxo das energias boas na sua casa ou escritório.
Cores adicionam diversos significados
Decoradores
e arquitetos experientes em Feng Shui utilizam o “Mapa Baguá” para definir
desde a posição de móveis
para sala, até a cores e texturas
para decoração. Este mapa define as influências das cores e energias que
cada objetivo têm dentro da casa.
Para
identificar as posições e outros detalhes dos móveis na decoração é preciso
aplicar o Baguá partindo da planta baixa da casa, considerando a porta de
entrada. Para mais informações sobre o Mapa Baguá assista este vídeo no Youtube.
Dispositivos eletrônicos não devem estar
presentes em lugares de descanso
Tanto
em um quarto quanto em uma sala de descanso dentro do escritório, os
dispositivos eletrônicos devem ser banidos ou evitados ao máximo. Segundo o
Feng Shui eles sugam suas energias e te impedem de ter um bom descanso no sono
ou em uma pausa para um café.
Mas
se você precisa manter eletrônicos em locais de descanso, tente guarda-los,
sempre desligados durante a noite.
Tenha algumas plantas
No
Feng Shui, as plantas representam a natureza e trazem felicidade e energias de curativas
para qualquer ambiente. Por isso, mantenha sempre plantas saudáveis e coloridas
para ter sempre brilho e vitalidade na sua casa ou escritório. E trate de
cuidar bem delas, pois plantas mal cuidadas e mortas podem gerar um efeito
contrario, pois acumulam excessivamente a energia Yin.
Espero que tenham captado as pequenas essenciais do Feng Shui para a decoração. Este é um grande universo que pode ser explorado para deixar a sua casa mais bonita, aconchegante e aberta para receber boas energias.
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Lyra
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
"Rock de Menina"
De vez em quando eu desapareço do blog porque minha escrita trava, como eu já expliquei pra vocês aqui. É uma tarefa muito árdua pra mim, às vezes, escrever, porque meu ganha pão é esse e o desafio é não me perder nesse emaranhado de letras. Eu passo o dia inteiro escrevendo. E quando quero escrever, me faltam palavras. Mas não desistam de mim.
Hoje fiz uma descoberta musical daquelas genuínas e por acaso. Me perguntaram se eu conhecia Far from Alaska. Coloquei no Youtube e senti uma formigação dentro do estômago, maravilhosa, como há muito tempo não acontecia.
Ouvi essa música. Um vórtice de pensamentos e lembranças aterrissou sobre a minha cabeça. Meu deus.
Que força, gente. Que força.
Procurei sobre a banda e descobri que eles são de Natal (RN), brasileiros. E fui ouvindo a música mais e mais e lembrando de como era ter banda, das bandas de metal que eu tive. Deixando a música FODA de lado, me identifiquei com a moça vocalista. Uma vez reclamei de ter dificuldades em encontrar bandas de stoner rock com vocais femininas, e taí uma delas pra me tirar o chão.
Emily, não te conheço, mas já te amo. Sua voz não só me impressionou como me senti sob os seus ossos nesse vídeo. Uma garota de camiseta, jeans, sem maquiagem, gritando letras fortes e irônicas. Sem ser objeto, sem ser necessariamente magra, loira, cantando dilemas de amor e falando de namorado nas músicas, porque ela fala sobre o que ela quiser, usando a ironia que quiser e os palavrões e o idioma que ela quiser. Porque é isso que a maioria dos roqueiros de plantão acham que mulher tem que fazer no rock: cantar letrinha babaca sobre algum macho, provavelmente com uma voz fina e infantil. Porque mulher que canta grosso (como eu cantava), não pode ser levada à sério. Wait, shut!
Quando eu tinha 16 anos, tinha uma banda que tocava som pesado e fazia cover de bandas de metal femininas gringas. A gente foi tocar em algum buraco da cidade e lembro que eu usava um shorts largo, uma camisa preta, bota e aquele cabelo batendo nas costas. Eu tocava uma guitarra preta flying v, e aquele era meu momento de gritar e berrar em gutural. E na banda tinham outras duas meninas. E lembro de estar encostada em um pilar esperando nossa vez de de tocar e ouvi um diálogo: "aquela que é a vocalista? isso aqui não é show da Sandy não", disse o ~headbanger~.
Lembro que subi no palco e abri o maior gutural que consegui. Virei pra ele, entre uma segurada de palheta e outra, e mostrei o dedo do meio.
Foda-se você, seu machista. O choro é livre porque as mulheres vão continuar nadando contra a maré social desse mundo misógino. Se conforma. Aqui vai meu gutural pra você.
E Far From Alaska me trouxe toda essa sensação de volta. Um dedo do meio entre as seis cordas bem grande pro machismo.
We rock, girls.
She says, "I gotta tell you my story, man
The right story, man"
(Because yours is a lie)
Wait, shut, I gotta tell you my story, man
The whole story, man
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
A journey
Tem uma onda selvagem que de vez em quando passa pelas nossas vidas que eu chamo de "bad trip". Sim, aquele termo cunhado pra quando aquele tóxico não dá o efeito desejado. Sometimes a vida é uma viagem ruim, mas aí você acorda no outro dia, faz o café, repensa umas coisas, refaz uns ~projs~, e segue o rolê.
Faz horas eu tenho visto várias pessoas da timeline saindo da casa dos pais, da república, indo morar sozinho. E sim, isso é uma verdadeira aventura, uma trip daquelas. Uma aventura maravilhosa.
Depois que eu fiz isso, que catei a matula e a Panci e deixei o conforto da casa da minha mamai, várias pessoas vieram me perguntar como foi, como está sendo e como será. Muitas vezes com um olhar brilhante de quem enxerga o risco que é deixar uma situação confortável para partir pra outra que pode não ser tão confortável assim.
Pois bem, meu conselho pra todo mundo que tem ou teve a ideia de algum dia, por mais longe que esse dia seja, de sair da casa dos pais, é o seguinte:
just do it.
Faça isso. Viva isso. Vale a pena.
Não vai ter comidinha quente da mamai feita na hora, esperando na mesa. Mas aí você aprende a cozinhar, compra só o que gosta pra por na geladeira.
Não vai ter conta paga sem você perceber, mas vai ter você sabendo o valor do seu dinheiro e de todo mundo.
Vai ter muita solidão? vai sim. Silêncio também. Mas também muito filme pra assistir, seriado pra alimentar o ócio. E se nada disso remediar, tem sempre os amigos e a família pra ver, tomar uns bons drink, fazer uns bons churras.
Se eu não tivesse minha casinha, meu cantinho, nesse momento, eu ia estar embarcando na maior bad trip da história dos meus 25 anos. Mas não tô, porque chego em casa, brinco com meus gatos, faço panqueca e assisto Masterchef. Sinto mais saudade da minha família, e eles de mim. A solidão me abraçou como uma igual.Tô crescendo.
Just do it.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Se você não brilha venha e pague minha luz
- Olar, eu me chamo Daiane, conhecida nas redes sociais por menina lyrinha, tenho 25 anos, sou jornalista e moro sozinha.
- Sozinha? você é casada então, né.
- Não não, só moro sozinha.
- Mas como?
- Morando uai. Eu e minhas duas gatas caipirotas.
- Mas porque?
- Porque eu gosto, sempre quis ter meu canto.
- Brigou com seus pais?
- Não, só gosto mesmo.
- Gosta de ficar sozinha?
- Sim, adoro.
- Mas você é muito nova. Seus pais moram em outra cidade, veio pra estudar?
- Não, eu trabalho e pago minhas contas, meus pais moram aqui em CG mesmo.
- Mas porque você saiu então, se mora na mesma cidade?
- Porque eu quis uai.
- Mas... mas... mulher nunca sai de casa, só sai pra casar.
- Quem disse isso?
- Todo mundo sabe.
- "Todo mundo" machista, né?
- Er... pensando por esse lado... acho que sim.
Tô aqui lavando a minha roupa no meu tanque cujas contas eu mesma pago sem casar e sem lavar cueca de marido, tomando meus bons drink de perna pra cima com meu pijama furado de gatinhos na minha sala, falous valeus sociedade!
Porque é tão difícil entender que mulher pode fazer o que quiser?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Das opiniões sobre o meu corpo que eu nunca pedi
Esses dias eu estava comentando com a minha irmã que queria fazer uma tatuagem imensa no braço. E ela respondeu: eu preferia que você fosse pra academia cuidar da sua saúde.
Eu fui pra academia a um tempo atrás e o instrutor disse que eu estou muito acima do meu peso ideal e me recomendou várias atividades e musculação. Fiquei uns dois meses malhando mais ou menos 2 horas por dia. No mês seguinte viajei e a academia ficou de lado.
Quando eu malhava, fiquei com dor no corpo todo every fucking day, e a instrutora de musculação me deixava puta da vida. Primeiro porque era grossa quando eu pedia alguma ajuda pra ajustar um aparelho ou algo assim. Segundo, uma vez eu tava puta da cara levantando peso com as pernas e pedindo mentalmente pra Jesus me levar e ela disse "como ce é mole! vai gordinha".
Como ce é mole. Vai gordinha. Vai gordinha.
Sim, porque eu estava me sentindo ótima naquele momento e de certo a mulher tinha alguma intimidade comigo pra vir me chamar de molenga and gorda. Ok né? Não. Desanimei total e larguei a academia no terceiro mês. Meu peso não mudou muito desde então, mas muitas vezes fiquei indo e voltando nos meus pensamentos a respeito do meu próprio corpo. Meu. Corpo.
Há uns meses atrás escrevi um texto pro blog onde eu enaltecia a frase: "meu corpo, minhas regras", em que eu dizia com várias palavras que me amava como sou. Agradecia a uma pessoa por ter me ajudado com isso. Algum tempo depois decidi fazer academia. Fiquei amargurada com tudo e não postei esse texto até hoje.
Eu vejo posts da Tess Munster e fico encantada. Ela é tão linda e tão estilosa e eu penso, nunca vou ser assim, me vestir desse jeito. Vejo postagens de gente chamando a amiga de gorda e de homens menosprezando mulheres com dobrinhas e dizendo que vestir 44 é ser plus size. Não gente, não.
Aí paro e penso na minha própria vida. Eu sempre fui grande. Quando era magra na adolescência (pq eu me achava gorda mas hoje sei que eu não era) as pessoas me notavam mesmo com as enormes tentativas de sumir atrás de uma cortina de cabelo. Eu tenho as costas largas, 1,69 m e calço 40. Eu nunca fui um padrão, nem serei jamais.
Me pego pensando que tenho vontade de voltar no tempo e pegar a minha "eu" atual, que conhece o feminismo e que aceita o próprio corpo muito melhor e levar pra dar umas lições nas pessoas que vieram falar groselha sobre o meu corpo.
Viagem no tempo 1:
- Eu aos 17 anos, indo tocar com a minha banda em um bar. O show tinha sido contratado por telefone e orkut. Na época, o baixista da banda era meu namorado. O cara que contratou o show me contactou pelo perfil no orkut (sdds). Quando chegamos no bar, eu sentei num banco e fiquei tomando umas esperando começar. Esse produtor sentou do meu lado e ficou conversando bobagem. Aí soltou: "Eu pensei que você fosse mais magra".
Primeira reação foi pensar: -q.
Segunda reação foi ficar com vergonha pensando "tô enganando as pessoas?".
Minha eu atual chega e fala: "Amigo, veja este bar, está cheio de gente e ninguém te perguntou nada do meu corpo. Eu não te conheço, não te dei direito de achar nada a meu respeito. Flw Vlws".
Viagem no tempo 2:
- Eu há dois anos atrás sentada num bar com meus amigos, chega meu ex-namorado com quem fiquei oito anos e sua atual namorada. Fui indiferente e continuei me divertindo, por motivos de que terminamos brigados e fazia quase dois anos que tudo tinha acabado, a vida segue afinal. No final da noite chega o garçom com um bilhete da menina pra mim, que ela deixou com ele e foi embora. E ficou ligando no bar pro cara entregar (que rolê imenso só pra entregar um bilhete). O bilhete dizia: "ele é meu sua gorda recalcada"
Primeira reação foi pensar: -q
Segunda reação foi ficar com vontade de jogar a mesa na cara dela, mas a garota não estava mais lá. Ela foi medrosa o suficiente pra entregar o bilhete e ir embora.
Terceira reação foi ficar com pena dela por achar que eu ainda queria alguma coisa com um ex que eu realmente nunca mais tinha conversado na minha vida. Fiquei sem entender porque eles se importavam tanto comigo se eu jamais falei com ele depois do fim. Bateu um conflito.
Minha eu atual chega e fala: "Garota, primeiro de tudo, meu corpo é meu e só meu e não entendi qual seu problema com ele. Tô agredindo seus olhos com a minha gordura? vira o rostinho pro lado minha querida! Segundo, mano, quem saiu do lugar pra mandar bilhete feito uma criança de cinco anos foi você e não eu o que demonstra o recalque real. Terceiro, fica pra você esse aí fia, e aceita que dói menos, vlws flws".
Esse cara e essa mina, o que eles tinham em comum é o problema com o meu corpo. Um problema que eu vou continuar lutando não pra ter. Não importa se eu emagrecer, pintar o cabelo, se eu engordar. A minha luta vai ser pra que ninguém se ache no direito de exprimir sobre mim, o que eu faço e como vivo, e quem eu sou, sua opinião sem consulta. E eu vou morrer lutando pelo direito de ser quem eu quiser.
Flw, vlws.
PS: A., aquela agradecimento do post nunca publicado é real. Obrigada.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
A mulher jornalista
Na última sexta-feira (24), fui uma das participantes da mesa redonda "Mulheres no Jornalismo: O que queremos" organizada pela semana de jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a simpática Semajor. Ao lado de outra jornalista com o perfil completamente diferente, tinha a missão de falar sobre o que é ser jornalista e mulher. Pois bem.
Rasguei o protocolo quando abri a fala dizendo que não dá pra falar sobre ser jornalista e mulher se a gente não discute quem é a mulher na mídia brasileira e quiçá mundial. Como vamos falar sobre o que é ser mulher dentro das redações, se dentro e fora delas, a gente ainda sofre desgraçadamente com um machismo que impera pras jornalistas ou não? impera pra todas nós?
As mulheres representam mais de 60% dos profissionais hoje dentro da área de jornalismo, entre assessorias e veículos de comunicação. Mas uma pequena parcela dessas mulheres está em um cargo de chefia. E a maioria esmagadora ganha menos que os colegas no mesmo cargo.
A pesquisa detalhada foi feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e você pode checar em detalhes aqui. E o mais triste é que ela foi fazer um mapeamento do perfil do jornalista brasileiro e voltou com essa triste constatação de que, em mais uma área, a mulher é muito menos valorizada do que devia. E que o perfil do jornalista brasileiro é, pasmem, a jornalista brasileira. Citando a própria pesquisa: "(...) os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos". TÃ DÃ! (vinheta do Law & Order).
Quando essa pesquisa veio à tona, o impacto foi mínimo mesmo a informação sendo incongruente: 1. Tem mais mulheres nas redações. 2. Elas não ocupam cargos altos e ainda tem salários menores. Chorei largada na cantareira.
Mas muito além disso, o que mais me incomoda é como tratamos as mulheres na mídia. Quer dizer, o que publicamos sobre nós mesmas, sobre nosso próprio gênero. E foi sobre isso que falei na mesa, sobre as três vertentes da mídia machista: A "Musa" de qualquer coisa (insira aqui um grande evento brasileiro, principalmente esportivo. Apenas aguardando as ~musas das olimpíadas~). A reportagem "Por ciúmes, homem mata a esposa" (vamos começar a produzir matérias "por fome, ladrão rouba supermercado" aí por favor?) e a matéria do "suposto estupro" quando tem a palavra flagrante no mesmo parágrafo.
Se sutilmente a gente massacra a mulher no nosso discurso jornalístico cotidiano, entre pautas e leads, vai ser diferente com a mulher jornalista? como discutir a vida dessa profissional (essa cara sou eu) se enquanto mulher, enquanto membro de uma sociedade, sou desvalorizada o tempo todo única e exclusivamente pelo meu gênero?
É por isso que precisamos analisar nosso discurso sendo essa mulher jornalista. Sendo essa profissional que tem o poder de escrever o cotidiano das pessoas em qualquer mídia que seja. Mas nosso colega jornalista, aquele que ainda ganha mais do que a gente, também precisa. Vamos analisar nossos julgamentos pessoais sobre as matérias que a gente escreve. "Olhar sensível" das mulheres sobre a pauta não existe, a gente é treinada desde criança pra achar que tem que ter esse olhar. Mas o olhar crítico todo mundo pode ter.
PS: Seu machista, pega aqui na minha pauta e balança! Olhar sensível é o deadline da sua cara! risos.
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Lyra
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Curvas
Completei hoje um mês morando sozinha. Entre xícaras de bolinha e momentos de paz e silêncio, completei uma etapa da minha vida. Em comemoração adotei mais uma gatinha, pra fazer companhia pra minha bravinha Panci, que passava muito tempo forever alone em casa. O nome escolhido combina com o quanto ela é voluntariosa, cheia de vontades e corajosa: Arya. (em homenagem à Arya Stark, veja bem).
Fico me questionando, às vezes, se faz bem viver pra objetivos. Eu tinha esse, de morar sozinha, ter meu canto, minha casinha, há tanto tempo que perdi as contas. Agora eu consegui realizar ele e nada me faz mais feliz do que falar "vamos lá em casa que eu vou cozinhar" pras pessoas queridas. Agora vamos ao próximo, é a frase que martela minha cabeça.
Da curva não sei mais nada. Penso que às vezes, a gente acha que vai chegar no fim da estrada quando realiza algo grande na vida. Mas me sinto ladeando essa curva, e alguma coisa maravilhosa me espera no fim, ou assim eu tento pensar. Eu sei que a jornada é tão importante quanto a chegada. E por isso vou suave.
Esperando por mais curvas.
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Eu quero ser escritora.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Qualquer dia...
Qualquer dia eu vou acordar e te ver ressonando do meu lado, dormindo tranquilo porque seu sono é bem mais tranquilo que o meu. Eu me debato, resmungo, falo dormindo mas você não, então eu sinto, e sempre senti, que é como se você guardasse meu sono, me protegesse, me mantivesse segura quando eu cruzo as fronteiras do subconsciente, esse mundo aterrador onde as lembranças se transformam de uma forma nunca segura, sempre traiçoeira.
Mas eu me sinto segura qualquer dia quando acordo ao seu lado.
Qualquer dia eu vou ouvir você me contando sobre seu telescópio e sobre as coisas que você gosta, e sobre seu livro sobre guerras mundiais, e sobre seu seriado favorito que eu vou assistir. E você fala com paixão e ri da minha cara quando eu falo que seus gostos são engraçados, e me abraça dizendo que a minha banda favorita é tosca, depois de encher meu computador de música que você gosta.
Qualquer dia você vai chamar a minha gatinha de gorda e vai fazer carinho do jeito exato que ela gosta, de uma forma que eu eu nunca vi ninguém fazer. E vai achar engraçado que ela goste tanto de você e fique te seguindo pela casa de um lado pro outro, miando, pedindo atenção, dizendo que ela é linda e engraçada e se parece comigo.
Qualquer dia ela vai se aninhar em você pra dormir, porque assim como eu ela ama o seu calor.
Qualquer dia eu vou comprar cada ingrediente do seu prato favorito com carinho, vou pegar minha panela favorita e vou cozinhar com toda a paixão que puder reunir em pimenta e sal. E vou te olhar comer e elogiar aquele prato que fiz, como se a comida que eu preparei pudesse traduzir tudo que eu sinto em demasia.
E qualquer noite vou cutucar você com a ponta do meu pé por debaixo da mesa do restaurante chique, sem ninguém perceber, arrancando um sorriso de você enquanto você estende a mão e percebe que eu tirei o sapato quando alcança meu pé com as unhas escarlates. Sinto sua mão quente acariciando minha pele, quando você estende sua mão sobre a minha por cima da mesa de linho.
Qualquer dia vai doer menos. Mas nunca vai ser menos amor.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Lar doce
"Casa" é a designação, o significado, a roupagem, o começo-meio-fim de um sentimento intenso de paz e sossego.
Para mim, e apenas para mim, é um todo palpável.
É um abraço que envolve seu corpo inquieto e que no momento do toque faz você transpirar calma de uma forma que você não pensasse possível.
É um momento de assistir televisão de pernas para cima, rindo de alguma coisa boba em um filme, onde não existem preocupações urgentes. É o cheiro de alho fritando na panela da cozinha enquanto pessoas queridas riem na sala.
"Casa" é chegar, abrir a porta, e uma felina se enroscar nas suas pernas te dando boas vindas com um miado fininho e alegre de saudade.
É você saber que cada coisa que está fora do lugar, na verdade, está no lugar que sempre deveria ter estado, porque tudo aquilo é você e seu lugar é ali. Apenas ali.
E tudo que te amargura e que te entristece deve ficar do lado de "fora". E quando você está ali na sua "Casa", você trabalha seus sentimentos de forma a criar aquela couraça pra lidar com seus medos quando pisar o pé lá "fora". Pra que, um dia, o "fora" não exista.
Só a "Casa".
Para mim, e apenas para mim, é um todo palpável.
É um abraço que envolve seu corpo inquieto e que no momento do toque faz você transpirar calma de uma forma que você não pensasse possível.
É um momento de assistir televisão de pernas para cima, rindo de alguma coisa boba em um filme, onde não existem preocupações urgentes. É o cheiro de alho fritando na panela da cozinha enquanto pessoas queridas riem na sala.
"Casa" é chegar, abrir a porta, e uma felina se enroscar nas suas pernas te dando boas vindas com um miado fininho e alegre de saudade.
É você saber que cada coisa que está fora do lugar, na verdade, está no lugar que sempre deveria ter estado, porque tudo aquilo é você e seu lugar é ali. Apenas ali.
E tudo que te amargura e que te entristece deve ficar do lado de "fora". E quando você está ali na sua "Casa", você trabalha seus sentimentos de forma a criar aquela couraça pra lidar com seus medos quando pisar o pé lá "fora". Pra que, um dia, o "fora" não exista.
Só a "Casa".
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