Páginas

Mostrando postagens com marcador Assessoria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Assessoria. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Trabalhar pra viver (e viver pra trabalhar)

Minha rotina profissional melhorou muito, depois que decidi uma série de coisas sobre o trabalho. Mas até aqui, foi um caminho meio dolorido. 

Quando eu fazia faculdade, o trabalho (no caso estágio) era apenas uma das coisas que me realizava. Quando me formei, passou a ser a principal, e eu passei a me agarrar mais a ele do que a todo o resto em função do desejo de ter uma carreira rentável. Porém, esse ano eu percebi que, dentro desse turbilhão, eu estava exausta. Não rendia, não pensava, era automático. E isso refletiu no meu desempenho. Além disso, percebi que eu cedia demais, e por isso não estava sendo valorizada; que eu me desesperava por muito pouco dentro do departamento, que não estava dando conta de burlar alguns obstáculos. 

Foi um baque quando notei que aquilo para o que eu estava dedicando 10, 12, 14 horas por dia, não estava dando em nada. Senti como se tivesse perdido tudo (/dramaqueen). 

Então pensei: "Se nada muda, eu mudo". Busquei outras oportunidades, uma melhor remuneração. Reuni textos, gastei tempo pensando nas minhas falhas e em como melhorá-las. Assim, desfilando semanas, hoje estou finalmente num bom momento. 

Ainda trabalho mais de dez horas por dia, pois além de tudo consegui um frila: agora (e nas horas vagas), sou repórter convidada em uma revista mensal, e trabalho basicamente no meu tempo livre: durante a noite e horário de almoço. Também refiz meus modelos de trabalho. Em resumo, parei e respirei. Porque se a gente não para um pouco, revê prioridades e decide o que precisa ser feito, a gente adoece. E aí nenhuma remuneração devolve isso.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Espelhos modificados

Foto: Alexis Prappas.

Quem acompanha meu twitter (que é bloqueado por inúmeros motivos gente, dsclp, mas você pode dar follow request se achar que deve) sabe que recentemente eu trabalhei como assessora de imprensa de um concurso de miss. 

Antes de mais nada: sim, eu fiz cara feia, quando o gerente da redação (a.k.a Renato, o @filhodapauta) me perguntou o que eu achava de concursos de beleza. Achei que ele estava tirando a maior onda com a minha cara, e eu simplesmente disse o que eu achava: perda de tempo. Falta de carpir lote. Futilidade. 

E, passados dois meses, eu simplesmente agradeço ao universo por ter acesso a tantos mundos diferentes do meu, e assim, aprender gradativamente a julgá-los com menos severidade, com menos olhares de reprovação e de asco espontâneo. Dessa forma, eu reitero aos poucos a minha própria opinião, depois de viver aquilo. Sem deixar minha visão pessoal contaminar qualquer observação que tenho acerca. Só digo uma coisa: mais do que ser miss ou não, não é fácil ser mulher. Daqui a pouco eu explico. 

Se há poucos dias eu estava imersa em um festival de cinema LGBT, semana passada quase enlouqueci enquanto pensava em pautas sobre make up, hair stylist, vestidos e outros assuntos relacionados. Nada disso faz parte do meu mundo, de menina gorducha sem paciência pra beleza, mas eu fiz, mesmo que por pouco tempo, parte do mundo deles, como jornalista, assessora e observadora. 

O Miss Mato Grosso do Sul elegeu no dia 9 de agosto a moça que representará meu estado no Miss Brasil, e quem sabe, no Miss Universo. Mas antes disso, nós começamos o trabalho, primeiro, de divulgar que as seletivas para o concurso estavam abertas. Nessa etapa participei pouco, em função de outros trabalhos. Peguei o negócio muito mais quando estava próximo do evento. 

Meu primeiro grande choque foi conhecer a Miss Brasil, Priscila Machado, convidada para apresentar o evento. A moça é mesmo incrivelmente linda, e tudo nela é extremamente impecável. Então, durante uma entrevista que acompanhei, ela revelou que quase tudo em seu corpo passou por alguma intervenção cirúrgica: rinoplastia, lipoaspiração, silicone. Meu primeiro pensamento: "Cara, como assim?". Meu segundo pensamento: "Que droga de mundo". Sim, que porcaria de mundo onde a beleza ideal é alcançada, apenas por meio de bisturis e intervenções. 

No extremo oposto do mesmo concurso estavam as garotas daqui, as concorrentes daqui. Algumas já modelavam há alguns anos, outras vieram mesmo do interior e fizeram campanha entre parentes e amigos para arrecadar o dinheiro da inscrição. Do outro lado do ringue, elas não tinham modificações corporais, apenas sonhos de serem as mais belas. Muitas tímidas, de fala típica. Algumas mais tranquilas, outras com cara e perfil de terem nascido em berço de ouro. 

O segundo choque que me veio nesse turbilhão foi notar a expressão das moças durante o concurso, de alegria sustentada na cara pra agradar, tentativa de charme e personificação de beleza ideal. E olhar pra elas, e perceber que naquele momento, havia mais de 400 pessoas julgando todas elas, ao mesmo tempo. Elas, sujeitas a isso por um sonho e por vontade própria. Ao meu lado, comentários de "aquela ali é gorda demais para ser miss", "olha aquele nariz", e coisas do tipo. Meus julgamentos particulares acabaram aí. Aprendi a não julgar dessa forma tão... desumana, porque não consigo encontrar outra palavra pra definir os comentários que ouvi entre os corredores. 

Na minha cabeça, alguma coisa muito forte me dizia que elas eram algum instrumento social de objetificação, e que homem não passa por isso nem é julgado com tanta minúcia a ponto de ter de modificar seu corpo inteiro à base de faca (ou será que é e eu tô errada?). E que esse sonho todo, é apenas um prelúdio pra uma carreira onde vão mandar você se portar, se vestir, e ser do jeito que manda a moda, a tendência, o ideal inalcançável imposto pela indústria. E esse sonho é muito, muito triste. Mas eu penso isso, individualmente. Elas não são diminuídas pelo meu intelecto, nem eu pela beleza delas, ou pela forma que cada um usa o seu pra viver. A gente é igual, de qualquer forma. A gente é mulher. 

O que tirei desse trabalho, foi a seguinte frase, que ouvi da organizadora do evento, nossa cliente da assessoria de fato: "Tem que ter estômago pra enfrentar um negócio desse. E a menina que ganhar, mais ainda. E se ela não for inteligente nem tiver a cabeça boa, esse mundo acaba com ela". 

Acaba. Até seu reflexo no espelho muda. Um dia você deve acordar em meio ao glamour e não se reconhecer mais. 

sábado, 7 de julho de 2012

Se eles não aprendem, a gente ensina


Ano passado eu estava completamente submersa no case de um grande evento de arquitetura e design, então não participei da assessoria de imprensa de um festival de cinema voltado para o público LGBT, que se tornou cliente da agência e retornou esse ano, mas agora sou uma das assessoras, e confesso que esse trabalho tá me dando um orgulho enorme.

Renato apresenta e eu fico ali de assistente de palco. (Foto: Alline Romero) 

Se na faculdade a gente aprende que é preciso ser isento, imparcial, a vida mostra que isso é história pra boi dormir. Os discursos são muitos, e o que mais se vê é galera apontar o dedo na sua cara quando se defende que a gente é, antes de jornalista, humano, cheio de medos, preconceitos, traumas. E que não existe isenção, é impossível. Imparcialidade é ficar quieto. Não existem veículos imparciais, ainda mais em função do dinheiro que move a indústria da informação.

O problema da defesa dos direitos de gays, lésbicas, travestis, de negros, de índios, de mulheres e todas as minorias (e elas são muitas), é a gente confundir, no jornalismo, liberdade de expressão com escrotisse generalizada, geralmente respaldada por religiões em geral e bancadas evangélicas. Isso sim, na verdade, é o problema.

Cris Stéffany, presidente da Associação dos Travestis e Transexuais.
Foto: Alline Romero. 
Eu me sinto orgulhosa da agência onde trabalho, porque quando aceitamos ser a assessoria de imprensa do evento em 2012, propusemos ao cliente que se fizesse um workshop para jornalistas, principalmente sobre nomeclaturas. É 'a' ou 'o' travesti? e todas as gírias oriundas das ruas, onde essas pessoas estão marginalizadas? Quase ninguém sabe que existe um manual de redação LGBT (Clique aqui e veja em PDF). E que não existem veículos de mídia (revistas, sites) voltados para a mulher gay, independente de estereótipos e padrões. Misoginia? dentro de um universo de minorias? sim, isso existe. Talvez muito menos velada do que é no mundo heterossexual de revistas que só sabem estampar "1001 jeitos de agradar seu marido".

O workshop foi muito corretamente batizado de "Abordagem na imprensa gay: desafios e oportunidades", porque reflete o que queríamos passar: jornalistas, aprendam! O desafio existe, então que a gente busque atingir esse público, da forma certa, da forma respeitosa, da forma não imparcial, mas sim inteligente. E porque não movimentar essa indústria, oportunizar mídia, democratizar, abordar? E sem preconceito, isso é o básico.

Público lotou duas salas de cinema na estréia do filme francês 'Tomboy'. 

Ser jornalista hoje em dia é burlar a extrema deturpação da notícia. Por exemplo, não é proibido fazer uma matéria entrevistando um heterossexual qualquer que afirma que é liberal, afinal, adora os gays, o moço que corta o cabelo dele é viado! ele é muito liberal, mas ele não quer ter um filho gay, imagina, seu filho gay, e inclusive, é grande apoiador de decreto legislativo 234/11, que obriga o conselho de psicologia a permitir que profissionais tratem a homossexualidade como doença e forneça a "cura". Não, não é proibido. Ninguém vive de mordaça. Mas é uma deturpação sem precedentes da realidade utópica, a ideal, o mundo que a gente tenta criar, ou pelo menos eu tento, que é desconstrução desses medos, estigmas, enraizados há milênios na nossa concepção social e de vida em comunidade.

Já vi notícias que falavam que alguns heterossexuais afirmavam sentir a tal 'heterofobia'. Também já vi brancos reclamando das cotas para negros em faculdade, já vi pessoas sem nenhuma deficiência física reclamando de ter que ceder sua vaga para um deficiente. E o pior, as matérias tinham como tendência levantar essas 'bandeiras'. Vem cá, amigo(a) jornalista: pense um pouco. Pense nas minorias. Se você é hetero, pense como é bom poder beijar sua namorada ou seu namorado em público, andar de mãos dadas, sem ser linchado ou no mínimo receber olhares hostis. Sem ser representado na novela como um ser caricato e completamente fora da realidade, e tantos outros absurdos, ser chamado pejorativamente de todos os nomes possíveis numa voz uníssona de ódio. E então a gente evita reportagens revoltantes, e assim, eventualmente, todos aprenderão. A gente, os disseminadores da notícia. Eles, a sociedade. Todo mundo.

*** O Festival Mix Brasil de Cinema continua rolando, aqui, em Campo Grande.  
Hoje estarei lá, firme e forte na assessoria de imprensa. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Desconstruindo o dresscode

Moda pra mim já foi um assunto pain in the ass. Chatóide mesmo, sem menor dúvida. Bons tempos em que eu tinha umas 3 peças de roupa no armário, só usava preto e camiseta de banda, além de umas saias pretas que iam até o pé. Ganhei meu primeiro coturno aos 11 anos, e usei ele até o solado abrir, o que é uma proeza, em se tratando de uma bota de couro preparada pra sofrer.

Quando entrei no mercado de trabalho - leia-se: assessoria de imprensa - passei a me vestir melhor. E nem era em função do trabalho engomadinho não, é que eu passei a ter um certo budget pra comprar roupas. Antes não tinha como comprar nada, normal, é a vida, família sem muita grana. E depois desenvolvi um gosto por itens do vestuário masculino, e que também identificam o perfil jornalista de ser, que são as camisas e as roupas de corte de alfaiataria. Quem diria, Lyra Libero, de metaleira de saia comprida a camisa azul marinho bem cortada. Eu melhorei, acredito. Ou tento. 

Hoje resolvi arrumar o guarda-roupa, jogar umas tralhas fora, já pensando na roupa pra ir no coquetel de uma marca aí, que tá lançando um evento de arquitetura e design na cidade, em um pico meio formal. Traje: casual. Que raios isso quer dizer?

O problema hoje foi a escolha do sapato. O dilema da mulher moderna inexiste, pois a maioria opta pelos saltos, e eu até tem alguns que uso volta e meia. Mas com o pé semi-torcido, como proceder? Thiago não ajudou em nada, dizendo "coloca qualquer um aí, vai". Então eu fui. De bota. 

Querida bota motorcycle ligeiramente surrada: eu te amo. Obrigada por me fazer destoar de todas as outras mulheres na festa. Senão a vida não tem graça.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

desembaraçando.jor

Da primeira ligação que fiz pra primeira fonte, para a primeira pauta nos tempos de Unifolha, embaraçada e insegura, até o dia de hoje, em que andei por toda a extensão do Albano Franco levando a imprensa de cá pra lá, tem chão. Dos tempos do primeiro estágio em jornalismo, abril de 2007, voluntária sem um puto no bolso, era ingênua e ficava nervosa quando tinha que ligar e conversar com alguém. Do cabelo colorido e all star sujo que não tomava café, até a levemente-viciada-em-cafeína que respira assessoria e sabe o que quer dizer coisas como "media training", "follow up" e "budget", um montão de água correu debaixo da ponte.

E eu ainda tremo na base.

Os sonhos nem são mais os mesmos, e na verdade, naquela época era tudo muito simples. Saudosismo bocó, mas é uma daquelas bobas verdades. Dormir até tarde, acordar, vestir a camiseta listrada e o único tênis bom, ir até a faculdade calmamente, comprar cookies na vending machine no corredor do bloco V, subir a escadinha da TV Pantanal, chegar na redação. As pautas eram leves, tranquilas, inspiradas. O chefe era um dos jornalistas mais foda do mundo, com sua "mochilinha" engraçada e o gosto afinado por MPB. Quatro ou cinco horas depois, missão cumprida, aulas. Cabeça livre pra se dedicar a coisinhas infinitas.

Nessa época eu achava que ia escrever para a revista Piauí. Vai vendo.

Mas aí em 2009 virei gente grande, pulei de galho. Por um acaso, fui parar na assessoria de um grande órgão público estadual. Assessoria, logo eu que tinha dois piercings na cara, e que não costumava pentear o cabelo (ops). Por algum motivo gostaram de mim, exceto o jornalista mais inútil que conheci nessa época em que eu não conhecia ninguém, mas que eu ignorava sumariamente em contrapartida. Foi lá que aprendi que às vezes ninguém entende o papel do jornalismo. Nem mesmo os próprios jornalistas. Jurista, então? vish. Menos ainda.

Só que ficaram bons momentos, vários, na verdade. Como quando eu entrei em uma Unidade de Internação de Menores (UNEI), que havia sido alvo de rebelião horas antes. Fotografei os menores, magros e embrutecidos, e os cachos de barata que se estendiam pelas portas. Imprensa nenhuma foi autorizada, mas eu estava lá, e nem formada era, e só porque o tal jornalista inútil tinha preguiça de sair da sala e mandava a estagiária. Ele pode pensar que naquele dia eu me ferrei; eu me considero sortuda. E as fotos que eu tirei após uma operação que acompanhei, com a polícia e outras instituições?. "Trabalho escravo" em uma embaladora de carvão, madeira ilegal queimada. Olhares tristes, cansados, rosto coberto de fuligem e o negrume do carvão pra todo lado. Obrigada, jornalista preguiçoso, por mandar a estagiária em todas essas pautas.

Continuei na assessoria, após esse estágio, já como profissional, mas em um local completamente diferente. Ás vezes noto que minha cara de menina engana, e que o traquejo pra gerenciar crises me falta, e muito. Trabalhar com clientes comerciais me despertou a parte visual do trabalho, de editoração gráfica. Todos os dias vejo bons profissionais em ação, e me sinto feliz por poder aprender. Em outros, quero surtar e arrancar todos os cabelos. Quero tirar a sapatilha de cetim do pé e jogar longe, quero chorar de raiva de episódios que nenhum jornalista de impresso deve passar, aposto minha coleção de filmes do Tarantino.

"É fácil ser assessor de imprensa". Que frase mais equivocada. A gente anda na corda, o tempo todo. Lida com dois lados da moeda. É privilegiado de uma forma e desprotegido de tantas outras.

Da menina que tinha medo de ligar e perguntar "você me daria uma entrevista", sobrou muito. A vontade de ser sempre melhor, que existia naquela época, por exemplo, é a mesma. Exatamente a mesma.