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terça-feira, 26 de março de 2013

Nelson e o véu de tragédias


E com as luzes finalmente apagadas, abriu-se a cortina do teatro no centro de Campo Grande. Escuro tocado por velas artificiais no palco. E uma marcha fúnebre, muito alta, ensurdecedora. Meu coração bateu muito forte nesse instante. A cada batida da marcha dos mortos, era aqui dentro do peito. Fiquei arrepiada, amedrontada e maravilhada, tudo ao mesmo tempo.

 "Vamos assistir de pertinho", eu pedi, logo de início. Sentamos na segunda fileira, tão perto que eu podia me sentir dentro do palco. Nelson me esperava, em cinco contos "rodrigueanos" de "A vida como ela é" encenados pela peça "As Noivas de Nelson", da Cia. Paulista de Teatro.

Abre aspas: o primeiro livro que eu li de Nelson Rodrigues foi "Vestido de Noiva". E aquilo me cativou, pra sempre. Aquele olhar de dramaturgo, jornalista. Irônico, pueril, e ao mesmo tempo pra constranger, incomodar. Eu sempre fui muito fã das obras dele, desse jornalista que viveu na tragédia e tirou dela suas histórias. Na semana que antecedeu a peça, eu escrevi sobre ela, entrevistando a atriz Anamaria Assis e a produtora Katia Manfredi. E já percebi que aquilo me fisgava, porque as fotos eram impressionantes. Na matéria, que eu escrevi me deleitando, feliz da vida, falei de Nelson, de noivas, de obras como "Anjo Negro" e "Album de Família". E lembrei do próprio A vida como ela é, que eu reli pouco antes de ir pra Bonito, ano passado, à trabalho. Fecha aspas.

A genialidade de "As Noivas de Nelson" está também no formato escolhido, que não é uma adaptação e sim uma encenação. Os atores reverenciam o texto o tempo todo, e extraem dele sua intensidade. Simplesmente são os protagonistas, os narradores, os personagens secundários. Em cada conto (“Excesso de Trabalho”, “O Delicado”, “O Sacrilégio”, “O Pastelzinho” e “Feia Demais”), vemos tanto do hoje e do ontem. E os atores que estão ali representando, são fortes, destemidos e intensos, tal qual suas personas.

No primeiro instante em que o primeiro ator surgiu no palco, o rosto cadavérico de cada um, as noivas de vestidos amarelados pelo tempo e o algodão no nariz dos personagens, já antecipam essa tragédia que é tão Nelson. Tão cotidiana, tão cômica ao mesmo tempo. Nelson Rodrigues acostumou-se a narrar essa vida exemplar diante dos olhos de uma sociedade que é despedaçada dentro de quatro paredes. Ele narrou a hipocrisia daqueles tempos (que ainda se parecem com o hoje), e na peça, é ela que parece fazer exaltar a morte.

Entre um conto e outro, ouvimos a voz do escritor. Entre frases desconexas e a voz rouca de Nelson, a ação acontece. E são gritos, choro, murmúrios, sentenças. Entre véus amarelados do tempo, e flores secas em buquês, a gente vê tanto do que também somos: despedaçados e trágicos em nosso perfeitos retratos distorcidos. 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Haicais do Caos

Ninguém sabe como, mas há dias que queimam carros por aqui. Alguma força criminosa sem rosto está colocando fogo em carros estacionados nas ruas da Cidade Morena.

Acho que vi isso tantas vezes nas páginas do jornal que ontem sonhei com isso. Que encontrava meu carro queimando no meio de uma rua deserta. E eu chorava, pedia, gritava, meu carro, meu único bem material, que eu suei tanto pra poder comprar, fruto do meu trabalho e do meu esforço. Aquilo simplesmente queimava, ardia. Aquele objeto, que representou a minha independência mais recente, meu meio de transporte, o funil para onde parte do mês de labuta vai. Queimando. Fora do meu controle.

A gente senta e se acomoda em uma zona de segurança tão grande, e esquece que o caos existe. Está lá fora, está aqui dentro, e nós somos feitos dele. A gente nem lembra, tamanho o conforto, que em um piscar de olhos e pronto, tudo virou do avesso, tudo mudou. Perdemos algo, deixamos algo ir contra nossa vontade. Vórtice.

Eu costumava escrever muito isso nos meus tantos diários da adolescência. Gostava de sentir que era parte pulsante desse caos, que para mim naquela época queria dizer "renovação, mudança". Mas hoje, às vezes sinto que esse esfacelamento da rotina brusco, sem prelúdio e sem preparação, às vezes é muito dificil de lidar. 

Ele vem,  gente se adapta, se renova, cata os pedaços, reconstrói, muda, melhora ou se deixa levar. Se cura, se entrega de volta pra rotina confortável e calorosa. Ou pra rotina gélida da repetição, depende do gosto. E então ele vem, e de novo, leva tudo embora. Leva que nem aquela chuva que falei, que inunda, molha, estraga, mas lava.


E sem caos, a gente não seria nada. 


domingo, 3 de março de 2013

Março desaba

Primeiro fim de semana do mês, logo esse mês. Março, o mês em que eu completo 24 anos. Nem cheguei nos 25 e já sofro por antecipação. Mas março cai do céu junto com a chuva, e nos lava todos os dias, então até agora eu tenho esquecido disso. Ou melhor, evitado lembrar. 

Domingo, 16h. Nós (fotógrafo e eu) estávamos na Orla Morena, entrevistando e acompanhando o Rolê Fotográfico, um grupo de fotografia independente aqui de CG. Acompanhamos toda a volta dos fotógrafos que registravam detalhes do bairro.

Céu azul e claridade no registro da pauta.

Quando cruzávamos uma rua estreita paralela, a chuva desabou com uma força impressionante. Simples assim. Sem aviso nem prenúncio. Minutos antes, tínhamos visto duas araras vermelhas cruzando o céu claro e muito azul pra irem se aninhar em uma copa de árvore próxima. Um nada de tempo antes, sofríamos com o calor implacável da rua.  Pouquíssimo tempo depois, água, muita água, lavou nossos corpos. 

A volta, tudo alagado.

Cheguei na redação ensopada, com os ossos gelados. O café estava frio, mas eu precisava dele pra escrever o texto. Pobre do fotógrafo, que virou escudo humano pro seu equipamento, e que muito gentilmente guardou meu bloquinho em seu colete. 

Sentei, respirei e ignorei o frio. Sacudi o cabelo úmido e comecei a tentar decifrar meus rabiscos no papel em meio aos pingos de chuva. Devo ter suspirado algumas vezes. 

Março chegou. As chuvas vieram junto, essas chuvas trôpegas mas insistentes, que fazem a cidade se converter em um alagado sem limites. E que vai embora assim mesmo, e o céu abre umas duas horas depois, o calor volta e o asfalto seca. No dia seguinte a gente também não vai prever a chegada dela. Nem no seguinte. Acho que só quando abril chegar.

Março chegou. Sempre que eu lembro do mesmo mês no ano passado, sinto um aperto no peito. Eu tinha tanta certeza sobre tantas coisas. Sobre o que eu era, o que eu queria e onde iria estar. Minhas certezas eram de ferro. E eis me aqui, vivendo outra vida, que em nenhum momento foi planejada por mim. Março me faz olhar pra trás, pra todos os dias 31 que já passei e lembrar com muita clareza desses planos que nunca floresceram. 

Eu sei que não é só culpa minha que tanta coisa esteja diferente. Que muitas coisas estão melhores. Mas as que não estão, as coisas fora do lugar, e que talvez nunca voltarão, perdidas pra sempre... essas coisas, Março não perdoa. 

Traz tudo de volta, junto com a água da chuva. 

Mas mesmo com a toda a dor dessas lembranças, sinto que não é em vão. Mesmo entre tropeços, sinto que esse mês dolorido me faz uma pessoa mais resiliente. E talvez um tantinho mais corajosa do que ontem.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mundo machista, apenas pare

Depois de dois episódios envolvendo reportagens machistas, da imprensa local aqui de Campo Grande, que tiveram comentários de mulheres e homens apoiando o senso comum que atrapalha a vida de todo mundo, e que critica a postura de quem defende a liberdade da mulher, eu fiquei me questionando: será que é tão difícil assim entender o que é feminismo?

Primeiro deixe-me explicar. O primeiro episódio era sobre um jornal daqui que sempre fez reportagens muito boas. Mas aí escorregou em uma matéria que falava sobre uma greve de policiais, colocando uma foto de uma policial bonita (tirada sem ela olhar) com uma legenda que reiterava isso, fugindo do assunto completamente. "Agente penitenciária chama a atenção pela beleza em movimento grevista". Quer dizer, qual era o contexto daquilo?

Eu e mais um monte de gente tentamos explicar que a moça não era objeto decorativo. Que ser feia ou ser bonita sendo policial, quem-se-importa? o corpo é dela, a beleza/feiúra é dela! E recebemos argumentos como: "Ela é linda! Se falassem que era feia iam chiar... E por favor, respeitem o olhar fotográfico! Essa patrulha "politicamente correta" está cada dia mais insuportável!!!" e "Nunca foi ofensivo para uma mulher ser bonita, e ser bonita não tira a inteligência e o profissionalismo de ninguém. Quem cogitou essa ideia, esse sim, me desculpe, mas está sendo machista e preconceituoso"

O segundo episódio foi o seguinte: outro jornal online publicou uma manchete dizendo "Com tanto gay na cidade, o que sobrou para as mulheres em Campo Grande?". Aí, já viu. Segue a pérola:

"Na mesa do bar, as três amigas solteiras só comprovam o que as mulheres há tempos vêm reclamando. Hoje em dia há tanto gay em Campo Grande que falta opção hetero para a mulherada. Antigamente, a reclamação era contra os cafajestes, que não queriam um relacionamento sério. Agora, o alvo é a turma gay. “Há anos tem muito gay na balada e, levando em conta que há mais mulher do que homem na cidade, claro que dificulta mais ainda a paquera e arrumar namorado”, comenta Viviane, de 29 anos."

Quando eu li essa reportagem (e não vou nem entrar no mérito da pauta em si), pensei: comentários machistas chovendo em 3, 2, 1. E não deu outra. Foi de "Em Campo Grande falta é mulher séria", pra "mulher em CG tá solteira porque que homem rico com carrão". Sério, nesse nível. 

A polêmica rendeu muito nas redes sociais, então a reportagem estragou a situação mais ainda publicando outra matéria: "Mulher campo-grandense é difícil de conquistar, respondem os homens". Outro 'primor' de comentário na matéria: "Para chamar a atenção dos homens, ele dá a dica “machista”. “Mulher tem que ser comportada. Tem que ter atitude diferente da que vemos na noite. Meninas bêbadas e rebolando até o chão”.

Não, você não leu errado. MULHER TEM QUE SER COMPORTADA. MULHER NÃO PODE SAIR A NOITE. NÃO PODE BEBER NEM REBOLAR. 

Eu sei lá de onde vem essa cartilha. Não, na verdade eu sei. Vem da mesma do estupro, do controle, do estado que manda nos nossos corpos. Corpo de mulher é terra de todo mundo, menos dela mesma. E o pior, o mais triste, o mais deprimente, é que isso não é falado nem visto. Ninguém é preso por ser misógino. Feministas são pintadas como loucas extravagantes que querem roubar o lugar dos homens. Não é nada disso, nada disso mesmo. 

Me senti cansada, exausta, usada. Como jornalista e como mulher. E o que mais doeu, além de tudo, foi a mulherada concordando com os comentários acima, muitas vezes defendendo todos eles com afinco.

Respirei fundo, e escrevi o que o nervosismo me permitiu na hora. Eis o que publiquei no Facebook depois disso:

"Cansei gente, de ver tanta publicação machista. Não é só o jornal não, é geral, e inclusive, muitas mulheres julgando as outras sem dó, porque se vestem de um jeito x ou fazem determinada coisa. Mulher é sempre pária, sempre "mal comida", "interesseira". 

Acham normal que a mulher não tenha autonomia de ficar com quem quiser, fazer o que quiser e ainda acham legal a mulher ser punida por causa disso. Cansei, cansei de mulher postando comentário machista e achando que o feminismo não te engloba, mas eis uma notícia, você é mulher! feminismo é a defesa do SEU gênero e existe pra defender o SEU corpo da tutela de outros! e pra garantir os SEUS direitos! 

Se você acha legal e concorda quando um homem diz que "faltam mulheres sérias", e que "mulher não pode beber nem ir pra balada pra se dar ao respeito", só te digo uma coisa: você pode achar que não, mas um dia o machismo vai te atingir. Porque toda mulher passa por ele, seja de forma velada, seja de forma direta. E um dia você vai entender e apoiar o feminismo, se tiver alguma sorte".

Então elas vieram. E alguma coisa, sabe, acendeu de volta. 

Da Sybylla:
"Mulher dizendo que odeia o feminismo cospe no prato que foi responsável por ela poder estudar, trabalhar, se divorciar, ter ou não filhos se quiser, votar, ser ou não dona de casa, casar ou não... Cansa demais mesmo ter que ficar explicando, explicando e explicando cada vez que surgem essas merdinhas de comentários. Pior quando ainda soltam aquela "não sou machista, mas..." Aí estragou foi tudo. 
Não se preocupe, linda, sua indignação é nossa também".

Da Daniela:
"Conversa longa...eu acho que é ignorância, de ignorar, de se deixar levar, sem observar o que realmente acontece a sua volta, não perceber nas entre linhas, e olha que na maioria das vezes tá escancarado o machismo e deixam passar batido!"

Da Suzana:
"Mulher machista dá nojo e me envergonha. mas, além disso, fico indignada com gente que se diz "esclarecida e mente aberta", mas no fundo conserva um machismo velado, que, vez por outra, vem à tona, a exemplo de homens (e mesmo mulheres) que "dizem" defender a igualdade de gênero (e não me atenho aqui às suas especificidades inatas), mas são os primeiros a julgar uma mulher solteira se ela for livre o suficiente pra ficar com quem e com quantos ela bem entender. pior que o machismo declarado é o machismo velado!!!! e tô cansada de ver esse tipo de postura de conhecidos e ex-namorados metidos a descolados. só acredito que nem tudo está perdido porque felizmente tenho amigos sensatos e inteligentes, que tem discernimento quanto a isso".

Obrigada, meninas, e também meninos (que curtiram e compartilharam o post). Ainda dá vontade de continuar, e é tudo por saber que vocês também acreditam. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Das coisas que um dia voltarão pra gente

Daquelas coisas que a gente lembra pra sempre, aqueles pequenos fatos importantes que mudam o curso do  nosso pensamento pra sempre. O dia em que você deixou de ter medo de se perguntar se Deus existia mesmo, deixou de temer uma punição dolorosa por no mínimo se questionar. Um momento em que você sentiu na ponta da língua aquele gosto inesquecível, que hoje até dói de lembrar. O momento esmagador em que você teve certeza do quão pequena era diante desse mundo grotesco. 

Foi assim comigo e Gabo. Meu pai vivia dizendo que existia um escritor chamado Gabriel García Marquez, que era Prêmio Nobel de Literatura, um colombiano daqueles marrentos, e o pior, jornalista. E que ele havia escrito um livro chamado "Cem anos de solidão", onde havia uma personagem chamada Úrsula Buendía, que era a minha avó. Simples assim, D. Enerstina estava escrita, "cuspida e escarrada", naquelas páginas. Eu tinha 13 anos. 

Encontrei "Cem anos..." jogado pela casa, uma edição antiga, deixada sobre a mesa. Peguei a mania engraçada de andar pela casa lendo, porque não queria largar do livro de jeito nenhum, nem na hora de comer. 

Eram férias escolares, e eu estava deitada na cama dos meus pais, quando finalmente virei a última página. Entrava uma nesga de sol muito forte pela janela, e até hoje é aquele o cômodo mais ensolarado da casa inteira. Sentei no chão de azulejos e chorei como nunca. Me debulhei em lágrimas desesperadas, e alguma coisa muito grande transbordava de dentro de mim, e eu não conseguia tirar Aureliano Buendía da cabeça, com seu olhar triste e seus peixinhos dourados, da cabeça. Nem Melquíades, o Mago, nem as grandes e fortes personagens mulheres, como Remédios, A Bela, e Amaranta e Rebeca. 

Começou aí, meu amor por Gabo. "Cem anos..." se tornou meu livro favorito de todos os tempos. Cheguei até mesmo a desenhar a árvore genealógica dos Buendía, em algum momento da vida. A seguir vieram outros livros, como "O amor nos tempos do cólera", "Doze contos peregrinos", "A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada", "Viver para contar" e todos que pude ter nas mãos. Mais os que mais amo são os engendrados para consumirem nosso realismo e transformar nossos sentimentos em fantasia. 

E um dia, sem que eu sequer imaginasse, encontrei um livro de Gabo guardado no armário. "Olhos de cão azul"**, de 1947. Nem meu pai sabe como esse livro veio parar aqui em casa. Eu o devorei principalmente pelo conto "Eva está dentro de seu gato". Sonhei mil noites com essa história. E não lembrava o que tinha sido feito do livro. 

Eu havia emprestado pra uma pessoa muito querida há muito tempo atrás, e ele agora retorna pra mim. Já o reli no mesmo dia, e matei as saudades das palavras dele. E as histórias, os contos, soaram diferentes de quando eu li. Acho que eu estava precisando reencontrar certos sentimentos há muito esquecidos na estrada. Tem coisas, sim, na vida da gente, que nunca mais se recupera. Outras, acabam voltando pras nossas mãos, mesmo que demore. De vez em quando, acreditar nisso é somente o que a gente precisa pra continuar sonhando.


**"Olhos de cão azul" é um livro com 11 contos escritos por Gabo na juventude, 
que falam sobre a morte em muitos aspectos. Mesmo com um título poético, 
é um texto imaginativo e agridoce sobre a parada súbita do final, e uma troça
com a lembrança fugaz que nos tornamos pra quem por aqui ainda fica.