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terça-feira, 16 de abril de 2013

O estupro que nunca está longe

Eu tinha começado a escrever um post pra falar do que vi em São Paulo e durante o Lollapalooza (o show do Queens of the Stone Age foi sensacional), mas acabei deixando. Quando fui pensar a respeito, duas coisas varreram a viagem da minha cabeça: o fato de terem tentado roubar meu carro e o estupro de uma menina de 20 anos, em uma festa de um curso da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Cheguei na redação para o costumeiro expediente de domingo, mais cedo, e vi o pessoal do turno da manhã comentando alguma coisa sobre uma festa que tinha acontecido na madrugada anterior. Duas repórteres da editoria de Cidades conversando entre si, pois as duas acabaram de se formar na universidade. Quando soube da história (que acho que o jornal deu em primeira mão), o chão me fugiu por um momento. Ou vários.

O caso foi tão banal, tão bárbaro, que fiquei sem palavras. E senti aquilo próximo de mim não só pelo contato direto na redação, mas pela situação em si. O cenário do filme de terror foi uma festa realizada pelo curso de Artes Visuais, em uma chácara distante. Aqui isso é muito comum, organizar festas em locais assim porque fica muito mais barato. Em determinado momento, a menina deixou a namorada na festa e alegando cansaço, foi descansar no carro. O estuprador a tirou do carro, a arrastou para o meio do mato e a violentou barbaramente, a ponto de ela ficar cheia de marcas e escoriações.

Até aí a violência já é terrível, horrível, por si só. Soma-se ao fato de que era uma menina que se relacionava com meninas. Não que ser heterossexual diminua o horror de um estupro, nunca, acho que o terror é o mesmo. Mas se nós, que nos relacionamos com homens, temos essa fobia de estupro, esse medo, imagine uma moça lésbica.

As meninas me contaram o caso, e eu, da editoria de cultura, sentei na minha mesa e fiquei matutando em silêncio. Pensando que, horrivelmente, a jornada da vítima não terminava ali, com a ida na delegacia, a denúncia, a busca da polícia pelo culpado. E nesse instante, a chefe de reportagem verbalizou os meus pensamentos e meus sentimentos de que ela ainda seria invadida, conspurcada pelo mundo machista em que a gente vive. Ela disse: "e aí vão falar que ela não devia ter ido sozinha para o carro; que ela mereceu pois era gay; e que a culpa é ainda mais dela porque estava em uma festa e devia estar bebendo, e todas essas merdas que falam pra colocar alguma parcela de culpa na vítima". Alguma e não raras vezes, todas a culpa.

Na matéria publicada nesse dia, a repórter entrevistou organizadores da festa, além da polícia. A vítima afirma com toda certeza que lembra do agressor de lá de dentro, tanto que pôde descrever até o tênis que ele calçava. Porém, na reportagem, os organizadores foram até enfáticos, da forma com que foi exposta por lá*****: "(...)ele permaneceu durante o evento na recepção e não se recorda de ter visto ninguém com as características descritas pela jovem. “A maioria das pessoas é nossa conhecida.” A estudante (xxx), que participou da organização da festa, afirma não se lembrar de ninguém circulando pelo evento com essa descrição. “Estávamos em oito cuidando da festa e ninguém foi procurado”, declarou (...)".

Algumas pessoas chegaram a levantar a hipótese de que ela estivesse em estado de choque, porém, a descrição foi tão precisa que menos de 72 horas depois já se tem o retrato falado do estuprador. Ah, e um suspeito.

Hoje, chegando na redação, imediatamente fui ver com o pessoal de Cidades como estavam as coisas. E um dos repórteres me disse que os responsáveis pela festa excluíram o evento do facebook********, onde possivelmente existiram pistas, ou assim a polícia poderia pensar. A imprensa não encontrou esse evento mais, mas nós sabemos que um simples software dá jeito nisso.

Então nesse momento funesto, a polícia divulga comunicados de que já tem tudo arquitetado. Os jornalistas sabem disso. **** Aliás, lembrem-se de que grande parte dos estupradores são gente conhecida. Isso, se for verdade, você diz para a polícia. Mas você não fala que estava perfeitamente monitorando tudo, obrigada. Você também não exclui o evento da festa, você cria um enorme comunicado dizendo: aconteceu isso, mas nós não vamos tolerar. Nós iremos grudar na polícia até achar o animal que a estuprou de forma tão covarde*****.

Não apoiar a vítima seria uma opressão pra gente também****, que nunca vai estar a salvo disso, porque a cultura do estupro é enraizada, e as pessoas não se mexem pra se livrar dela. Ninguém, no Brasil, ensina seus filhos a não estuprar, e sim ensina suas mulheres e crianças a não se "arriscarem". Vivendo. 

O desfecho a gente aguarda. Quando perguntei ao repórter qual seria a conduta do jornal em relação ao caso, já que a organização "lavou as mãos e tirou o seu da reta" e a polícia mantém sigilo, ele foi bem enfático (dessa vez pro bem): "A gente vai bater neles até pegar esse filho da puta". :)

OBS: Meu carro vai bem, obrigada. O seguro arrumou meu vidro quebrado no ato do assalto, sem consequências pro meu bolsinho empobrecido pós-festival. Um beijo pro meu agente de seguro. 
OBS¹: "Bater" é uma gíria jornalística pra investigar, insistir, ficar no pé de alguma autoridade/instituição para que algo não seja esquecido. 
OBS³: Nesse turbilhão, várias pessoas se propuseram a organizar uma ação, um protesto, contra mais esse estupro. Ela, infelizmente, cruelmente, não foi a primeira moça a ser violentada em uma festa ou na universidade. Infelizmente, e dói aqui dentro, de verdade.

                       *********UPDATE: Uma moça que estava na festa, colaborando com os organizadores, me chamou no Facebook agora a pouco, depois de ler o post, e me expôs o seguinte em relação ao assunto, que eles estão sim colaborando com a polícia e tá todo mundo super com medo de represálias e também por terem sido expostos na imprensa. Mas que todo mundo que tirou foto na festa mandou pra polícia e pra vítima, que todo mundo já falou tudo que sabe na polícia. Em resumo, que tiraram o evento do facebook simplesmente por medo, mas que todo mundo quer ajudar, mesmo que de forma mais sigilosa. Por isso, editei diversas falas do meu texto, principalmente onde tem os ***. Me sinto aliviada de muitas formas, porque alguém do outro lado rebateu uma coisa que me deixou muito, muito aflita. E se a cooperação tá sendo grande, conforme essa fonte falou, eu realmente espero que essas forças sejam somadas de uma vez e peguem esse agressor.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As vítimas atacam de volta

Essa semana conheci um tumblr que me fez sentir calafrios. Porque o conteúdo dele é simples, mas ao mesmo tempo visceral. É o "Project Unbrekable", de uma fotógrafa americana, que registra vítimas de violência e abuso sexual ao redor do país, segurando placas contendo frases e quotes de seus estupradores e agressores. Porque fazer isso? Bom, são muitas razões: romper o silêncio que permeia a vida das pessoas que já foram abusadas, romper com preconceitos, chocar e tirar os leitores do lugar comum, e mais um milhão de razões. Abuso é um trauma pra vida toda, e o próprio projeto mostra que muitos abusos são realizados por pessoas próximas da gente. 


Para mim, são as vítimas se posicionando, mostrando o rosto e dizendo "Toma sociedade. Chega de silêncio". Algumas frases são muito tristes e chocantes, como a "The nurses who did my rape kit told me there was “more than enough evidence that I had been raped” yet the police who took on my case didn’t believe me. / I am a survivor NOT a victim" (tradução livre: "A enfermeira que me socorreu no estupro me disse que havia "mais de uma evidência que eu havia sido estuprada" ainda sim o policial que pegou meu caso não acreditou em mim. / Eu sou uma sobrevivente e NÃO uma vítima"). 

E as que descrevem as frases ditas pelos agressores, são ainda piores, porque denotam não só a crueldade e a banalidade do ato, mas também o machismo e a misoginia (quando da violência em mulheres) de cada violência, e a perversão por trás de conceitos sociais como a submissão da mulher. Porque por trás do "você tem o dever de satisfazer seu marido/namorado", existe um ódio profundo contra o ser feminino. A gente só que acha que é normal, mas não é. 


Quantas vezes, no nosso cotidiano, a vida é justa? E quantas vezes uma vítima de abuso consegue, de fato, lutar contra o seu agressor? quantas escapam e quantas se vigam, lutam de volta? Acho que nenhuma. Ou pouquíssimas. 

Eu sou contra violência. Mas sou um ser humano, dotado de características e defeitos. E eu gostaria de ver as vítimas lutando. Os sobreviventes lutando. Meio super-herói, meio enredo de filme. É por isso que eu gostei tanto do Project Unbreakable. A gente não pode fazer como Lisbeth Salander, amarrar nosso estuprador no chão e dar a ele o que ele merece, certo? mas a gente pode não ficar calada. Pode lutar contra misoginia, ensinar nossa família e nossos irmãos e irmãs que a vítima NUNCA é culpada. Que não importa a roupa que ela estava usando, nem se ela bebeu demais, porque beber e se vestir de um jeito x não é crime, mas estuprar é. Que não é direito passar a mão nas meninas na fila da balada. Que um marido não tem direito de violentar a esposa, que não é porque ela é casada com o abusador que aquilo não é violência. 

A gente pode trabalhar pra que mais leis como a Maria da Penha existam, pode ensinar nossos homens desde pequenos que a mulher não é propriedade de ninguém, que não existe crime mais hediondo que estupro. E eu, como jornalista, como imprensa, posso trabalhar para divulgar tudo isso. É minha obrigação cidadã, profissional. Meu compromisso como jornalista, defender e divulgar as mazelas daqueles que não tem voz. Porque a gente sabe o quanto a imprensa pode ser misógina e preconceituosa. E eu como parte dela, vou lutar contra isso. 

Ainda nesse clima, fiquei vidrada num clipe do Skrillex onde uma garotinha atrai um homem que visivelmente irá abusar dela até um porão, e usa seus "poderes" nele. Nem sou muito fã de dubstep, mas gostei da música. Também enxerguei referências muito minhas no enredo do clipe. Violência não é a resposta, mas que eu queria dar esses poderes à todas as vítimas do mundo, ah, isso eu queria.