"Me ensine a ver as coisas
E todas as pistas estão, tão embaçadas, através
Escarlate não é vermelho"
Acordei com esse verso na cabeça. E ele não é meu. É de uma banda independente que fez parte de um jeito muito louco da minha adolescência: Torivas.
Me ensine a ver as coisas.
E hoje esse verso significa que eu tenho tanta coisa pra aprender na jornada. Mas agora é como se eu olhasse por uma janela e lá fora só fizesse neblina. Quando abri os olhos hoje e me lembrei desses versos, alguma coisa me incomodou. Talvez estar envelhecendo.
Vim procurar agora se essa banda ainda existia e não, não existe mais. Pararam de atualizar o Fotolog ainda naquela época. Mas ao ouvir os primeiros acordes de "Escarlate" um mundo de memórias veio na minha cabeça, de um tempo que eu não sinto exatamente saudades. Talvez de algumas coisas. Me veio um sentimento engraçado, de que eu vou fazer 26 anos. E eu quero gritar, tal qual eu gritava na minha banda, expurgando demônios a cada apresentação, independente de ter plateia.
Sei lá. Talvez esse loop em que eu me encontro de volta e meia relembrar um tempo que não volta mais seja uma parte do meu desabafo de finalmente estar do lado de cá, na vida adulta.
Me ensine a ver as coisas...
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quinta-feira, 19 de março de 2015
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Dos diários e de um outro tempo
Quem eu era, há alguns anos. A menina que eu fui quando adolescente. Os diários que eu sempre escrevi. Tive um milhão de agendas, cadernos, livrinhos de desabafo. Eu sempre gostei de escrever pra desabafar.
Desses milhares de diários, alguns cadernos ainda permanecem, que eu escrevi na adolescência. Eu sai da casa dos meus pais e não sei porque senti que precisava deles na minha casa nova. Não folheei nenhum durante a mudança.
Todos os escritos são reticências de ser adolescente e ter um monstrinho de dúvidas e inquietações dentro de você. E como tudo isso se conecta à mim hoje, quando minha única concessão é escrever nesse blog, raramente, assumo, menos do que deveria.
Desses cadernos e linhas e folhas de papel, o que sobrou de mim. Ontem a noite precisei abri-los e foi como abrir uma cápsula do tempo, o que na verdade eles são. E perceber que o ensejo não mudou. A música ainda é a mesma. Os desejos de adolescente eu tranquei numa caixa de chumbo aqui dentro. Mas eu não posso continuar mais negando que eles existem e eles já estavam lá naquela época.
Eu já imaginei criar uma fogueira enorme com esses cadernos e queimar tudo, os canhotos de cinema, os desenhos, os recadinhos de amor e as letras de música. Já imaginei ver aquilo ardendo, queimando, meu passado e minha definição. Mas desisti. Ás vezes a gente precisa se encontrar um pouco. Aquela menina risonha e que funcionava à mil, eu não consigo mais acreditar que não sobrou nada mais dela. A gente não pode aceitar que se perdeu entre os numerais 15 e 30. Nossa idade. Nosso crescimento.
Março, esse mês que se aproxima, quando eu completo, no dia 31, meus 26 anos, sempre me faz refletir dessa forma. Sempre, como aqui. Fuçando nos diários como se fossem tábua de salvação, encontrei a data onde eu comecei a odiar aniversários, em 2004, a contabilizar o caos e a amargura não de ficar mais velha, e sim de me sentir mais frustrada, quando nada que eu imaginei aconteceu. É um sentimento ruim por tempo demais.
"
Março chegou. Sempre que eu lembro do mesmo mês no ano passado, sinto um aperto no peito. Eu tinha tanta certeza sobre tantas coisas. Sobre o que eu era, o que eu queria e onde iria estar. Minhas certezas eram de ferro. E eis me aqui, vivendo outra vida, que em nenhum momento foi planejada por mim. Março me faz olhar pra trás, pra todos os dias 31 que já passei e lembrar com muita clareza desses planos que nunca floresceram.
"
Eu disse em março de 2013. Não mais
Esse ano, prometo, vou deixar os diários e o mês de março em paz. E só assim vou sorrir com 26.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
"Rock de Menina"
De vez em quando eu desapareço do blog porque minha escrita trava, como eu já expliquei pra vocês aqui. É uma tarefa muito árdua pra mim, às vezes, escrever, porque meu ganha pão é esse e o desafio é não me perder nesse emaranhado de letras. Eu passo o dia inteiro escrevendo. E quando quero escrever, me faltam palavras. Mas não desistam de mim.
Hoje fiz uma descoberta musical daquelas genuínas e por acaso. Me perguntaram se eu conhecia Far from Alaska. Coloquei no Youtube e senti uma formigação dentro do estômago, maravilhosa, como há muito tempo não acontecia.
Ouvi essa música. Um vórtice de pensamentos e lembranças aterrissou sobre a minha cabeça. Meu deus.
Que força, gente. Que força.
Procurei sobre a banda e descobri que eles são de Natal (RN), brasileiros. E fui ouvindo a música mais e mais e lembrando de como era ter banda, das bandas de metal que eu tive. Deixando a música FODA de lado, me identifiquei com a moça vocalista. Uma vez reclamei de ter dificuldades em encontrar bandas de stoner rock com vocais femininas, e taí uma delas pra me tirar o chão.
Emily, não te conheço, mas já te amo. Sua voz não só me impressionou como me senti sob os seus ossos nesse vídeo. Uma garota de camiseta, jeans, sem maquiagem, gritando letras fortes e irônicas. Sem ser objeto, sem ser necessariamente magra, loira, cantando dilemas de amor e falando de namorado nas músicas, porque ela fala sobre o que ela quiser, usando a ironia que quiser e os palavrões e o idioma que ela quiser. Porque é isso que a maioria dos roqueiros de plantão acham que mulher tem que fazer no rock: cantar letrinha babaca sobre algum macho, provavelmente com uma voz fina e infantil. Porque mulher que canta grosso (como eu cantava), não pode ser levada à sério. Wait, shut!
Quando eu tinha 16 anos, tinha uma banda que tocava som pesado e fazia cover de bandas de metal femininas gringas. A gente foi tocar em algum buraco da cidade e lembro que eu usava um shorts largo, uma camisa preta, bota e aquele cabelo batendo nas costas. Eu tocava uma guitarra preta flying v, e aquele era meu momento de gritar e berrar em gutural. E na banda tinham outras duas meninas. E lembro de estar encostada em um pilar esperando nossa vez de de tocar e ouvi um diálogo: "aquela que é a vocalista? isso aqui não é show da Sandy não", disse o ~headbanger~.
Lembro que subi no palco e abri o maior gutural que consegui. Virei pra ele, entre uma segurada de palheta e outra, e mostrei o dedo do meio.
Foda-se você, seu machista. O choro é livre porque as mulheres vão continuar nadando contra a maré social desse mundo misógino. Se conforma. Aqui vai meu gutural pra você.
E Far From Alaska me trouxe toda essa sensação de volta. Um dedo do meio entre as seis cordas bem grande pro machismo.
We rock, girls.
She says, "I gotta tell you my story, man
The right story, man"
(Because yours is a lie)
Wait, shut, I gotta tell you my story, man
The whole story, man
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
A journey
Tem uma onda selvagem que de vez em quando passa pelas nossas vidas que eu chamo de "bad trip". Sim, aquele termo cunhado pra quando aquele tóxico não dá o efeito desejado. Sometimes a vida é uma viagem ruim, mas aí você acorda no outro dia, faz o café, repensa umas coisas, refaz uns ~projs~, e segue o rolê.
Faz horas eu tenho visto várias pessoas da timeline saindo da casa dos pais, da república, indo morar sozinho. E sim, isso é uma verdadeira aventura, uma trip daquelas. Uma aventura maravilhosa.
Depois que eu fiz isso, que catei a matula e a Panci e deixei o conforto da casa da minha mamai, várias pessoas vieram me perguntar como foi, como está sendo e como será. Muitas vezes com um olhar brilhante de quem enxerga o risco que é deixar uma situação confortável para partir pra outra que pode não ser tão confortável assim.
Pois bem, meu conselho pra todo mundo que tem ou teve a ideia de algum dia, por mais longe que esse dia seja, de sair da casa dos pais, é o seguinte:
just do it.
Faça isso. Viva isso. Vale a pena.
Não vai ter comidinha quente da mamai feita na hora, esperando na mesa. Mas aí você aprende a cozinhar, compra só o que gosta pra por na geladeira.
Não vai ter conta paga sem você perceber, mas vai ter você sabendo o valor do seu dinheiro e de todo mundo.
Vai ter muita solidão? vai sim. Silêncio também. Mas também muito filme pra assistir, seriado pra alimentar o ócio. E se nada disso remediar, tem sempre os amigos e a família pra ver, tomar uns bons drink, fazer uns bons churras.
Se eu não tivesse minha casinha, meu cantinho, nesse momento, eu ia estar embarcando na maior bad trip da história dos meus 25 anos. Mas não tô, porque chego em casa, brinco com meus gatos, faço panqueca e assisto Masterchef. Sinto mais saudade da minha família, e eles de mim. A solidão me abraçou como uma igual.Tô crescendo.
Just do it.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Das opiniões sobre o meu corpo que eu nunca pedi
Esses dias eu estava comentando com a minha irmã que queria fazer uma tatuagem imensa no braço. E ela respondeu: eu preferia que você fosse pra academia cuidar da sua saúde.
Eu fui pra academia a um tempo atrás e o instrutor disse que eu estou muito acima do meu peso ideal e me recomendou várias atividades e musculação. Fiquei uns dois meses malhando mais ou menos 2 horas por dia. No mês seguinte viajei e a academia ficou de lado.
Quando eu malhava, fiquei com dor no corpo todo every fucking day, e a instrutora de musculação me deixava puta da vida. Primeiro porque era grossa quando eu pedia alguma ajuda pra ajustar um aparelho ou algo assim. Segundo, uma vez eu tava puta da cara levantando peso com as pernas e pedindo mentalmente pra Jesus me levar e ela disse "como ce é mole! vai gordinha".
Como ce é mole. Vai gordinha. Vai gordinha.
Sim, porque eu estava me sentindo ótima naquele momento e de certo a mulher tinha alguma intimidade comigo pra vir me chamar de molenga and gorda. Ok né? Não. Desanimei total e larguei a academia no terceiro mês. Meu peso não mudou muito desde então, mas muitas vezes fiquei indo e voltando nos meus pensamentos a respeito do meu próprio corpo. Meu. Corpo.
Há uns meses atrás escrevi um texto pro blog onde eu enaltecia a frase: "meu corpo, minhas regras", em que eu dizia com várias palavras que me amava como sou. Agradecia a uma pessoa por ter me ajudado com isso. Algum tempo depois decidi fazer academia. Fiquei amargurada com tudo e não postei esse texto até hoje.
Eu vejo posts da Tess Munster e fico encantada. Ela é tão linda e tão estilosa e eu penso, nunca vou ser assim, me vestir desse jeito. Vejo postagens de gente chamando a amiga de gorda e de homens menosprezando mulheres com dobrinhas e dizendo que vestir 44 é ser plus size. Não gente, não.
Aí paro e penso na minha própria vida. Eu sempre fui grande. Quando era magra na adolescência (pq eu me achava gorda mas hoje sei que eu não era) as pessoas me notavam mesmo com as enormes tentativas de sumir atrás de uma cortina de cabelo. Eu tenho as costas largas, 1,69 m e calço 40. Eu nunca fui um padrão, nem serei jamais.
Me pego pensando que tenho vontade de voltar no tempo e pegar a minha "eu" atual, que conhece o feminismo e que aceita o próprio corpo muito melhor e levar pra dar umas lições nas pessoas que vieram falar groselha sobre o meu corpo.
Viagem no tempo 1:
- Eu aos 17 anos, indo tocar com a minha banda em um bar. O show tinha sido contratado por telefone e orkut. Na época, o baixista da banda era meu namorado. O cara que contratou o show me contactou pelo perfil no orkut (sdds). Quando chegamos no bar, eu sentei num banco e fiquei tomando umas esperando começar. Esse produtor sentou do meu lado e ficou conversando bobagem. Aí soltou: "Eu pensei que você fosse mais magra".
Primeira reação foi pensar: -q.
Segunda reação foi ficar com vergonha pensando "tô enganando as pessoas?".
Minha eu atual chega e fala: "Amigo, veja este bar, está cheio de gente e ninguém te perguntou nada do meu corpo. Eu não te conheço, não te dei direito de achar nada a meu respeito. Flw Vlws".
Viagem no tempo 2:
- Eu há dois anos atrás sentada num bar com meus amigos, chega meu ex-namorado com quem fiquei oito anos e sua atual namorada. Fui indiferente e continuei me divertindo, por motivos de que terminamos brigados e fazia quase dois anos que tudo tinha acabado, a vida segue afinal. No final da noite chega o garçom com um bilhete da menina pra mim, que ela deixou com ele e foi embora. E ficou ligando no bar pro cara entregar (que rolê imenso só pra entregar um bilhete). O bilhete dizia: "ele é meu sua gorda recalcada"
Primeira reação foi pensar: -q
Segunda reação foi ficar com vontade de jogar a mesa na cara dela, mas a garota não estava mais lá. Ela foi medrosa o suficiente pra entregar o bilhete e ir embora.
Terceira reação foi ficar com pena dela por achar que eu ainda queria alguma coisa com um ex que eu realmente nunca mais tinha conversado na minha vida. Fiquei sem entender porque eles se importavam tanto comigo se eu jamais falei com ele depois do fim. Bateu um conflito.
Minha eu atual chega e fala: "Garota, primeiro de tudo, meu corpo é meu e só meu e não entendi qual seu problema com ele. Tô agredindo seus olhos com a minha gordura? vira o rostinho pro lado minha querida! Segundo, mano, quem saiu do lugar pra mandar bilhete feito uma criança de cinco anos foi você e não eu o que demonstra o recalque real. Terceiro, fica pra você esse aí fia, e aceita que dói menos, vlws flws".
Esse cara e essa mina, o que eles tinham em comum é o problema com o meu corpo. Um problema que eu vou continuar lutando não pra ter. Não importa se eu emagrecer, pintar o cabelo, se eu engordar. A minha luta vai ser pra que ninguém se ache no direito de exprimir sobre mim, o que eu faço e como vivo, e quem eu sou, sua opinião sem consulta. E eu vou morrer lutando pelo direito de ser quem eu quiser.
Flw, vlws.
PS: A., aquela agradecimento do post nunca publicado é real. Obrigada.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Curvas
Completei hoje um mês morando sozinha. Entre xícaras de bolinha e momentos de paz e silêncio, completei uma etapa da minha vida. Em comemoração adotei mais uma gatinha, pra fazer companhia pra minha bravinha Panci, que passava muito tempo forever alone em casa. O nome escolhido combina com o quanto ela é voluntariosa, cheia de vontades e corajosa: Arya. (em homenagem à Arya Stark, veja bem).
Fico me questionando, às vezes, se faz bem viver pra objetivos. Eu tinha esse, de morar sozinha, ter meu canto, minha casinha, há tanto tempo que perdi as contas. Agora eu consegui realizar ele e nada me faz mais feliz do que falar "vamos lá em casa que eu vou cozinhar" pras pessoas queridas. Agora vamos ao próximo, é a frase que martela minha cabeça.
Da curva não sei mais nada. Penso que às vezes, a gente acha que vai chegar no fim da estrada quando realiza algo grande na vida. Mas me sinto ladeando essa curva, e alguma coisa maravilhosa me espera no fim, ou assim eu tento pensar. Eu sei que a jornada é tão importante quanto a chegada. E por isso vou suave.
Esperando por mais curvas.
.
.
Eu quero ser escritora.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Alor mundo
A garganta doeu muito e parecia travada quando acordei hoje de manhã. Foi como se todo o peso de inúmeras coisas tivesse caído, finalmente, sobre o meu corpo. Mas como num mantra inquebrantável, a gente levanta, bate um cabelo pro lado, dá uma esticada nas costas (toma umas dose de tequila) e vai trabalhar.
Pois bem, desabafo número um: tô saindo da casa dos meus pais. A conta matemática que resultou nessa decisão é bem simples: 25 anos de idade, um emprego ok, muita vontade de deixar várias coisas pra trás (agora é aquele momento que eu viro e falo "vamos beber que eu te conto". O dia que eu fundar o Bar da Lyrinha pfvr não reclamem). Tô juntando panelas usadas, armários de doação, coisas que as pessoas que me rodeiam não querem ou não precisam mais. Manda pra cá, realmente tô sem nada e aceitando o que vier. Passamos uma mão de tinta e pronto, ficará lindo na casinha. A casinha já existe, está tudo certo, apenas esperando eu levar a matula e o gato e começar a habitá-la. A mudança está prevista para a fatídica data de 13 de setembro. Já tenho até cafeteira que ganhei e fiquei muito feliz <3. Reflexão é que tenho pessoas muito fodas ao meu redor, e inclusive até geladeira e conjunto de pratos ~náuticos~ (sente o amor puro) eu ganhei.
Desabafo número dois: amanhã eu tô indo viajar pra cobrir o Festival de Cinema de Gramado. Apenas um derradeiro comentário: será lindo.
Desabafo número três: mesmo cansada e doente estou verdadeiramente inquieta. A vida anda meio doida por aqui. Doida e Doída. Chega o fim do dia eu penso na minha cama e no quanto quero dormir uma noite completa. Madrugada alta e meus olhos estão abertos no escuro. Eu devo funcionar ao contrário.
PS: Depois de 4 anos trabalhando sem parar, setembro tô de férias. /tchorando de emoção.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Tempo de Felino
The animals, the animals
Trapped trapped trapped 'till the cage is full
The cage is full, stay away
In the darkness count mistakes
Taking steps is easy
Standing still is hard
Trapped trapped trapped 'till the cage is full
A primeira vez que eu fitei as pupilas da minha cara-metade felina, a Pan, eu finalmente entendi. Ela se movimentava sem se encostar na grade da gaiola em uma pet shop. Ela andava na jaula minúscula de um lado pro outro atraindo minha atenção com seu corpo rajado lustroso, aqueles movimentos que o leão faz dentro da jaula quando se sente ameaçado, incomodado, nervoso. Me aproximei e ela também, a patinha metade branca cortou o ar e ela agarrou a manga da minha blusa. Isso foi em 2008.
De manhã cedo eu abro os olhos e levo algum tempo pra despertar. E esse tempo do despertar é importante, é precioso. Eu não consigo aceitar que o despertador me acorde. Eu sou teimosa. Eu tenho meu tempo.
Eu me sinto presa, enjaulada, acuada, quando esse tempo de assimilar as coisas que é muito meu - que pode ser um piscar de olhos como pode ser um dia inteiro, uma hora inteira, um ano inteiro - é tirado de mim. E ele foi, a vida adulta me tirou isso.
Tem dias que eu me sinto o felino andando de um lado pro outro na jaula. Já tentou acariciar um gato quando ele não quer? ele tira o corpo do alcance da sua mão com toda a força que existe nele. Eu me sinto assim.
Quando me cobram coisas que eu julgo não merecer, dentro da minha vida "pessoal", eu me sinto assim. E me aflora irritação e desprezo. "Você não responde minha mensagem". "Você disse que ia sair comigo e não saiu". "Você não me convidou". "Você devia trabalhar menos". "Você devia arrumar um namorado". "Você - insira aqui a sua sentença de algo que você achava que eu tinha obrigação e eu não tenho. Fecha aspas.
The cage is full, stay away
In the darkness count mistakes
A vida adulta me judiou muito nesse sentido, e merecidamente, e eu não estava preparada. Eu acordava todo dia no piloto automático porque era assim que me sentia. Não sei bem dizer quando parei e pensei "nossa, eu sou adulta", mas eu me sentia sufocada e anulada ao mesmo tempo. Apanhei tanto que aprendi uma coisa muito lógica: separar a vida em responsabilidades inadiáveis e criar prazer nelas, do grupo das coisas que eu não sou obrigada. E num terceiro grupo eu agrego as coisas que eu desejo e faço a conta do que preciso pra chegar nelas. Parece lógico mas na minha cabeça é só um emaranhado de pensamentos e reações.
É totalmente sem sentido, eu sei. Mas de alguma forma me resolveu e eu consegui seguir em frente e criar prazer nas necessidades, mas não, eu não sei lidar bem com a jaula. Nem com as jaulas que se chamam "carreira de sucesso", "contas a pagar", "amizades por ocasião", "amores vazios". Uma hora essas coisas cansam.
Taking steps is easy
Standing still is hard
Aquele momento que o gato se ajeita sentado e lambe as patas, passa as patas sobre os bigodes lustrando-os com zelo e cuidado, mas de olhos fechados, aproveitando a sensação e a importância do gesto, esse instante é quando eu escrevo. Lustro os bigodes. Me mantenho longe da gaiola. E tento ser adulta por mais um dia.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Um pouco mais de Frida, por favor
Cidade do México,
14 de abril.
"Por 50 anos, o banheiro do quarto de Frida Kahlo permaneceu trancado após sua morte, na casa onde hoje funciona um popular museu na Cidade do México. O espaço só foi aberto há dez anos, revelando diversos baús de objetos íntimos, como cartas, fotografias e vestidos coloridos.
Enquanto as correspondências viraram livros sobre a artista mexicana, seu guarda-roupa e suas fotos vão aos poucos chegando ao público. "Ela usava estes vestidos tradicionais para fortalecer sua identidade, reafirmar suas crenças políticas e para esconder suas imperfeições", diz a curadora Circe Henestrosa. "Seus amigos mais íntimos contam como Kahlo tinha um cuidado especial ao escolher o que vestir, dos pés à cabeça, com as mais lindas sedas, laços, xales e saias".
A exposição traz também aparatos médicos que a artista precisava usar por conta de suas doenças (primeiro pólio e depois um acidente num ônibus). Há uma prótese de perna com uma bota de cano alto vermelha e um espartilho feito de gesso, decorado com uma foice e um martelo.
Foi o muralista Diego Rivera (1886-1957), marido de Kahlo (1907-1954), que havia dado as ordens para manter o banheiro fechado por 15 anos após a morte da artista. Mas a mecenas Dolores Olmedo (1908-2002), amiga íntima de Rivera que tinha ciúmes de Kahlo, conseguiu manter o lugar lacrado por mais tempo. "É como sentar em sua sala de estar e folhear seu álbum de fotos. É muito pessoal", disse o presidente do museu, Stuart Ashman".
Campo Grande, 14 de abril.
Frida, Frida, Fridinha, com suas flores na cabeça e seu olhar desafiador. Hoje você fez meu dia menos cinza com essa notícia, de que um dia, quem sabe, eu posso chegar perto dos seus vestidos rodados, das próteses que fizeram você sofrer e também de pequenos mimos que fizeram parte de você.
É que agora Frida, eu sou editora. Trabalho mais, tenho mais responsabilidades, e amo o que faço. Consigo por em prática tudo que imaginei ser possível durante um ano que fui repórter. Consigo construir, no dia-a-dia, toda a logística que acho válida dentro do caderno de cultura. Mas tem dias cinzentos pra essa jornalista que escreve. Tem dias difíceis, e não pela pauta ou pelo trabalho, talvez por outras coisas. Dias que a única coisa é sentar e trabalhar, e que você sente que não tem mais nada na sua vida tão coeso. Que suas responsabilidades são sua âncora, e que você se sente meio oca. A garganta dói, a cabeça perturba, os pensamentos assombram.
Abri o site da agência e lá estava você. Segui buscando uma imagem para ilustrar a reportagem e minha retina ficou perturbada ao olhar tantas e tantas fotos suas, linda, esplêndida, as flores, a saia, os seios, tudo. E abri outros sites, outras reportagens, e mais imagens, e seus quadros, e tive quinze minutos de contemplação. Mais Frida no meu dia, por favor. Mais suas cores em mim.
(A matéria é da Folhapress)
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Venha dançar você até o fim
Tenho vivido um turbilhão. Ou turbilhões, e são tantas coisas vindo de tantos lados que escrever virou uma mera atividade cotidiana e automática. Eu amarro as palavras, dou um laço nas letras, amasso rascunhos, e devolvo folhas em branco. Dentro de mim permanece uma grande mancha de tinta. Faz tanto tempo desde que escrevi pelo mero prazer de externar aquilo que sentia aqui dentro. Um bom tempo.
Sempre penso nisso, todos os dias, enquanto costuro teias e mais teias de hipóteses e teorias dentro da minha cabeça. Penso nisso segurando meu copo de vodka, enquanto raspo minhas botas de R$ 50 no chão nervosamente. Essas mesmas botas que eu uso todos os dias, que não tiro nunca. Isso me consome e arde junto com o gole, que desce pela garganta e eu queimo nisso. E penso nisso quando deito a cabeça no travesseiro e me lembro de um monte de coisas que eu nem queria lembrar.
Fico tentando me recordar quando foi que eu permiti me deixar perder em essência. Em que ponto eu fui deixando de lado essa minha expressão vital. E quando é que eu vou retomar. Sinceramente? não sei. Não quero saber. Tenho raiva de quem sabe. Porque no dia que eu me cobrar disso, aí não vai fazer mais o menor sentido.
. faz tempo esse som vem zunindo bem longe além dos suspiros .
Minhas mãos estão travadas no escuro e eu me sinto dentro de um pesadelo. O de sempre, os gritos, a angústia, o pavor, o medo. O corpo paralisado. Tento abrir os olhos mas eles estão tão congelados quanto meus ossos, presos à cama. Mas aí de repente não é mais real e eu abro os olhos. É outro tempo. É outra vida.
É como se não houvesse, dentro de mim, o que machucar, nem esses sonhos surreais e esse terror que eu sinto de vez em quando dormindo. Não, ainda há alguma coisa, mas é só um... cansaço. Até nos ouvidos escutam as conversas das torres. Até dentro da minha cabeça eu escuto um zumbido indefinido e que já parece fazer parte de mim. E é nesse zumbido que eu sei que março chega, que eu preciso reconstruir todas as coisas que sinto. Inclusive escrever.
. pra quem perdeu o sono na velocidade do tempo, que zarpa e cala.
E faço isso aos poucos, me reconstruo e reconstruo minha escrita, meu ar, de mansinho. No meu tempo, no meu próprio ritmo vital. É pra não me perder na correnteza de novo.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Sobre erro e preconceito
Por três anos da minha vida, na época em que eu fazia jornalismo, eu trabalhei com algumas meninas de Campo Grande pra tentar, de um jeito eficaz, ajudar uma porção de gatos de rua que cruzaram nosso caminho. Acolhi alguns em casa pra desespero dos meus pais, vi gato atropelado, famélico, judiado, abandonado. Simples assim, vidas descartáveis. As protetoras e protetores davam tudo que tinham e o que não tinham pra diminuir a estatística de abandono, recolhiam o animal, castravam, doavam. Tudo do bolso delas, dependendo de doações, mas sem desistir. Parei por umas simples razão: era isso, ou a minha saúde. Tem que ter estômago pra lidar com proteção animal. Precisa, como diz a Bia da Gatoca, ter um travesseiro à prova de lágrimas. Eu fiz o que dava e pensei, vou acabar ficando doente. Não é pra qualquer um defender uma causa assim, mas não só da boca pra fora: exaurir a própria saúde por um bem maior. E eu não vou nem começar a falar das críticas que as meninas ouvem até hoje, que na verdade não ajudam em nada. Quem critica não sabe o que é 1% daquilo.
É por isso, entre outras coisas, que na sexta-feira, quando eu vi uma matéria em um site local com a manchete: "Após 1 ano sem morte, doença do gato faz a primeira vítima em MS", eu não me contive. Deixei um comentário no site, e o comentário não foi aprovado. Acho que nunca um comentário meu nesse site foi aprovado, exceto um ou outro elogioso. Então postei no meu perfil do Facebook a crítica e o link. A matéria também era sofrível por várias razões e culpava os gatos pela morte da menina de forma subjetiva no decorrer do texto, sem explicar muito bem a causa real da morte dela. Alguns pontos foram omitidos, como o fato de que a jovem era portadora do vírus HIV e recusava tratamento. Aliás, se eu for entrar nesse assunto como um todo, esse post vai ficar gigantesco. Enfim, doeu ver essa reportagem porque naquele instante pensei: daqui a pouco começam os abandonos.
Cerca de quatro ou cinco colegas de profissão do veículo vieram dizer que eu fui anti-ética de explanar na minha rede social minha crítica. Que eu deveria ter dado um 'toque' na repórter por conhecer o ritmo da redação, saber o quão punk é trabalhar com isso. Que eu deveria ter sido 'ética' porque um dia posso 'vir a trabalhar lá e não devo fechar portas'. Que foi um 'erro' e que eu, repórter, também posso 'errar'. Pois bem. Não.
Erro, acidente de percurso. Eu erro sempre, sempre. Semana passada eu fui esculachada por uma fonte porque escrevi que ele tocava 'rock com pegada blues' e na verdade, segundo a fonte, é 'blues com pegada rock'. Erro, engano. A gente tá passível disso, sim. Agora, dizer com todas as letras que 'doença do gato' mata uma pessoa de forma alarmante, sem levar em conta todo o resto, sem explicar direito que a toxo é transmitida ao ingerir as fezes do gato, e que comer carne bovina e verdura mal lavada é a forma de contaminação real, e ainda repetir 'doença de gato' várias vezes na matéria? cinco minutos de pesquisa no google e tudo teria sido esclarecido. Isentar a própria culpa, culpar a pressa, culpar o editor. Algumas vezes todos esses fatores tem culpa sim. Nessa matéria provavelmente também, a repórter deve ter sido prejudicada por vários fatores ao redor dela. Mas não dá mais pra gente se isentar de responsabilidade.
A consequência, infelizmente, foi aqui fora.
Ontem à noite uma protetora conhecida me chamou por inbox e disse: "acabei de recolher dois gatos abandonados pelos donos, que disseram ter visto a matéria e que não queriam morrer de toxo". Uma era uma gatinha que havia recém parido 6 filhotes. A protetora recolheu ela e toda a ninhada, mesmo sem espaço e sem lar temporário. O outro gato foi de um senhor morador de um prédio luxuoso. Era do filho dele, de 6 anos. A criança chorou desconsolada na porta do edifício e o pai disse "eu li aquela matéria e não quero arriscar a vida do meu filho".
Critiquem à vontade. Mas meu pensamento o tempo todo estava com quem vai lidar com as consequências reais do jornalismo, aqui do lado de fora da redação. Naquele momento, eu não tive a menor empatia pelo repórter por dois motivos: primeiro, nosso empregador é o primeiro de muitos. Segundo: eu sabia exatamente a consequência daquela matéria, e sabia que aquele erro foi por uma mera falta de pesquisa. Poderia ser diferente. E eu continuo sendo repórter. Não dá mais pra pensar que eu estou acima de tudo porque eu sou jornalista. Meu texto é a minha maior arma. Machismo e preconceito não serão mais tolerados, porque esse tipo de coisa não é um mero e simples erro de percurso. Vamos analisar melhor nosso discurso e sair dos lugares comuns, e tem que ser já. Nosso empregador não vai fazer isso pela gente. Em tempos de passaralho, é hora de parar de se isentar dos próprios erros e assumir, de frente, que nós temos responsabilidade pelo que escrevemos.
Não dá mais pra nós, que somos os formadores de opinião, continuarmos nos isentando da responsabilidade dos nossos atos. Simplesmente não dá.
Postado por
Lyra
às
06:59
2
comentários
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domingo, 29 de dezembro de 2013
Um 2013 muito l0k0
"Viver é lidar com as adversidades", disse minha avó, olhando plenamente pra mim. Nós estávamos na piscina da casa da minha madrinha em Maringá (PR), apenas brisando com vista pra um sol se pondo, no dia 26 de dezembro. Assim que sinto esse ano que passou. Pode ir, 2013. Já deu de você. Não te quero mais.
Essa não é mais uma postagem reflexiva de um ano novo muito l0k0. É um batuque dentro do peito avisando: as adversidades, elas nunca cessam. Viver é isso. Encarar o ~rolê~ é isso. E até quando a gente vai ficar mandando recado e indireta pra si mesmo e o mundo falando "vamos guardar as coisas boas e filtrar as ruins para o ano que vem"? filtrar é o caramba, filho. Porque sem as adversidades, nós não seríamos nada.
Eu terminei esse ano com muito mais dúvidas do que comecei e com um aprendizado muito maior também. Em janeiro eu decidi embarcar numa trip louca chamada "virar repórter". Minha rotina mudou e em pouco tempo eu já me sentia 100% adaptada à essa vida de descobrir a cultura nos mais escuros becos de um estado vidrado em sertanejo. Eu apenas quero dar voz aos outros, é minha obrigação. E isso vai continuar em 2014, mesmo quando desanima, mesmo na hora dos jabás, mesmo nos momentos que a fonte não te atende e você não entende nada do que seu editor tá dizendo. Vambora.
Em março, eu tive um dos momentos de felicidade mais pura que tive em 2013. E é preciso dizer que essa pureza de sentimentos foi rara. Na verdade aquele momento foi o principal. Meu aniversário no show do Queens of the Stone Age, em São Paulo, no Lollapalooza. O sentimento transbordou em mim naquela plateia, e eu era aquela música tocando, eu era "Hangin Tree", "Round the hangin tree / Swaying in the breeze / In the summer sun / As we two are one / Swaying". Eu queria que 2013 tivesse sido um loop daquele instante.
Em 2013 vários amigos muito queridos mudaram daqui. Outros voltaram. E agora no finzinho do ano eu conheci duas menines que vão ficar no meu coraçãozinho, e uma delas me tatuou. Eu queria, de algum jeito, marcar na pele esse sentimento ansioso que eu guardo e que fica pulsando e explodindo no meu peito o tempo todo. Explode quando tomo decisões sobre a minha vida, explode quando eu me sinto sozinha, quando escrevo. E tive a honra de ser tatuada por uma delas, que traduziu esse sentimento com sua mão leve e seu riso maravilhoso enquanto marcava a frase escolhida, do Lou Reed, pra que eu nunca esquecesse do que é necessário: dê uma volta no lado selvagem da vida. Coloque mais pimenta. Mais riso, mais choro, mais tudo.
Só tem uma coisinha que me deixou triste no final do semestre: a escrita que eu deixei de lado. Deixei o blog de lado por motivos de tempo, de correria, de exaustão. Mas em contrapartida colaborei com as meninas no Universo Desconstruído, que eu sinto orgulho de ter participado. E espero colaborar de novo em 2014. Então, pro ano que vem, não quero nada além, nenhuma frase feita. Só quero ter forças pra escrever mais e melhor. Mais visceralidade, mais verdade, sempre sangrando e nunca, nunca me conformando com as letras que vejo superficialmente. Vou sangrar muito e quero tudo isso por escrito. "Take a walk on the wild side".
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domingo, 13 de outubro de 2013
Quanto vale
Na quinta-feira, eu entrei pela porta do jornal às 8 horas da manhã. Sai de lá às 20 horas. Escrevi durante 12 horas sem parar. Minto, parei, almocei (não me lembro o que exatamente), escovei os dentes, peguei mais um café e voltei pro computador.
Escrevi tudo que consegui, usei as palavras que pude, me exauri pensando em novos leads e novos ganchos (lead é o primeiro parágrafo de toda matéria e gancho é o 'foco' daquela reportagem). Cheguei no final do expediente com as costas curvadas sobre o computador. Ao meu lado, copos e copos sujos de café. Ar de absoluta exaustão. Tudo isso em função da seguinte questão: esse sacrifício todo, a ponto de eu chegar em casa explodindo de dor de cabeça e fadiga, é o clássico chamado de "pescoção": quando o repórter adianta matérias e matérias pra poder folgar. No meu caso, pra poder folgar sexta e domingo.
Quanto vale meu trabalho?
Esses dias olhando o facebook em uma comunidade de jornalistas aqui do MS, me deparei com uma oferta de emprego/vaga, feita por um conhecido jornalista. E essa comunidade é povoada de jornalistas que, bem ou mal, se conhecem fora da rede.
Se você ler bem certinho o que a pessoa oferece em troca e o que ela exige, olha, é de chorar. A empresa exige nada menos do que oito tarefas/habilidades/conhecimentos, muitos ali que simplesmente nós não aprendemos em uma universidade de comunicação social, ou seja, são experiências adquiridas no mercado. Pelas exigências, eu assumo que seja uma vaga pra assessoria de comunicação interna. E provavelmente as atribuições crescem muito ao longo do tempo, deve incluir jornais, newsletters internas, e-mail marketing, clipagem de notícias, e é claro, atendimento à imprensa externa se precisar. R$ 1200 por 8 horas inteiras.
Quanto vale o nosso trabalho?
Quando a pessoa publicou a vaga, alguns colegas e eu comentaram a respeito da discrepância desse valor pago a um jornalista, ainda mais pela questão de que, em tese, nossa carga horária aprovada por lei é de cinco horas. E eu posso apenas falar da minha área em Campo Grande. Não sei, de fato, como estão as coisas fora de CG, mas pelo que tenho visto, as coisas andam bem dificeis pra quem é jornalista. Quem fica, quem sobrevive ao passaralho, acaba sofrendo outro fenômeno, o do ficaralho.
Atualmente, minha rotina de trabalho é a seguinte: eu acordo cedo, vou para o jornal, de lá vou para a agência de assessoria de imprensa onde trabalho como frila. A maioria dos jornalistas que eu conheço tem a mesma rotina: 6 horas em algum lugar, 6 horas em outro. Eu tenho, sim, a opção de ter apenas um emprego. Claro que tenho. Ninguém me obriga a trabalhar dobrado. Mas se eu não fizer isso, minhas contas atrasam. E não são uma ou duas. São todas. Eu vivo com meus pais e economizo o quanto dá, tento ser econômica. Eu sou privilegiada. Sempre imagino alguns pais e mães de família que trabalham comigo e sustentam um ou dois filhos. Eles ganham o mesmo que eu.
Quanto vale a vida que a gente deixa de viver?
E assim a gente segue, driblando as contas com um milhão de frilas. Perdendo os feriados. Deixando a saúde em pescoções. Perdendo o aniversário da mãe (ou do pai, como foi no meu caso), entre outras tantas coisas. Sim, porque um dia eu trabalhei até mais tarde quando recebi uma ligação de "filha, vamos cortar o bolo do seu pai sem você, você não chega logo" e eu pensei, no alto da minha exaustão: "que bolo?".
Quanto vale a notícia que sai da gente?
Eu sou extremamente apaixonada pelo que eu faço. E é por isso que eu faço, mas a um preço muito alto. Ou muito baixo, se você olhar novamente essa vaga de emprego aí em cima. E não só eu. Todos vocês, jornalistas. Quem ganha mal, quem deixa a família no almoço de domingo pra preparar a edição do outro dia. Quem muda de cidade pra virar repórter e mesmo assim continua amando tudo. Quem abre o jornal e vê aquela reportagem maravilhosa e sente orgulho. Quem sente que, a cada dia trabalhando na área (assessor, repórter, redator, apresentador... todo mundo), fica com a casca um tanto mais grossa.
Greve dos jornalistas do diário do Pará.
As 50 melhores e piores profissões em 2013.
O perigo de ser jornalista: violência e abandono
A crise do jornalismo e a crise dos jornalistas
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segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Minha e nossa Cidadela
Há três meses atrás eu não fazia a menor ideia do quanto a gente pode fazer um pouquinho mais pelo que acreditamos. Foi quando a Sybylla e a Aline Valek me convidaram para um projeto um tanto inusitado: escrever Ficção Científica Feminista.
Mas ein?
Não tenho nem como explicar isso melhor que a Sybylla, vejam aqui.
O caso é que unimos forças, dez autores e autoras com um único objetivo: escrever contos onde a mulher fosse destaque. Quem gosta de FC sabe que, muitas vezes no gênero, a gente não passa de objeto decorativo.
O desafio: criar protagonistas que lutassem contra sexismo, homofobia, racismo, misoginia. E mais, que interagissem de forma justa, igualitária. Que fossem reflexo do que acreditamos na vida real.
E foi árduo. Eu comecei com uma ideia, mudei tudo, voltei ao início, pedi socorro à Sybylla. No final, meu conto, "Cidadela", fala sobre uma coisa que sempre me incomodou. Além das outras questões que a gente aborda - a falta de tutela da mulher sobre seu corpo, opressão, preconceito - eu quis juntar não uma, mas duas protagonistas. A vida inteira eu tive mulheres que me foram muito importantes, minhas amigas, em quem eu confiava. Então para mim sempre foi estranho me dizerem que amizade entre mulheres não existe. Existe, sim. Chamar a colega de puta, criticar as mulheres por qualquer postura, achar que não se pode confiar em uma mulher - apenas por ela ser mulher - é uma visão impingida pelo machismo.
Por isso concebi duas personagens centrais.
Irina é a primeira. Ela é uma mulher oprimida por um sistema que domina tudo (sim, meu conto é uma distopia). Ela é violentada de todas as formas possíveis, jogada ao vento, descartável como muitas mulheres são.
Luisa é a segunda. Ela nasceu em berço nobre, mas seu lugar é a rua. É uma guerrilheira capaz de lutar, de ser invisível ou grandiosa quando quer. Elas percebem, durante a narrativa, que a única forma de vencerem é se unirem. E elas fazem isso naturalmente, porque são mulheres. Sem julgamento. Sem desconfiança. E é a união delas que vai mudar tudo.
Então pra você conhecer esse e mais nove contos (que nossasinhora, me fazem ficar arrepiada até hoje), basta clicar aqui: Universo Desconstruído. Dá pra baixar em diversos formatos, e de graça, apenas com o PagSocial! Ah, e dá pra comprar o livro via Clube dos Autores! não é lindo? aliás, a ilustração também tá de arrepiar.
Tô realmente muito orgulhosa de ter feito parte disso. Espero que vocês também fiquem. Luisa e Irina agradecem. :)
PS: Algumas meninas feministas no twitter pontuaram que, ao escrever Ficção Científica Nacional e Feminista (tudo em caixa alta, veja bem), a gente "despolitiza" a causa. Não respondi porque não tenho mais twitter. Só queria dizer que ela entendeu tudo errado. A gente quer é começar com a prática, mesmo. Quer mais autores, mais debates, quer desconstruir um universo masculino e fomentar boas discussões. Por isso, para essas pessoas que olham com desdém, leiam a coletânea antes de falar qualquer coisa. Ou esse post da Sybylla.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Fragmentos do reportar
Em meio a conflitos indígenas com morte, a força nacional descendo em Sidrolândia (a 64 km de Campo Grande) uns dias atrás e a morte do diretor do jornal onde eu trabalho por um infarto fulminante também uns dias atrás, a cidade anda um caos. A vida anda um caos. Os sentimentos de todo mundo que eu convivo andam um caos.
"You're such a mess".
Em meio ao caos, um dia desses escrevia sobre uma peça de teatro. Quando dei o "save" final no arquivo, ouço um berro e a seguinte ordem: morreu uma criança atropelada no bairro Aero Rancho. Um ônibus passou por cima dela. Vá lá e cubra isso, ninguém em Cidades pode ir. E eu fui, pálida e temerosa, mas fui. Graças à bondade de uma colega da editoria de Cidades, fui esclarecida de que a criança havia morrido às 12h57. Eram 16h30. Ainda encontrei a poça de sangue e a matéria foi manchete naquele dia.
Dias depois acordei às 6h30 da manhã de domingo pra ir escrever sobre um projeto social de orquestra sinfônica. 50 alunos de diferentes idades em um bairro abandonado me receberam tocando violino e violão clássico. O texto fluiu tão bem que nem acreditei, às 9h da manhã eu já estava com a capa do caderno toda pronta.
"Did you see the last news about the U.S.A. Government?", perguntou minha teacher. Ela sempre me pergunta nas aulas sobre journalism, se é legal ser "a journalist".
Em meio aos passaralhos Brasil afora, em meio ao impacto da trágica morte que nos pegou há pouco tempo, em meio às noites mal dormidas. Em meio aos indígenas que usaram um cinegrafista como escudo lá em Sidrolândia, já que a polícia atirou e matou um deles. Em meio a crianças mortas por ônibus em bairros sem sinalização de trânsito. Em meio a verdadeiras odisseias para ajudar estagiário a entregar página, em meio a notícias de que artistas estão sendo negligenciados na cidade em que eu vivo, é legal, sim.
Tem o projeto social que eu divulguei, porque graças a isso, outro projeto musical me ligou dizendo que viu a matéria e que gostou, e que gostaria muito de uma divulgação. E o próprio projeto que vai poder receber mais incentivo. Tem aquela matéria de comportamento que falou sobre lutar contra preconceito entre as pessoas, aquela peça de teatro maravilhosa que eu pude escrever sobre. Tem aquele dia em que eu entrevistei gente simples com história boa pra contar, que eu ajudei um artista a divulgar sua peça gratuita e que eu nessa pequeneza que sou, me senti orgulhosa e feliz por alguma coisa que havia feito, que havia escrito. De vez em quando a gente precisa reafirmar tudo isso pra si mesmo, pra ser mais resiliente.
Pra não se fragmentar nem se desfazer.
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segunda-feira, 27 de maio de 2013
Somebody put me together
Assim mesmo, com a voz animada e melodiosa de Mike Patton, com as cores explodindo, peixes voadores, uma mão bizarra com um olho na palma, esse clipe feliz e vibrante. Minha inquietude soa exatamente como essa música, vontade de sair socando paredes vestida de Alex do Laranja Mecânica.
"Back and forth, I sway with the wind
Resolution slips away again
Right through my fingers, back into my heart
Where it's out of reach and it's in the dark
Sometimes I think I'm blind
Or I may be just paralyzed
Because the plot thickens every day
And the pieces of my puzzle keep crumblin' away
But I know, there's a picture beneath"
De certa forma, eu me arrependo de não ter ido no show do Faith no More em 2011. Eu não havia planejado essa viagem e havia recém terminado, tomei outros rumos naquele fim de semana e viajei pra outro lugar, tentando me consolar acreditando que em breve eles voltam pro Brasil e daí eu vou. Esses planos. Olha, que droga. Talvez eu esteja exatamente paralisada como na música. Porque minha indecisão já me levou embora alguns anos da vida. E nesse momento é como se eu estivesse em uma ponte frágil e quebradiça que não vai dar em lugar nenhum.
"Indecision clouds my vision
No one listens...
Because I'm somewhere in between
My love and my agony
You see, I'm somewhere in between
My life is falling to pieces
Somebody put me together"
Tem gente que insiste em dizer que eu sou uma típica "ariana", que meu signo no horóscopo dita o meu jeito e essa minha tendência de começar a surtar toda vez que acho que tem alguma coisa me controlando. Já ouvi isso zilhões de vezes, só que eu não acredito em horóscopo. Toda vez que eu reúno cinco razões pra dar o fora de Campo Grande, os dias vão passando e essas razões vão se quebrando que nem um castelo de cartas. Minha rotina tem sido erguer isso de volta todos os dias, de forma exaustiva, pra que uma hora não caia mais e eu parta.
Somebody, somebody put me together.
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domingo, 5 de maio de 2013
Essa saudade do cinza
Minha memória me trai, mas é preciso continuar.
Eu precisei passar alguns dias em São Paulo pra entender porque se ama e se odeia aquele amontoado de prédios, viadutos e gente, muita gente. E descobri de uma forma intensa. Decidi que amo, da sujeira às vitrines brilhantes.
Não falei ainda do show do Queens of the Stone Age no Lollapalooza porque chega que a saudade dói profundamente. Se 2013 começou triste e sem graça, aquele instante do show foi o momento do ano até então. Eu queria que a minha vida fosse um eterno show de Josh Homme e trupe, um loop eterno, e eu vivesse aquele momento sem parar eternidade afora. Do it again. Do it again and again.
(Destaques do show, na minha opinião: Burn the witch, que teve coro da plateia antes de começar, Hangin' Tree que eu chorei do começo ao fim e My God is the sun, a do disco novo tocada em primeira mão - algo como world première).
Já fez um mês. No hostel da Vila Mariana, aquele lugar bucólico perdido no meio de outros labirintos, me senti em casa, mas na verdade minha casa era o mundo. Conheci israelenses, cariocas, paulistanos, gente do Acre e do nordeste inteiro, e uns dois americanos. Todos os dias eu saia de lá em busca de ver mais, muito mais. Entre quase ser prensada na porta do metrô, conhecer o caos de barracas que é a Rua 25 de Março e tomar café israelense, conheci a famosa Rua Augusta, em uma sexta-feira.
É claro que a gente parecia dois caipiras no meio da confusão, e eu me sentia a menina mais inexperiente do universo. Pessoas na calçada, bares em pequenas portas, mundos inteiros à parte. São Paulo e seu clima frio à noite me permitia sair de jaqueta de couro, e incrivelmente, ninguém reparava em mim com olhos espremidos, como quase sempre acontece. Eu era mais uma, eu era invisível, e eu adorei isso.
Comemos em botequins, vimos surrealidades na Praça da Sé e na Galeria do Rock. Conheci duas amigas muito queridas que eu só havia visto pela tela do computador, andei por bares charmosos e jantei comida espanhola, tapas & tortilla. Tomei erdinger em outro boteco, experimentei cheiros e sabores como nunca. Esqueci que meu aniversário é um dia odioso e me permiti ficar feliz por ser 31 de março. Andei nas ladeiras da Augusta até os pés reclamarem.
E voltei pra cá.
Voltei pra uma cidade que eu teimo em querer deixar. Voltei para a parte boa, meus amigos e minha família, meus gatos. E para a parte ruim, também. Eu insisto em querer ir embora porque não quero morrer enterrada pra sempre no meio do Pantanal. Um dia eu rompi as paredes da bolha em que vivia, e pra lá eu não volto mais, pra uma vidinha mais ou menos, eu não volto. Preciso romper agora os limites físicos.
"Você é a cara de São Paulo, menina, em um bom sentido!" - me disse uma amiga de lá. Poucas vezes eu me senti tão lisonjeada.
São Paulo, eu te amei e sinto imensamente a sua falta.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
E há tempos tive um sonho
Parece cocaína, mas é só tristeza
Talvez tua cidade.
Muitos temores nascem do cansaço, e da solidão
Descompasso, e desperdício.
Sei lá porque mas hoje passei o dia todo com essa música na cabeça. Desde que roubaram meu celular velho, onde eu escutava música, só consigo ouvir em casa. Aí por não ouvir música mais durante o dia, sempre que alguma coisa encafifa na minha cabeça, lá ela fica. Hoje foi "Há tempos", música que eu ouvi por demais quando era criança, e acho que ficou na cabeça talvez porque falamos (na redação) do filme sobre o Legião Urbana que vai ser estrear amanhã. Sei lá.
Só sei que há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro.
Os dias tem sido pesados. Primeiro de tudo, eu parei de fumar. Há três semanas. E venho resistindo aos pequenos grandes impulsos, como comprar cigarro na banca. Ter pessoas fumando do meu lado e me contentar em permanecer em um silêncio resignado. Enganar a hora fatídica do cigarro no expediente tomando mais um copo de café. Eu não era a fumante mais viciada das galáxias, mas mesmo assim decidi parar. Mais um vício que deixo pra trás
É dificil quando já estamos acostumados a não termos mais nem isso.
Eu voltei a fumar numa época muito específica da minha vida. Havia parado há seis meses. Numa quarta-feira de outubro, em 2011, terminei um relacionamento de 8 anos. Na primeira semana, eu fingi que nada aconteceu. Mas o descontrole veio. E na época, eu estava no meio de um relatório complicadíssimo de uma mostra de arquitetura, ainda na assessoria de imprensa. Precisava retomar algum controle, ou não daria conta. Precisava concluir aquilo pra depois explodir. Senão explodiria de um jeito irreversível.
Meu grito acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira.
Sai tremendo do trabalho, as lágrimas rolando enquanto pensava no que fazer, mas eu lutava contra ela, aquela tristeza tão exata. Queria gritar, queria quebrar alguma coisa. Não terminei esse relacionamento do jeito mais fácil. Eu abri meu peito e arranquei aquele ser, que hoje me é um completo estranho, à força de dentro do peito. Então, no meio disso, eu precisava me concentrar. Não tive dúvidas, e voltei a fumar. Encontrava no cigarro um momento de calma, só meu, de reflexão. Hoje eu sei, e lá eu também sabia o quão autodestrutivo é isso. Pra me concentrar, eu arrumei um jeito de me destruir, porque na minha cabeça quebrada, eu queria sentir alguma coisa. Não era o controle apenas para o trabalho que eu queria, era a frieza, a placidez da destruição de tudo que me fazia saudável e bem. De algum jeito, eu me sentia imune à dor porque não sentia mais nada. Fumar virou hábito de novo.
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
Há quase um mês eu fiquei muito doente. Não faltei ao trabalho porque sou teimosa, mas alguns dias eu nem sei como dirigi até o jornal. Foi uma gripe, um resfriado, uma tuberculose ou sei lá o que. Fiquei imprestável como há muito tempo não ficava. Ainda guardo um pouco de tosse e ranço na garganta, alguns espirros, mas melhorei. Então no decorrer desses dias acamada, e sem poder dormir três dias seguidos pra me recuperar, deixei o cigarro de lado em um dia. Depois no outro. E no seguinte. E depois de uma semana, anunciei em alto e bom som: parei de fumar. E não tô contando os dias exatos, fazendo calendário. Apenas deixando ir, deixando pra lá. Resistindo com as minhas forças. Tem dado certo.
Disciplina é liberdade? acho que sim. Acho que se não é pra mim, vai passar a ser. Eu devo isso a mim mesma, mesmo que já faça tempo. Há tempos.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Guest post: Machismo para Iniciantes
Há um certo tempo, instalei o Google Analytics para conhecer o perfil dos leitores do blog. E eis que um pouco mais de 70% de quem acessa é aqui da minha cidade, Campo Grande. Acredito que os meios de divulgação que uso dos posts (Facebook e Twitter) direcionem pra isso. Sim, eu não divulgo tanto meu blog. É um exercício muito pessoal o que faço com isso aqui, e mesmo assim, às vezes o alcance é inesperado.
Na semana passada, o post "O estupro que não está longe" teve uma repercussão inusitada. Muitas pessoas se aproximaram de mim para conversar sobre o assunto, inclusive uma moça que estava na festa onde aconteceu o crime, o que inclusive me fez colocar um update na postagem. Então veio um comentário no dia seguinte. Um leitor(a) anônimo disse, entre outras coisas, o seguinte:
"(...) mas é igualmente irreal pensar que possuímos uma cultura em massa que apregoa tal prática. Se essa ideia fosse verdade, viveríamos em sodoma ou gomorra onde isso seria normal e socialmente aceito. não é o caso. Culpar cultura (ou o seu próprio fantasma generalizado do que ela é) não tem resultado prático algum. essa merda só aconteceu porque a organização da festa que não deixou seguranças no estacionamento e o poder público que não fez policiamento ostensivo (...) . Sempre a mídia divulga esse tipo de ocorrência como fatalidade, mas é só consequência da eterna irresponsabilidade do setor público/privado, e da inércia das pessoas que não fazem nada para cobrá-los".
Eu vi que esse comentário havia sido uma resposta a um comentário da Sybylla, amiga e leitora, que falou, entre outras coisas, da cultura do estupro. Então, olhando o Analytics me veio a dúvida: será que as pessoas que me cercam aqui, no meu cotidiano físico realmente pensam que não há a cultura do estupro?
Pensando nisso, pedi à Sybylla que escrevesse mais sobre isso, de forma abrangente e livre. Ela pontuou tudo o que elenca o machismo. No comentário do leitor(a), ele culpa terceiros, o sistema, a falta de policiamento ostensivo, a mídia, pelo estupro. Mas e os estupros que acontecem entre quatro paredes? é falta de policiamento ostensivo? será que estamos nos esquecendo do sentimento de posse que todo homem é incitado a ter sobre o corpo da mulher como indivíduo desde muito cedo? e o fato de ser culturalmente aceito culpar a vítima?
Quando li o comentário do leitor, lembrei de quando eu tinha 12 anos e pulava carnaval em um clube aqui da cidade. E que quando eu passei no meio de alguns garotos, um deles me agarrou e puxou meu cabelo com força. Eu resisti e fui empurrada, cai no chão e bati o braço. A culpa era minha, de estar na festa? da minha roupa, do meu corpo? de ter passado ali? do segurança da festa que não estava presente no momento? ou do garoto que simplesmente pensou, por alguma distorção social, que tinha direito de tocar meu corpo sem meu consentimento?
Eis então o texto da Sybylla. Aviso que é uma pedrada pra quem insiste em dizer que nada disso é real. A visão dela é crítica e sem meias palavras. Obrigada Sy!
Machismo para iniciantes
Por Sybylla.
Eu percebi que é muito difícil falar de feminismo porque as pessoas em geral tem conceitos distorcidos já estabelecidos na mente e simplesmente não escutam, não pensam e tampouco entendem o que ele quer dizer. Assim achei mais fácil para este guest post falar sobre o machismo e quem sabe assim mostrar o lamaçal no qual todos nadamos.
O que é machismo?
Machismo é toda uma cultura enraizada na sociedade patriarcal que diz que o homem é superior à mulher e à mulher cabem determinados lugares e ocupações na sociedade, mas não todos, porque não é digno para a mulher fazer certas coisas. É ele quem produz as manchetes absurdas que vemos todos os dias como violência contra a mulher, contra gays e transsexuais.
É o machismo que mede tamanho da saia, profundidade do decote, intensidade da maquiagem para enquadrar uma mulher como vadia ou não. É o machismo que diz que mulher não pode gostar de sexo, que para ser boa para casar tem que ter namorado pouco, mas que na cama deve saber chupar e rebolar gostoso. Ele diz que mulher não pode viver sem um marido, não pode rir alto, sentar de perna aberta, usar roupa curta, marcada ou colante, tampouco sair à noite, sair sozinha ou ir para a balada.
O machismo faz vítimas, pois para ele tudo o que não seja viril e vinculado à imagem do macho é digno de escárnio, de violência, de incompreensão. Basta ver como xingamos uma pessoa. “Ô, filho da puta!” Não xingamos a pessoa em si, mas xingamos a mãe dele que, opa, é mulher! Ou então a gente fala “Para de viadagem, mano!” E por que isso? Porque qualquer comportamento afeminado em um homem é feio. É o mesmo princípio que norteia a ofensa “Para de ser mulherzinha!” De novo, para o machismo, tudo o que se refere ao feminino é feio e inferior.
Mas nem tudo, né gente? Afinal de contas, o machismo adora mulheres nuas nas capas das revistas. Ou seja, o machismo diz como as mulheres devem se vestir e a como tirar a roupa. Ahh, mas tem regras. Você só pode tirar a roupa se for gostosa, pois se o seu corpo não estiver dentro do padrão que o machismo quer, você é baranga, caída, gorda e feia. Só que você não pode tirar fotos com o seu celular, pois aí você é puta. Não, nada disso, você tem que tirar a roupa para a revista para o machismo ver. Qualquer coisa fora disso e você é vagabunda que fica tirando fotos dentro da sua casa, do seu corpo e com o seu celular/máquina.
Uma das crias mais purulentas do machismo é a cultura do estupro. Essa cultura é derivada daquela outra lá de cima que gosta de medir o tamanho das roupas da mulher e que diz que se você não se encaixar em uma série de variantes, o seu estupro/abuso/violência/agressão foi provocado. Coitado do machista, ele não pode controlar seu impulso sexual e ataca uma mulher que está usando uma roupa que ele julga vulgar e a estupra, pois afinal, vestida assim, ela tá pedindo, né? O que é mais interessante de notar é que os estupros ocorrem em mulheres que estão vestidas com jeans, camiseta, saia, toga, camisa, casaco, boné, biquini, camisola, maiô, shortinho curto, bermuda, roupa de presidiária... Enfim! Parece até que a culpa do estupro e da cultura do estupro é do estuprador e do machismo, né?
É o machismo também que diz que mulher gorda e/ou feia deveria agradecer se é estuprada, pois afinal de contas, quem vai querer aquela mulher, que o próprio machismo diz que é feia, para transar ou ter algum relacionamento sério? E uma das coisas que o machismo também faz é gritar para os homens: “CALA A BOCA, QUE MENINO NÃO CHORA!” Porque chorar, ter emoções, amar, sentir tristeza, ter compaixão, falhar são coisas que o machismo não admite e se sucumbe à isso, você não presta.
É, gente, o machismo nos prende tal qual a Síndrome de Estocolmo. Pois tem gente presa ao machismo e agradece por ele existir, defendendo-o com unhas e dentes. E ataca aquelas outras ideias absurdas, como por exemplo, o feminismo, que quer reduzir as desigualdades entre homens e mulheres e que quer libertar todos nós de uma cultura castradora e punitiva.
*** Sybyla é Blogueira responsável pelo Momentum Saga, feminista. Geógrafa professora da rede estadual de ensino de SP e mestranda em Geoquímica e Geotectônica. Fã do futuro, ficção científica e ciência."
Leia também (links recomendados pela Sybylla):
Aline Valek - As feministas é que são chatas
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Lyra
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