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segunda-feira, 2 de março de 2015

Callas, essa maravilhosa

Há algumas semanas, o caderno que eu edito no jornal ficou em polvorosa com a chance de entrevistar uma atriz maravilhosa, diga-se de passagem: Silvia Pfeifer. Quem assiste ela na novela das sete como vilã, hoje, não imagina a simpatia que ela é. Uma pessoa centrada, acessível, que, como diz a minha estagiária Lua, ganha em todos os níveis de maravilhosidade. A Silvia veio pra cá pra estrelar a peça "Callas", baseada na vida trágica da soprano grega Maria Callas, que morreu nos anos 70. 

Resolvi ir assistir já antecipando que seria uma peça daquelas boas. E de fato, foi. A Silvia, incrível, o cenário extremamente elegante e bonito, iluminação surpreendente e sensível. Em quase uma hora de montagem, você tem a oportunidade de conhecer mais sobre uma cantora que fez história na ópera mundial, e que teve uma trajetória cheia de problemas pessoais e profissionais. 

Foto: Marcelo Victor

O enredo se desenrola, curiosamente, como se fosse uma enorme entrevista jornalística daquelas que só repórteres próximos à fonte fariam, já que, na sinopse, o jornalista John, personagem fictício, convida Callas para conhecer uma exposição que fará sobre ela e aproveita para entrevistá-la. Só que, nesse momento, a intensidade e a dramaticidade de uma história real acabam dominando a história. Em determinado ponto, John (o jornalista) vira o entrevistado pela curiosa Callas, que, nesses momentos, deixa a amargura pessoal de lado para fazer perguntas. Mas John foge e recomeça a tocar nas feridas dela. 

A peça me fez refletir não só sobre a história de uma mulher imensamente forte que passou por muitas coisas ruins como uma mãe opressora, a cobrança de ser a melhor cantora do mundo, o casamento sem amor e depois o amor que se casa com outra, o filho que é natimorto, as críticas pesadas da imprensa. Tudo isso pelo amor à música e ao seu público, que ela cultivava com apreço. A maior reflexão que me trouxe foi sobre a relação fonte-repórter

Callas cita, em vários momentos, sua relação de amor e ódio com a imprensa. Muitas vezes, jornais italianos e franceses usaram sua rixa famosa com a cantora Renata Tebaldi, para vender exemplares. E essa pisoteação fazia sucesso. Maria Callas não confiava na imprensa. Mas amava estar nela quando era ovacionada. Nem sempre nosso papel é destruir carreiras ou humilhar, mas revendo a situação dos jornais na época que Callas viveu, muitas vezes isso era serventia da casa. A cantora teve o azar de ver a imprensa em sua face mais grotesca.  

E, quando Callas diz à John que foi execrada pelos jornais porque "abandonou o espetáculo mais uma vez", com manchetes e letras garrafais, ela se vira para o amigo, e diz: "minha voz estava acabada, John". Na biografia dela, é contado que ela desmaiou de exaustão e pela dor da voz há muito perdida atrás das cortinas. Que se fecharam pra sempre.

Momento tietando a Silvia <3

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A mulher jornalista

Na última sexta-feira (24), fui uma das participantes da mesa redonda "Mulheres no Jornalismo: O que queremos" organizada pela semana de jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a simpática Semajor. Ao lado de outra jornalista com o perfil completamente diferente, tinha a missão de falar sobre o que é ser jornalista e mulher. Pois bem. 

Rasguei o protocolo quando abri a fala dizendo que não dá pra falar sobre ser jornalista e mulher se a gente não discute quem é a mulher na mídia brasileira e quiçá mundial. Como vamos falar sobre o que é ser mulher dentro das redações, se dentro e fora delas, a gente ainda sofre desgraçadamente com um machismo que impera pras jornalistas ou não? impera pra todas nós?

As mulheres representam mais de 60% dos profissionais hoje dentro da área de jornalismo, entre assessorias e veículos de comunicação. Mas uma pequena parcela dessas mulheres está em um cargo de chefia. E a maioria esmagadora ganha menos que os colegas no mesmo cargo. 

A pesquisa detalhada foi feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e você pode checar em detalhes aqui. E o mais triste é que ela foi fazer um mapeamento do perfil do jornalista brasileiro e voltou com essa triste constatação de que, em mais uma área, a mulher é muito menos valorizada do que devia. E que o perfil do jornalista brasileiro é, pasmem, a jornalista brasileira. Citando a própria pesquisa: "(...) os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos". TÃ DÃ! (vinheta do Law & Order). 

Quando essa pesquisa veio à tona, o impacto foi mínimo mesmo a informação sendo incongruente: 1. Tem mais mulheres nas redações. 2. Elas não ocupam cargos altos e ainda tem salários menores. Chorei largada na cantareira. 

Mas muito além disso, o que mais me incomoda é como tratamos as mulheres na mídia. Quer dizer, o que publicamos sobre nós mesmas, sobre nosso próprio gênero. E foi sobre isso que falei na mesa, sobre as três vertentes da mídia machista: A "Musa" de qualquer coisa (insira aqui um grande evento brasileiro, principalmente esportivo. Apenas aguardando as ~musas das olimpíadas~). A reportagem "Por ciúmes, homem mata a esposa" (vamos começar a produzir matérias "por fome, ladrão rouba supermercado" aí por favor?) e a matéria do "suposto estupro" quando tem a palavra flagrante no mesmo parágrafo. 

Se sutilmente a gente massacra a mulher no nosso discurso jornalístico cotidiano, entre pautas e leads, vai ser diferente com a mulher jornalista? como discutir a vida dessa profissional (essa cara sou eu) se enquanto mulher, enquanto membro de uma sociedade, sou desvalorizada o tempo todo única e exclusivamente pelo meu gênero? 

É por isso que precisamos analisar nosso discurso sendo essa mulher jornalista. Sendo essa profissional que tem o poder de escrever o cotidiano das pessoas em qualquer mídia que seja. Mas nosso colega jornalista, aquele que ainda ganha mais do que a gente, também precisa. Vamos analisar nossos julgamentos pessoais sobre as matérias que a gente escreve. "Olhar sensível" das mulheres sobre a pauta não existe, a gente é treinada desde criança pra achar que tem que ter esse olhar. Mas o olhar crítico todo mundo pode ter. 

PS: Seu machista, pega aqui na minha pauta e balança! Olhar sensível é o deadline da sua cara! risos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Espacinho

Desde abril que não escrevo aqui. Fico encontrando motivos: o post que necessitava de fotos, a criatividade que não veio, a falta de tempo... e aí começo a pensar em novos blogs, novos espaços, outros projetos, outros escritos. E lembro que aqui, o mais básico e simples de todo, o meu Menina Lyra, tem faltado um certo zelo.

Eu havia escrito um post muito especial sobre a relação minha - e das mulheres que conheço, as de verdade - com seus corpos, mas talvez, por motivos que eu nem quero falar agora, talvez tenha que reescrevê-lo. O fato, é que eu voltei. E estava quase colocando as amarras de sempre em mim quando me dei conta e parei no último instante e pensei "preciso voltar às raízes".

O fato é que sempre que eu preciso desabafar, refletir, me expor e ao mesmo tempo me desconstruir, é nesse espacinho com esse template bobo e simples de um gato de óculos - é aqui que eu venho.

E eu voltei. Junto com as reflexões. Mais sinceras dessa vez.

Eu prometo. Pra mim mesma, aos mesmos. Ao menos.

*



Morreu Ariano Suassuna também. Fiquei triste. O sertão chorou feito Macondo quando Gabo se foi. O mais triste foi o jornalismo que matou ele antes da hora. As vezes eu me pergunto se escolhi a profissão certa ou se a profissão é que se perdeu na escolha. Mas isso é assunto pra depois. 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sobre erro e preconceito

Por três anos da minha vida, na época em que eu fazia jornalismo, eu trabalhei com algumas meninas de Campo Grande pra tentar, de um jeito eficaz, ajudar uma porção de gatos de rua que cruzaram nosso caminho. Acolhi alguns em casa pra desespero dos meus pais, vi gato atropelado, famélico, judiado, abandonado. Simples assim, vidas descartáveis. As protetoras e protetores davam tudo que tinham e o que não tinham pra diminuir a estatística de abandono, recolhiam o animal, castravam, doavam. Tudo do bolso delas, dependendo de doações, mas sem desistir. Parei por umas simples razão: era isso, ou a minha saúde. Tem que ter estômago pra lidar com proteção animal. Precisa, como diz a Bia da Gatoca, ter um travesseiro à prova de lágrimas. Eu fiz o que dava e pensei, vou acabar ficando doente. Não é pra qualquer um defender uma causa assim, mas não só da boca pra fora: exaurir a própria saúde por um bem maior. E eu não vou nem começar a falar das críticas que as meninas ouvem até hoje, que na verdade não ajudam em nada. Quem critica não sabe o que é 1% daquilo. 

É por isso, entre outras coisas, que na sexta-feira, quando eu vi uma matéria em um site local com a manchete: "Após 1 ano sem morte, doença do gato faz a primeira vítima em MS", eu não me contive. Deixei um comentário no site, e o comentário não foi aprovado. Acho que nunca um comentário meu nesse site foi aprovado, exceto um ou outro elogioso. Então postei no meu perfil do Facebook a crítica e o link. A matéria também era sofrível por várias razões e culpava os gatos pela morte da menina de forma subjetiva no decorrer do texto, sem explicar muito bem a causa real da morte dela. Alguns pontos foram omitidos, como o fato de que a jovem era portadora do vírus HIV e recusava tratamento. Aliás, se eu for entrar nesse assunto como um todo, esse post vai ficar gigantesco. Enfim, doeu ver essa reportagem porque naquele instante pensei: daqui a pouco começam os abandonos.

Cerca de quatro ou cinco colegas de profissão do veículo vieram dizer que eu fui anti-ética de explanar na minha rede social minha crítica. Que eu deveria ter dado um 'toque' na repórter por conhecer o ritmo da redação, saber o quão punk é trabalhar com isso. Que eu deveria ter sido 'ética' porque um dia posso 'vir a trabalhar lá e não devo fechar portas'. Que foi um 'erro' e que eu, repórter, também posso 'errar'. Pois bem. Não.

Erro, acidente de percurso. Eu erro sempre, sempre. Semana passada eu fui esculachada por uma fonte porque escrevi que ele tocava 'rock com pegada blues' e na verdade, segundo a fonte, é 'blues com pegada rock'. Erro, engano. A gente tá passível disso, sim. Agora, dizer com todas as letras que 'doença do gato' mata uma pessoa de forma alarmante, sem levar em conta todo o resto, sem explicar direito que a toxo é transmitida ao ingerir as fezes do gato, e que comer carne bovina e verdura mal lavada é a forma de contaminação real, e ainda repetir 'doença de gato' várias vezes na matéria? cinco minutos de pesquisa no google e tudo teria sido esclarecido. Isentar a própria culpa, culpar a pressa, culpar o editor. Algumas vezes todos esses fatores tem culpa sim. Nessa matéria provavelmente também, a repórter deve ter sido prejudicada por vários fatores ao redor dela. Mas não dá mais pra gente se isentar de responsabilidade.

A consequência, infelizmente, foi aqui fora.

Ontem à noite uma protetora conhecida me chamou por inbox e disse: "acabei de recolher dois gatos abandonados pelos donos, que disseram ter visto a matéria e que não queriam morrer de toxo". Uma era uma gatinha que havia recém parido 6 filhotes. A protetora recolheu ela e toda a ninhada, mesmo sem espaço e sem lar temporário. O outro gato foi de um senhor morador de um prédio luxuoso. Era do filho dele, de 6 anos. A criança chorou desconsolada na porta do edifício e o pai disse "eu li aquela matéria e não quero arriscar a vida do meu filho".

Critiquem à vontade. Mas meu pensamento o tempo todo estava com quem vai lidar com as consequências reais do jornalismo, aqui do lado de fora da redação. Naquele momento, eu não tive a menor empatia pelo repórter por dois motivos: primeiro, nosso empregador é o primeiro de muitos. Segundo: eu sabia exatamente a consequência daquela matéria, e sabia que aquele erro foi por uma mera falta de pesquisa. Poderia ser diferente. E eu continuo sendo repórter. Não dá mais pra pensar que eu estou acima de tudo porque eu sou jornalista. Meu texto é a minha maior arma. Machismo e preconceito não serão mais tolerados, porque esse tipo de coisa não é um mero e simples erro de percurso. Vamos analisar melhor nosso discurso e sair dos lugares comuns, e tem que ser já. Nosso empregador não vai fazer isso pela gente. Em tempos de passaralho, é hora de parar de se isentar dos próprios erros e assumir, de frente, que nós temos responsabilidade pelo que escrevemos.

Não dá mais pra nós, que somos os formadores de opinião, continuarmos nos isentando da responsabilidade dos nossos atos. Simplesmente não dá.

domingo, 13 de outubro de 2013

Quanto vale

Na quinta-feira, eu entrei pela porta do jornal às 8 horas da manhã. Sai de lá às 20 horas. Escrevi durante 12 horas sem parar. Minto, parei, almocei (não me lembro o que exatamente), escovei os dentes, peguei mais um café e voltei pro computador. 

Escrevi tudo que consegui, usei as palavras que pude, me exauri pensando em novos leads e novos ganchos (lead é o primeiro parágrafo de toda matéria e gancho é o 'foco' daquela reportagem). Cheguei no final do expediente com as costas curvadas sobre o computador. Ao meu lado, copos e copos sujos de café. Ar de absoluta exaustão. Tudo isso em função da seguinte questão: esse sacrifício todo, a ponto de eu chegar em casa explodindo de dor de cabeça e fadiga, é o clássico chamado de "pescoção": quando o repórter adianta matérias e matérias pra poder folgar. No meu caso, pra poder folgar sexta e domingo. 

Quanto vale meu trabalho?

Esses dias olhando o facebook em uma comunidade de jornalistas aqui do MS, me deparei com uma oferta de emprego/vaga, feita por um conhecido jornalista. E essa comunidade é povoada de jornalistas que, bem ou mal, se conhecem fora da rede. 


Se você ler bem certinho o que a pessoa oferece em troca e o que ela exige, olha, é de chorar. A empresa exige nada menos do que oito tarefas/habilidades/conhecimentos, muitos ali que simplesmente nós não aprendemos em uma universidade de comunicação social, ou seja, são experiências adquiridas no mercado. Pelas exigências, eu assumo que seja uma vaga pra assessoria de comunicação interna. E provavelmente as atribuições crescem muito ao longo do tempo, deve incluir jornais, newsletters internas, e-mail marketing, clipagem de notícias, e é claro, atendimento à imprensa externa se precisar. R$ 1200 por 8 horas inteiras. 

Quanto vale o nosso trabalho?

Quando a pessoa publicou a vaga, alguns colegas e eu comentaram a respeito da discrepância desse valor pago a um jornalista, ainda mais pela questão de que, em tese, nossa carga horária aprovada por lei é de cinco horas. E eu posso apenas falar da minha área em Campo Grande. Não sei, de fato, como estão as coisas fora de CG, mas pelo que tenho visto, as coisas andam bem dificeis pra quem é jornalista. Quem fica, quem sobrevive ao passaralho, acaba sofrendo outro fenômeno, o do ficaralho.

Atualmente, minha rotina de trabalho é a seguinte: eu acordo cedo, vou para o jornal, de lá vou para a agência de assessoria de imprensa onde trabalho como frila. A maioria dos jornalistas que eu conheço tem a mesma rotina: 6 horas em algum lugar, 6 horas em outro. Eu tenho, sim, a opção de ter apenas um emprego. Claro que tenho. Ninguém me obriga a trabalhar dobrado. Mas se eu não fizer isso, minhas contas atrasam. E não são uma ou duas. São todas. Eu vivo com meus pais e economizo o quanto dá, tento ser econômica. Eu sou privilegiada. Sempre imagino alguns pais e mães de família que trabalham comigo e sustentam um ou dois filhos. Eles ganham o mesmo que eu. 

Quanto vale a vida que a gente deixa de viver?

E assim a gente segue, driblando as contas com um milhão de frilas. Perdendo os feriados. Deixando a saúde em pescoções. Perdendo o aniversário da mãe (ou do pai, como foi no meu caso), entre outras tantas coisas. Sim, porque um dia eu trabalhei até mais tarde quando recebi uma ligação de "filha, vamos cortar o bolo do seu pai sem você, você não chega logo" e eu pensei, no alto da minha exaustão: "que bolo?".

Quanto vale a notícia que sai da gente?

Eu sou extremamente apaixonada pelo que eu faço. E é por isso que eu faço, mas a um preço muito alto. Ou muito baixo, se você olhar novamente essa vaga de emprego aí em cima. E não só eu. Todos vocês, jornalistas. Quem ganha mal, quem deixa a família no almoço de domingo pra preparar a edição do outro dia. Quem muda de cidade pra virar repórter e mesmo assim continua amando tudo. Quem abre o jornal e vê aquela reportagem maravilhosa e sente orgulho. Quem sente que, a cada dia trabalhando na área (assessor, repórter, redator, apresentador... todo mundo), fica com a casca um tanto mais grossa. 

Pra ler e pensar: 
Greve dos jornalistas do diário do Pará. 
As 50 melhores e piores profissões em 2013.
O perigo de ser jornalista: violência e abandono
A crise do jornalismo e a crise dos jornalistas

terça-feira, 11 de junho de 2013

Fragmentos do reportar


Em meio a conflitos indígenas com morte, a força nacional descendo em Sidrolândia (a 64 km de Campo Grande) uns dias atrás e a morte do diretor do jornal onde eu trabalho por um infarto fulminante também uns dias atrás, a cidade anda um caos. A vida anda um caos. Os sentimentos de todo mundo que eu convivo andam um caos. 

"You're such a mess".

Em meio ao caos, um dia desses escrevia sobre uma peça de teatro. Quando dei o "save" final no arquivo, ouço um berro e a seguinte ordem: morreu uma criança atropelada no bairro Aero Rancho. Um ônibus passou por cima dela. Vá lá e cubra isso, ninguém em Cidades pode ir. E eu fui, pálida e temerosa, mas fui. Graças à bondade de uma colega da editoria de Cidades, fui esclarecida de que a criança havia morrido às 12h57. Eram 16h30. Ainda encontrei a poça de sangue e a matéria foi manchete naquele dia. 

Dias depois acordei às 6h30 da manhã de domingo pra ir escrever sobre um projeto social de orquestra sinfônica. 50 alunos de diferentes idades em um bairro abandonado me receberam tocando violino e violão clássico. O texto fluiu tão bem que nem acreditei, às 9h da manhã eu já estava com a capa do caderno toda pronta. 

"Did you see the last news about the U.S.A. Government?", perguntou minha teacher. Ela sempre me pergunta nas aulas sobre journalism, se é legal ser "a journalist"

Em meio aos passaralhos Brasil afora, em meio ao impacto da trágica morte que nos pegou há pouco tempo, em meio às noites mal dormidas. Em meio aos indígenas que usaram um cinegrafista como escudo lá em Sidrolândia, já que a polícia atirou e matou um deles. Em meio a crianças mortas por ônibus em bairros sem sinalização de trânsito. Em meio a verdadeiras odisseias para ajudar estagiário a entregar página, em meio a notícias de que artistas estão sendo negligenciados na cidade em que eu vivo, é legal, sim. 

Tem o projeto social que eu divulguei, porque graças a isso, outro projeto musical me ligou dizendo que viu a matéria e que gostou, e que gostaria muito de uma divulgação. E o próprio projeto que vai poder receber mais incentivo. Tem aquela matéria de comportamento que falou sobre lutar contra preconceito entre as pessoas, aquela peça de teatro maravilhosa que eu pude escrever sobre. Tem aquele dia em que eu entrevistei gente simples com história boa pra contar, que eu ajudei um artista a divulgar sua peça gratuita e que eu nessa pequeneza que sou, me senti orgulhosa e feliz por alguma coisa que havia feito, que havia escrito. De vez em quando a gente precisa reafirmar tudo isso pra si mesmo, pra ser mais resiliente.

Pra não se fragmentar nem se desfazer.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O estupro que nunca está longe

Eu tinha começado a escrever um post pra falar do que vi em São Paulo e durante o Lollapalooza (o show do Queens of the Stone Age foi sensacional), mas acabei deixando. Quando fui pensar a respeito, duas coisas varreram a viagem da minha cabeça: o fato de terem tentado roubar meu carro e o estupro de uma menina de 20 anos, em uma festa de um curso da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Cheguei na redação para o costumeiro expediente de domingo, mais cedo, e vi o pessoal do turno da manhã comentando alguma coisa sobre uma festa que tinha acontecido na madrugada anterior. Duas repórteres da editoria de Cidades conversando entre si, pois as duas acabaram de se formar na universidade. Quando soube da história (que acho que o jornal deu em primeira mão), o chão me fugiu por um momento. Ou vários.

O caso foi tão banal, tão bárbaro, que fiquei sem palavras. E senti aquilo próximo de mim não só pelo contato direto na redação, mas pela situação em si. O cenário do filme de terror foi uma festa realizada pelo curso de Artes Visuais, em uma chácara distante. Aqui isso é muito comum, organizar festas em locais assim porque fica muito mais barato. Em determinado momento, a menina deixou a namorada na festa e alegando cansaço, foi descansar no carro. O estuprador a tirou do carro, a arrastou para o meio do mato e a violentou barbaramente, a ponto de ela ficar cheia de marcas e escoriações.

Até aí a violência já é terrível, horrível, por si só. Soma-se ao fato de que era uma menina que se relacionava com meninas. Não que ser heterossexual diminua o horror de um estupro, nunca, acho que o terror é o mesmo. Mas se nós, que nos relacionamos com homens, temos essa fobia de estupro, esse medo, imagine uma moça lésbica.

As meninas me contaram o caso, e eu, da editoria de cultura, sentei na minha mesa e fiquei matutando em silêncio. Pensando que, horrivelmente, a jornada da vítima não terminava ali, com a ida na delegacia, a denúncia, a busca da polícia pelo culpado. E nesse instante, a chefe de reportagem verbalizou os meus pensamentos e meus sentimentos de que ela ainda seria invadida, conspurcada pelo mundo machista em que a gente vive. Ela disse: "e aí vão falar que ela não devia ter ido sozinha para o carro; que ela mereceu pois era gay; e que a culpa é ainda mais dela porque estava em uma festa e devia estar bebendo, e todas essas merdas que falam pra colocar alguma parcela de culpa na vítima". Alguma e não raras vezes, todas a culpa.

Na matéria publicada nesse dia, a repórter entrevistou organizadores da festa, além da polícia. A vítima afirma com toda certeza que lembra do agressor de lá de dentro, tanto que pôde descrever até o tênis que ele calçava. Porém, na reportagem, os organizadores foram até enfáticos, da forma com que foi exposta por lá*****: "(...)ele permaneceu durante o evento na recepção e não se recorda de ter visto ninguém com as características descritas pela jovem. “A maioria das pessoas é nossa conhecida.” A estudante (xxx), que participou da organização da festa, afirma não se lembrar de ninguém circulando pelo evento com essa descrição. “Estávamos em oito cuidando da festa e ninguém foi procurado”, declarou (...)".

Algumas pessoas chegaram a levantar a hipótese de que ela estivesse em estado de choque, porém, a descrição foi tão precisa que menos de 72 horas depois já se tem o retrato falado do estuprador. Ah, e um suspeito.

Hoje, chegando na redação, imediatamente fui ver com o pessoal de Cidades como estavam as coisas. E um dos repórteres me disse que os responsáveis pela festa excluíram o evento do facebook********, onde possivelmente existiram pistas, ou assim a polícia poderia pensar. A imprensa não encontrou esse evento mais, mas nós sabemos que um simples software dá jeito nisso.

Então nesse momento funesto, a polícia divulga comunicados de que já tem tudo arquitetado. Os jornalistas sabem disso. **** Aliás, lembrem-se de que grande parte dos estupradores são gente conhecida. Isso, se for verdade, você diz para a polícia. Mas você não fala que estava perfeitamente monitorando tudo, obrigada. Você também não exclui o evento da festa, você cria um enorme comunicado dizendo: aconteceu isso, mas nós não vamos tolerar. Nós iremos grudar na polícia até achar o animal que a estuprou de forma tão covarde*****.

Não apoiar a vítima seria uma opressão pra gente também****, que nunca vai estar a salvo disso, porque a cultura do estupro é enraizada, e as pessoas não se mexem pra se livrar dela. Ninguém, no Brasil, ensina seus filhos a não estuprar, e sim ensina suas mulheres e crianças a não se "arriscarem". Vivendo. 

O desfecho a gente aguarda. Quando perguntei ao repórter qual seria a conduta do jornal em relação ao caso, já que a organização "lavou as mãos e tirou o seu da reta" e a polícia mantém sigilo, ele foi bem enfático (dessa vez pro bem): "A gente vai bater neles até pegar esse filho da puta". :)

OBS: Meu carro vai bem, obrigada. O seguro arrumou meu vidro quebrado no ato do assalto, sem consequências pro meu bolsinho empobrecido pós-festival. Um beijo pro meu agente de seguro. 
OBS¹: "Bater" é uma gíria jornalística pra investigar, insistir, ficar no pé de alguma autoridade/instituição para que algo não seja esquecido. 
OBS³: Nesse turbilhão, várias pessoas se propuseram a organizar uma ação, um protesto, contra mais esse estupro. Ela, infelizmente, cruelmente, não foi a primeira moça a ser violentada em uma festa ou na universidade. Infelizmente, e dói aqui dentro, de verdade.

                       *********UPDATE: Uma moça que estava na festa, colaborando com os organizadores, me chamou no Facebook agora a pouco, depois de ler o post, e me expôs o seguinte em relação ao assunto, que eles estão sim colaborando com a polícia e tá todo mundo super com medo de represálias e também por terem sido expostos na imprensa. Mas que todo mundo que tirou foto na festa mandou pra polícia e pra vítima, que todo mundo já falou tudo que sabe na polícia. Em resumo, que tiraram o evento do facebook simplesmente por medo, mas que todo mundo quer ajudar, mesmo que de forma mais sigilosa. Por isso, editei diversas falas do meu texto, principalmente onde tem os ***. Me sinto aliviada de muitas formas, porque alguém do outro lado rebateu uma coisa que me deixou muito, muito aflita. E se a cooperação tá sendo grande, conforme essa fonte falou, eu realmente espero que essas forças sejam somadas de uma vez e peguem esse agressor.

terça-feira, 26 de março de 2013

Nelson e o véu de tragédias


E com as luzes finalmente apagadas, abriu-se a cortina do teatro no centro de Campo Grande. Escuro tocado por velas artificiais no palco. E uma marcha fúnebre, muito alta, ensurdecedora. Meu coração bateu muito forte nesse instante. A cada batida da marcha dos mortos, era aqui dentro do peito. Fiquei arrepiada, amedrontada e maravilhada, tudo ao mesmo tempo.

 "Vamos assistir de pertinho", eu pedi, logo de início. Sentamos na segunda fileira, tão perto que eu podia me sentir dentro do palco. Nelson me esperava, em cinco contos "rodrigueanos" de "A vida como ela é" encenados pela peça "As Noivas de Nelson", da Cia. Paulista de Teatro.

Abre aspas: o primeiro livro que eu li de Nelson Rodrigues foi "Vestido de Noiva". E aquilo me cativou, pra sempre. Aquele olhar de dramaturgo, jornalista. Irônico, pueril, e ao mesmo tempo pra constranger, incomodar. Eu sempre fui muito fã das obras dele, desse jornalista que viveu na tragédia e tirou dela suas histórias. Na semana que antecedeu a peça, eu escrevi sobre ela, entrevistando a atriz Anamaria Assis e a produtora Katia Manfredi. E já percebi que aquilo me fisgava, porque as fotos eram impressionantes. Na matéria, que eu escrevi me deleitando, feliz da vida, falei de Nelson, de noivas, de obras como "Anjo Negro" e "Album de Família". E lembrei do próprio A vida como ela é, que eu reli pouco antes de ir pra Bonito, ano passado, à trabalho. Fecha aspas.

A genialidade de "As Noivas de Nelson" está também no formato escolhido, que não é uma adaptação e sim uma encenação. Os atores reverenciam o texto o tempo todo, e extraem dele sua intensidade. Simplesmente são os protagonistas, os narradores, os personagens secundários. Em cada conto (“Excesso de Trabalho”, “O Delicado”, “O Sacrilégio”, “O Pastelzinho” e “Feia Demais”), vemos tanto do hoje e do ontem. E os atores que estão ali representando, são fortes, destemidos e intensos, tal qual suas personas.

No primeiro instante em que o primeiro ator surgiu no palco, o rosto cadavérico de cada um, as noivas de vestidos amarelados pelo tempo e o algodão no nariz dos personagens, já antecipam essa tragédia que é tão Nelson. Tão cotidiana, tão cômica ao mesmo tempo. Nelson Rodrigues acostumou-se a narrar essa vida exemplar diante dos olhos de uma sociedade que é despedaçada dentro de quatro paredes. Ele narrou a hipocrisia daqueles tempos (que ainda se parecem com o hoje), e na peça, é ela que parece fazer exaltar a morte.

Entre um conto e outro, ouvimos a voz do escritor. Entre frases desconexas e a voz rouca de Nelson, a ação acontece. E são gritos, choro, murmúrios, sentenças. Entre véus amarelados do tempo, e flores secas em buquês, a gente vê tanto do que também somos: despedaçados e trágicos em nosso perfeitos retratos distorcidos. 


domingo, 3 de março de 2013

Março desaba

Primeiro fim de semana do mês, logo esse mês. Março, o mês em que eu completo 24 anos. Nem cheguei nos 25 e já sofro por antecipação. Mas março cai do céu junto com a chuva, e nos lava todos os dias, então até agora eu tenho esquecido disso. Ou melhor, evitado lembrar. 

Domingo, 16h. Nós (fotógrafo e eu) estávamos na Orla Morena, entrevistando e acompanhando o Rolê Fotográfico, um grupo de fotografia independente aqui de CG. Acompanhamos toda a volta dos fotógrafos que registravam detalhes do bairro.

Céu azul e claridade no registro da pauta.

Quando cruzávamos uma rua estreita paralela, a chuva desabou com uma força impressionante. Simples assim. Sem aviso nem prenúncio. Minutos antes, tínhamos visto duas araras vermelhas cruzando o céu claro e muito azul pra irem se aninhar em uma copa de árvore próxima. Um nada de tempo antes, sofríamos com o calor implacável da rua.  Pouquíssimo tempo depois, água, muita água, lavou nossos corpos. 

A volta, tudo alagado.

Cheguei na redação ensopada, com os ossos gelados. O café estava frio, mas eu precisava dele pra escrever o texto. Pobre do fotógrafo, que virou escudo humano pro seu equipamento, e que muito gentilmente guardou meu bloquinho em seu colete. 

Sentei, respirei e ignorei o frio. Sacudi o cabelo úmido e comecei a tentar decifrar meus rabiscos no papel em meio aos pingos de chuva. Devo ter suspirado algumas vezes. 

Março chegou. As chuvas vieram junto, essas chuvas trôpegas mas insistentes, que fazem a cidade se converter em um alagado sem limites. E que vai embora assim mesmo, e o céu abre umas duas horas depois, o calor volta e o asfalto seca. No dia seguinte a gente também não vai prever a chegada dela. Nem no seguinte. Acho que só quando abril chegar.

Março chegou. Sempre que eu lembro do mesmo mês no ano passado, sinto um aperto no peito. Eu tinha tanta certeza sobre tantas coisas. Sobre o que eu era, o que eu queria e onde iria estar. Minhas certezas eram de ferro. E eis me aqui, vivendo outra vida, que em nenhum momento foi planejada por mim. Março me faz olhar pra trás, pra todos os dias 31 que já passei e lembrar com muita clareza desses planos que nunca floresceram. 

Eu sei que não é só culpa minha que tanta coisa esteja diferente. Que muitas coisas estão melhores. Mas as que não estão, as coisas fora do lugar, e que talvez nunca voltarão, perdidas pra sempre... essas coisas, Março não perdoa. 

Traz tudo de volta, junto com a água da chuva. 

Mas mesmo com a toda a dor dessas lembranças, sinto que não é em vão. Mesmo entre tropeços, sinto que esse mês dolorido me faz uma pessoa mais resiliente. E talvez um tantinho mais corajosa do que ontem.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mundo machista, apenas pare

Depois de dois episódios envolvendo reportagens machistas, da imprensa local aqui de Campo Grande, que tiveram comentários de mulheres e homens apoiando o senso comum que atrapalha a vida de todo mundo, e que critica a postura de quem defende a liberdade da mulher, eu fiquei me questionando: será que é tão difícil assim entender o que é feminismo?

Primeiro deixe-me explicar. O primeiro episódio era sobre um jornal daqui que sempre fez reportagens muito boas. Mas aí escorregou em uma matéria que falava sobre uma greve de policiais, colocando uma foto de uma policial bonita (tirada sem ela olhar) com uma legenda que reiterava isso, fugindo do assunto completamente. "Agente penitenciária chama a atenção pela beleza em movimento grevista". Quer dizer, qual era o contexto daquilo?

Eu e mais um monte de gente tentamos explicar que a moça não era objeto decorativo. Que ser feia ou ser bonita sendo policial, quem-se-importa? o corpo é dela, a beleza/feiúra é dela! E recebemos argumentos como: "Ela é linda! Se falassem que era feia iam chiar... E por favor, respeitem o olhar fotográfico! Essa patrulha "politicamente correta" está cada dia mais insuportável!!!" e "Nunca foi ofensivo para uma mulher ser bonita, e ser bonita não tira a inteligência e o profissionalismo de ninguém. Quem cogitou essa ideia, esse sim, me desculpe, mas está sendo machista e preconceituoso"

O segundo episódio foi o seguinte: outro jornal online publicou uma manchete dizendo "Com tanto gay na cidade, o que sobrou para as mulheres em Campo Grande?". Aí, já viu. Segue a pérola:

"Na mesa do bar, as três amigas solteiras só comprovam o que as mulheres há tempos vêm reclamando. Hoje em dia há tanto gay em Campo Grande que falta opção hetero para a mulherada. Antigamente, a reclamação era contra os cafajestes, que não queriam um relacionamento sério. Agora, o alvo é a turma gay. “Há anos tem muito gay na balada e, levando em conta que há mais mulher do que homem na cidade, claro que dificulta mais ainda a paquera e arrumar namorado”, comenta Viviane, de 29 anos."

Quando eu li essa reportagem (e não vou nem entrar no mérito da pauta em si), pensei: comentários machistas chovendo em 3, 2, 1. E não deu outra. Foi de "Em Campo Grande falta é mulher séria", pra "mulher em CG tá solteira porque que homem rico com carrão". Sério, nesse nível. 

A polêmica rendeu muito nas redes sociais, então a reportagem estragou a situação mais ainda publicando outra matéria: "Mulher campo-grandense é difícil de conquistar, respondem os homens". Outro 'primor' de comentário na matéria: "Para chamar a atenção dos homens, ele dá a dica “machista”. “Mulher tem que ser comportada. Tem que ter atitude diferente da que vemos na noite. Meninas bêbadas e rebolando até o chão”.

Não, você não leu errado. MULHER TEM QUE SER COMPORTADA. MULHER NÃO PODE SAIR A NOITE. NÃO PODE BEBER NEM REBOLAR. 

Eu sei lá de onde vem essa cartilha. Não, na verdade eu sei. Vem da mesma do estupro, do controle, do estado que manda nos nossos corpos. Corpo de mulher é terra de todo mundo, menos dela mesma. E o pior, o mais triste, o mais deprimente, é que isso não é falado nem visto. Ninguém é preso por ser misógino. Feministas são pintadas como loucas extravagantes que querem roubar o lugar dos homens. Não é nada disso, nada disso mesmo. 

Me senti cansada, exausta, usada. Como jornalista e como mulher. E o que mais doeu, além de tudo, foi a mulherada concordando com os comentários acima, muitas vezes defendendo todos eles com afinco.

Respirei fundo, e escrevi o que o nervosismo me permitiu na hora. Eis o que publiquei no Facebook depois disso:

"Cansei gente, de ver tanta publicação machista. Não é só o jornal não, é geral, e inclusive, muitas mulheres julgando as outras sem dó, porque se vestem de um jeito x ou fazem determinada coisa. Mulher é sempre pária, sempre "mal comida", "interesseira". 

Acham normal que a mulher não tenha autonomia de ficar com quem quiser, fazer o que quiser e ainda acham legal a mulher ser punida por causa disso. Cansei, cansei de mulher postando comentário machista e achando que o feminismo não te engloba, mas eis uma notícia, você é mulher! feminismo é a defesa do SEU gênero e existe pra defender o SEU corpo da tutela de outros! e pra garantir os SEUS direitos! 

Se você acha legal e concorda quando um homem diz que "faltam mulheres sérias", e que "mulher não pode beber nem ir pra balada pra se dar ao respeito", só te digo uma coisa: você pode achar que não, mas um dia o machismo vai te atingir. Porque toda mulher passa por ele, seja de forma velada, seja de forma direta. E um dia você vai entender e apoiar o feminismo, se tiver alguma sorte".

Então elas vieram. E alguma coisa, sabe, acendeu de volta. 

Da Sybylla:
"Mulher dizendo que odeia o feminismo cospe no prato que foi responsável por ela poder estudar, trabalhar, se divorciar, ter ou não filhos se quiser, votar, ser ou não dona de casa, casar ou não... Cansa demais mesmo ter que ficar explicando, explicando e explicando cada vez que surgem essas merdinhas de comentários. Pior quando ainda soltam aquela "não sou machista, mas..." Aí estragou foi tudo. 
Não se preocupe, linda, sua indignação é nossa também".

Da Daniela:
"Conversa longa...eu acho que é ignorância, de ignorar, de se deixar levar, sem observar o que realmente acontece a sua volta, não perceber nas entre linhas, e olha que na maioria das vezes tá escancarado o machismo e deixam passar batido!"

Da Suzana:
"Mulher machista dá nojo e me envergonha. mas, além disso, fico indignada com gente que se diz "esclarecida e mente aberta", mas no fundo conserva um machismo velado, que, vez por outra, vem à tona, a exemplo de homens (e mesmo mulheres) que "dizem" defender a igualdade de gênero (e não me atenho aqui às suas especificidades inatas), mas são os primeiros a julgar uma mulher solteira se ela for livre o suficiente pra ficar com quem e com quantos ela bem entender. pior que o machismo declarado é o machismo velado!!!! e tô cansada de ver esse tipo de postura de conhecidos e ex-namorados metidos a descolados. só acredito que nem tudo está perdido porque felizmente tenho amigos sensatos e inteligentes, que tem discernimento quanto a isso".

Obrigada, meninas, e também meninos (que curtiram e compartilharam o post). Ainda dá vontade de continuar, e é tudo por saber que vocês também acreditam. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ch-ch-ch-changes

Na ponta dos meus dedos e no meu cérebro, essa massa cinzenta que nos separa de todas as feras mas nos faz um pouco piores, estão os elementos do meu ganha pão. A minha razão de existir, de me alegrar e ainda conseguir sorrir depois de tudo. O escrever. 

Há algum tempo, eu, apaixonada e intensa, havia murchado. As situações do cotidiano do trabalho vinham me deixando chateada e desanimada. A demanda existe pra ser cumprida, mas eu não me sentia mais motivada. Alguma coisa havia secado, ali dentro de mim, como um riacho que seca no verão. Ele há de se encher novamente, mas é preciso esperar as chuvas e as monções, e todas as mudanças do vento. E eu impaciente, sem querer esperar o ânimo voltar, sem saber muito bem como retomar o gosto pelas pequenas batalhas do meu emprego, do meu ofício. 

A gente doa oito horas por dia do nosso tempo pra algum projeto, mas acaba entregando muito mais que isso. E percebi que se não fosse mais sorrindo, não adiantava. Que não ia mais vingar, e os resultados iam ser apenas meio resultados, e a insatisfação seria uma constante. Eu não podia me dar ao luxo de ter mais isso, ainda, meio torto na minha vida. A banda que não vinga, os relacionamentos amorosos que não fluem, a falta de vontade pra sair na balada, o desânimo pra lavar o carro, tudo isso pode continuar meio capenga, porque nada é sério e é tudo facilmente resolvível. Mas o trabalho, o ganhar o pão, a confiança em mim mesma e a empolgação das pequenas vitórias, ah, isso não poderia, de jeito nenhum. 



Me encontrei ansiosa sobre a decisão de deixar meu emprego de dois anos, e em silêncio. Não confiei meus sentimentos de verdade pra ninguém, e isso foi um mau hábito que desenvolvi desde que... sei lá desde quando. Acho que desde que me vi realmente sozinha. Não avisei ninguém, de início, sobre essa vontade de mudar. Mas as pessoas que me cercavam já haviam notado. Então quando parecia mais palpável, anunciei a minha dúvida. Mudar não é fácil e eu estava morrendo de medo. Medo de dar errado, de não me adaptar. Medo pelos feriados que eu não teria mais, dos domingos trabalhando, do salário que é o mesmo. 

Ansiedade me carcomendo por dentro, até o momento em que eu resolvi dizer que ia mudar. Anunciei em voz alta, na claridade. Mudei, mudei de emprego. 

Agora sou repórter de jornal impresso diário.

Eu nunca havia estado em jornal impresso. Todos os dias levo solavancos, como em tudo na vida, mas a experiência na agência me deu um escudo muito forte. Todos os dias me sinto mais recompensada pelas minhas escolhas. É lindo estar do outro lado da moeda. Saudades de todos do outro trabalho, das experiências múltiplas. A certeza de que outras virão. 

Guardei esse post com carinho durante dias antes de vir aqui e falar. É um novo momento, e amanhece de novo. Ali fora, e aqui, na minha vida.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As vítimas atacam de volta

Essa semana conheci um tumblr que me fez sentir calafrios. Porque o conteúdo dele é simples, mas ao mesmo tempo visceral. É o "Project Unbrekable", de uma fotógrafa americana, que registra vítimas de violência e abuso sexual ao redor do país, segurando placas contendo frases e quotes de seus estupradores e agressores. Porque fazer isso? Bom, são muitas razões: romper o silêncio que permeia a vida das pessoas que já foram abusadas, romper com preconceitos, chocar e tirar os leitores do lugar comum, e mais um milhão de razões. Abuso é um trauma pra vida toda, e o próprio projeto mostra que muitos abusos são realizados por pessoas próximas da gente. 


Para mim, são as vítimas se posicionando, mostrando o rosto e dizendo "Toma sociedade. Chega de silêncio". Algumas frases são muito tristes e chocantes, como a "The nurses who did my rape kit told me there was “more than enough evidence that I had been raped” yet the police who took on my case didn’t believe me. / I am a survivor NOT a victim" (tradução livre: "A enfermeira que me socorreu no estupro me disse que havia "mais de uma evidência que eu havia sido estuprada" ainda sim o policial que pegou meu caso não acreditou em mim. / Eu sou uma sobrevivente e NÃO uma vítima"). 

E as que descrevem as frases ditas pelos agressores, são ainda piores, porque denotam não só a crueldade e a banalidade do ato, mas também o machismo e a misoginia (quando da violência em mulheres) de cada violência, e a perversão por trás de conceitos sociais como a submissão da mulher. Porque por trás do "você tem o dever de satisfazer seu marido/namorado", existe um ódio profundo contra o ser feminino. A gente só que acha que é normal, mas não é. 


Quantas vezes, no nosso cotidiano, a vida é justa? E quantas vezes uma vítima de abuso consegue, de fato, lutar contra o seu agressor? quantas escapam e quantas se vigam, lutam de volta? Acho que nenhuma. Ou pouquíssimas. 

Eu sou contra violência. Mas sou um ser humano, dotado de características e defeitos. E eu gostaria de ver as vítimas lutando. Os sobreviventes lutando. Meio super-herói, meio enredo de filme. É por isso que eu gostei tanto do Project Unbreakable. A gente não pode fazer como Lisbeth Salander, amarrar nosso estuprador no chão e dar a ele o que ele merece, certo? mas a gente pode não ficar calada. Pode lutar contra misoginia, ensinar nossa família e nossos irmãos e irmãs que a vítima NUNCA é culpada. Que não importa a roupa que ela estava usando, nem se ela bebeu demais, porque beber e se vestir de um jeito x não é crime, mas estuprar é. Que não é direito passar a mão nas meninas na fila da balada. Que um marido não tem direito de violentar a esposa, que não é porque ela é casada com o abusador que aquilo não é violência. 

A gente pode trabalhar pra que mais leis como a Maria da Penha existam, pode ensinar nossos homens desde pequenos que a mulher não é propriedade de ninguém, que não existe crime mais hediondo que estupro. E eu, como jornalista, como imprensa, posso trabalhar para divulgar tudo isso. É minha obrigação cidadã, profissional. Meu compromisso como jornalista, defender e divulgar as mazelas daqueles que não tem voz. Porque a gente sabe o quanto a imprensa pode ser misógina e preconceituosa. E eu como parte dela, vou lutar contra isso. 

Ainda nesse clima, fiquei vidrada num clipe do Skrillex onde uma garotinha atrai um homem que visivelmente irá abusar dela até um porão, e usa seus "poderes" nele. Nem sou muito fã de dubstep, mas gostei da música. Também enxerguei referências muito minhas no enredo do clipe. Violência não é a resposta, mas que eu queria dar esses poderes à todas as vítimas do mundo, ah, isso eu queria. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Business trip to Bonito

Media Desk <3
Título em inglês nesse post só porque aqui tudo é bilingue, tá? haha. Mas é sério, as placas da cidade em que me encontro agora são todas em inglês e português. Explico:

Pra quem não sabe, Bonito é a maior cidade turística de Mato Grosso do Sul. Em função de suas muitas atrações naturais como cavernas, grutas, rios e balneários, a cidade basicamente vive disso. As ruas principais, centrais, são repletas de lojas de artesanato, locais que oferecem de tudo ao turista e restaurante que servem basicamente peixe e carnes exóticas (jacaré, por exemplo). 

Cheguei aqui na terça-feira, para trabalhar na assessoria de imprensa do XVII Congresso Nacional de Águas Subterrâneas (CABAS). Viemos de carro, eu e Renato, o que é muito bacana pela possibilidade de dar um rolê pela cidade, que eu conhecia pouco. Em função do trabalho, a gente não conseguiu fazer nenhum passeio mais elaborado como a Gruta do Lago Azul ou flutuação na Barra do Sucuri, mas conseguimos ir em alguns lugares bacanas. Deixo aqui a dica pra quem quiser se aventurar. 

A minha única ressalva é que Bonito não é nada barata. Tudo tem um custo grande, ainda mais em alta temporada, você paga a mais ou a menos, mas sempre, é alto. Por isso, o melhor é ir passear quando sobrar uma graninha. Eu mesma tô saindo sem um suvenir sequer, tamanha a pobreza em que me encontro (exceto uma garrafa de taboa pro meu amg @ThiagoMacarini).

1. Pra beber:
Vá, indubitavelmente, ao bar da Taboa, localizado na avenida principal da cidade. O bar é todo decorado com a assinatura dos milhares de turistas que por ali passaram. A gente bebeu uma vez de tarde e outra fez um happy hour com amigos jornalistas de passagem. Na ocasião, tinha música ao vivo rolando, e galera embarcando na bebida que nomeia o bar: a taboa é uma cachaça doce com especiarias, fabricada aqui mesmo em Bonito. 

Euzinha e o cardápio.

2. Pra comer:
Acabamos de voltar do restaurante Casa do João. Que lugar lindo! fiquei muito chateada por estar sem minha câmera fotográfica (ficou sem bateria no hotel). O restaurante tem cara de fazenda antiga, e atrás do espaço de jantar, funciona uma loja com muitos artigos interessantes, móveis de madeira bruta, artesanato local, até roupas e produtos de beleza. Tudo com um ar super vintage e antigo. O carro-chefe do restaurante é a traíra assada, um peixe muuuito gostoso, mas como a gente estava meio enjoado de peixe (que é a especialidade de quase todos os restaurantes da cidade), pedimos filé ao creme de gorgonzola com batatas douradas e eu sai rolaaando de tanto comer. Muito bom. 

Dsclp pela foto made in google! eu tonta tava sem máquina :(

3. Pra relaxar:
O Balneário Municipal de Bonito é muito bacana. Funciona assim: você paga R$ 15 pra ir até o rio, com toda a estrutura possível  Tudo muito limpo e bem cuidado. O rio tem uma base de pedra, você pode sentar e ficar ali na água, enquanto piraputangas te cercam! sim, os peixes (enormes) são tranquilões, e ficam no meio das pessoas. Cardumes e mais cardumes ao seu redor. Eles disponibilizam ração pra você alimentar a galera (peixes, não turistas, pfvr). É muito legal. Dá pra mergulhar também, entre os peixes. 

Eu fantasma no meio dos peixes.

Dica extra: O Congresso instalou a gente num hotel muito maneiro, o Pira Miúna. Sério, meio temático, a cara desse estilão de Bonito. Tem uma piscina muito legal, café da manhã impecável. Muito confortável e bacana, e perto de tudo na cidade. 

Fiquei no andar de cima, com vista pra essa piscina e esses telhados sustentáveis.

Espero que gostem! eu vou agora voltar lá pra capital, querendo mesmo é voltar pra conhecer as outras tantas coisas. 


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vivendo e aprendendo (no death metal)


O que eu aprendi no último sábado, quando cobri o show do Krisiun (RS) e de outras bandas de metal, em um bar de Campo Grande:

- Cuidado com seu equipamento de fotografia quando resolver se aproximar pra registrar os headbangers enlouquecidos. 
- O som é animal e você terá vontade de bater cabeça, então carregue o essencial.
- Fique amiga do técnico de som pra ele te deixar subir no palco e tirar fotos próximas. 
- Ingerir álcool deixa tudo mais divertido. 
- Seus amigos estarão lá, mesmo que jurem que não vão. 

E como diria o vocalista do Krisiun no ápice do show: "Metal doa a quem doer PORRA". Ou seja, foi lindo. Aguardem que vai sair no Rock do Mato. :)



sábado, 7 de julho de 2012

Se eles não aprendem, a gente ensina


Ano passado eu estava completamente submersa no case de um grande evento de arquitetura e design, então não participei da assessoria de imprensa de um festival de cinema voltado para o público LGBT, que se tornou cliente da agência e retornou esse ano, mas agora sou uma das assessoras, e confesso que esse trabalho tá me dando um orgulho enorme.

Renato apresenta e eu fico ali de assistente de palco. (Foto: Alline Romero) 

Se na faculdade a gente aprende que é preciso ser isento, imparcial, a vida mostra que isso é história pra boi dormir. Os discursos são muitos, e o que mais se vê é galera apontar o dedo na sua cara quando se defende que a gente é, antes de jornalista, humano, cheio de medos, preconceitos, traumas. E que não existe isenção, é impossível. Imparcialidade é ficar quieto. Não existem veículos imparciais, ainda mais em função do dinheiro que move a indústria da informação.

O problema da defesa dos direitos de gays, lésbicas, travestis, de negros, de índios, de mulheres e todas as minorias (e elas são muitas), é a gente confundir, no jornalismo, liberdade de expressão com escrotisse generalizada, geralmente respaldada por religiões em geral e bancadas evangélicas. Isso sim, na verdade, é o problema.

Cris Stéffany, presidente da Associação dos Travestis e Transexuais.
Foto: Alline Romero. 
Eu me sinto orgulhosa da agência onde trabalho, porque quando aceitamos ser a assessoria de imprensa do evento em 2012, propusemos ao cliente que se fizesse um workshop para jornalistas, principalmente sobre nomeclaturas. É 'a' ou 'o' travesti? e todas as gírias oriundas das ruas, onde essas pessoas estão marginalizadas? Quase ninguém sabe que existe um manual de redação LGBT (Clique aqui e veja em PDF). E que não existem veículos de mídia (revistas, sites) voltados para a mulher gay, independente de estereótipos e padrões. Misoginia? dentro de um universo de minorias? sim, isso existe. Talvez muito menos velada do que é no mundo heterossexual de revistas que só sabem estampar "1001 jeitos de agradar seu marido".

O workshop foi muito corretamente batizado de "Abordagem na imprensa gay: desafios e oportunidades", porque reflete o que queríamos passar: jornalistas, aprendam! O desafio existe, então que a gente busque atingir esse público, da forma certa, da forma respeitosa, da forma não imparcial, mas sim inteligente. E porque não movimentar essa indústria, oportunizar mídia, democratizar, abordar? E sem preconceito, isso é o básico.

Público lotou duas salas de cinema na estréia do filme francês 'Tomboy'. 

Ser jornalista hoje em dia é burlar a extrema deturpação da notícia. Por exemplo, não é proibido fazer uma matéria entrevistando um heterossexual qualquer que afirma que é liberal, afinal, adora os gays, o moço que corta o cabelo dele é viado! ele é muito liberal, mas ele não quer ter um filho gay, imagina, seu filho gay, e inclusive, é grande apoiador de decreto legislativo 234/11, que obriga o conselho de psicologia a permitir que profissionais tratem a homossexualidade como doença e forneça a "cura". Não, não é proibido. Ninguém vive de mordaça. Mas é uma deturpação sem precedentes da realidade utópica, a ideal, o mundo que a gente tenta criar, ou pelo menos eu tento, que é desconstrução desses medos, estigmas, enraizados há milênios na nossa concepção social e de vida em comunidade.

Já vi notícias que falavam que alguns heterossexuais afirmavam sentir a tal 'heterofobia'. Também já vi brancos reclamando das cotas para negros em faculdade, já vi pessoas sem nenhuma deficiência física reclamando de ter que ceder sua vaga para um deficiente. E o pior, as matérias tinham como tendência levantar essas 'bandeiras'. Vem cá, amigo(a) jornalista: pense um pouco. Pense nas minorias. Se você é hetero, pense como é bom poder beijar sua namorada ou seu namorado em público, andar de mãos dadas, sem ser linchado ou no mínimo receber olhares hostis. Sem ser representado na novela como um ser caricato e completamente fora da realidade, e tantos outros absurdos, ser chamado pejorativamente de todos os nomes possíveis numa voz uníssona de ódio. E então a gente evita reportagens revoltantes, e assim, eventualmente, todos aprenderão. A gente, os disseminadores da notícia. Eles, a sociedade. Todo mundo.

*** O Festival Mix Brasil de Cinema continua rolando, aqui, em Campo Grande.  
Hoje estarei lá, firme e forte na assessoria de imprensa. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Pedaços #2: Dos medos e delírios, ao sr. Hunter S. Thompson

Eu admito que fugi de você, Hunter. Por tempo demais.

Me perdoa, mas é que eu fiquei com muito medo de desejar tão ardentemente viver o jornalismo da forma que você viveu, a ponto de ver minha vida ser completamente frustrada com a impossibilidade de assim simplesmente ser, porque as contas se acumulam, a velocidade do online desencadeia o caos da preguiça e da falta de confiança, de cuidado e de proximidade. É tudo tão envolto numa grossa camada de descrença que não se fazem mais reportagens diferentes, e a distância toma conta do jornalista. Ele é automático, já faz tempo. É assim que a gente sobrevive hoje. Eu queria muito viver só de escrever, e ficar um ano entre uma horda de motoqueiros lendários, como você fez em 'Hells Angels'. Ou queria sair por aí numa trip completamente insana da qual eu me lembraria por ilustrações do Steadman, como em 'Medo e Delírio em Las Vegas'.

Logo eu que sou só uma garota aleatória, de 23 anos, formada há pouco na escola e não na rua. Enquanto eu engatinhava, há décadas você havia estado entre os estandartes alados da avalanche de motos brilhantes.

E devo dizer, que concluindo a leitura desse quase estudo antropológico sobre motoqueiros foras da lei em 1960, que me senti nostálgica. Não pela obra em si, mas porque você estava nela. Você explicou várias vezes que depois de um tempo, 'não sabia se era você que pesquisava sobre eles, ou se estava sendo por eles lentamente absorvido'. E não existia medo de contar seus próprios delírios no enredo, e, em momento nenhum, deixou de ser uma reportagem. Você saía do estado de imparcialidade amarelada e quebradiça, e nos trazia uma nova visão de mundo. A humana. A que erra e sangra. Que treme, e principalmente, participa.

Obrigado, sr. Thompson. Pelos medos, pelos delírios, pela carona na garupa da moto de um hell angel, pela grande caçada aos tubarões, pelas viagens de LSD, pelas noites em claro. Obrigado por me fazer querer dar uma volta no lado selvagem, por ter criado o gonzo e o gozo nas letras.

E principalmente: obrigado por romper todas as barreiras.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Fuligem

Campo Grande, 03 de maio de 2012. 19h47. 
Fumando um cigarro enquanto caminho, em direção ao Centro Cultural José Octávio Guizzo, onde no teatro Aracy Balabanian iria começar a pauta de assessoria.

Encontro toda a equipe do meu antigo estágio, da Assecom do Ministério Público Estadual. Avisto meu ex-chefe, um dos jornalistas da "velha escola" com quem mais tenho orgulho de ter trabalhado.

"Jorge!" - emoçãozinha de reencontrar. Vejo mais pessoas conhecidas do mesmo lugar: o cameraman e radialista da equipe; a publicitária que me ensinou a diagramar meu livro reportagem de conclusão de curso pra que eu não precisasse pagar, e ainda aprendesse; a moça do café, que ria da minha cara enquanto eu tomava generosas xícaras de café durante o dia. Pessoas que de um jeito ou de outro foram importantíssimas pra minha formação profissional. Jorge acende um cigarro e me acompanha, e a gente troca impressões sobre o MP, a agência em que eu trabalho, e sobre o curta-metragem que ele e Márcio, o cameraman, estavam exibindo ali, naquela noite.

Nostalgia me toma por completo.


..

Campo Grande, 27 de maio de 2009. 14h37. 
Nós vamos até a pauta com a van que leva processos e outros documentos pro fórum central da cidade. Eu e Higor, o primeiro cameraman. Levo meu bloquinho do Intercom, e máquina fotográfica. Graças ao jornalista preguiçoso que costuma me passar as pautas quando Jorge não tá, é a estagiária que vai. Me sinto meio "vendida", porque ele não se deu ao trabalho de me explicar direito do que se trata. Já notei que não sou a estagiária favorita, ele gosta mais da menina crente do período da manhã. Pudera, me perguntaram minha religião e eu disse que sou ateia. Irônico, no mínimo, religião fazer diferença em um órgão de justiça pública.

Longe pra caramba. A gente passou pela AV. Tamandaré. Ar condicionado na van salva, totalmente. Higor tá me falando do seu novo projeto de banda. Recentemente, ele fez uma gravação com algumas bandas pra um programa universitário. Minutos se arrastam.

Chegamos. Terreno enorme, um depósito com cara de abandono. Portões carcomidos de ferrugem. Começo os cliques. Carros do Gaeco, do Ministério do Trabalho, do Ministério Público e da Polícia Ambiental. Fardas, crachás, ternos. Eles entram com os carros sem muita cerimônia.

Lá dentro, pilhas e pilhas de carvão, madeira, embalagens. Sujeira, muito sujeira. Clico a esteira de embalagem, um policial ambiental mexe com as mãos no carvão, separando algumas peças, e mostra ao parceiro: "tá vendo? eucalipto. Esse outro aqui, parece ipê. Tudo ilegal". Outro policial conversa com algumas pessoas que estavam ali.


Caminho receosa pelo cenário, cuidando para não tropeçar no cascalho, ao mesmo tempo que tento não perder nada. Observo as pilhas de carvão, o maquinário, os policiais. Então em um canto um pouco mais afastado, um promotor de justiça conversa com três pessoas sentadas sobre pilhas de carvão.

"- Tá tudo bem, vocês podem me contar. Como é o trabalho aqui?".

Olho para os três homens. Um deles parece ter mais de 50 anos, enquanto outro, bem menos de 18. O terceiro, calculo que tenha em torno de 30 anos. O mais novo é perguntado sobre sua idade, e afirma ter recém-completo 19 anos. Olho para suas mãos, enegrecidas de sujeira, e elas estão feridas. Ele tem um pano sujo enrolado na palma, e torce os punhos no colo, nervoso. Os outros estão com o mesmo rosto triste, expressão de abandono. Um descalço, os outros com chinelo solto no pé e tênis preto. Eles não conseguem esconder um leve desespero, mas contam calmamente o que acontece ali.

Tiro fotos sem focar nos seus rostos cheios de fuligem e abandono, preservando o anonimato deles. Sem nem sequer configurar a máquina, o tom cinzento da situação transparece nas imagens, quando paro pra conferir. Ouço trechos da conversa enquanto uma breve confusão de instala um pouco mais longe. Os homens estão contando que são obrigados a trabalhar sem muito descanso, e grande parte do salário é usado na compra de produtos da venda do dono da embaladora.


Um deles começa a chorar, e as lágrimas escorrem pelo rosto e abrem caminho na fuligem negra. Não consigo desgrudar meus olhos dele. Como se quebra a dignidade de alguém? eu me pergunto. Sendo humano também. Sendo filho da puta.

O gerente do lugar apareceu, ele que está fazendo a confusão. Policiais estão ameaçando prendê-lo por desacato, se ele não se acalmar. Ministério do Trabalho avisa que ele será notificado, assim como o dono do lugar. "Vocês não podem levar meus funcionários!". Calma, amigo, diz um policial. Manda o gerente sossegar, que eles não são propriedade de ninguém.

Fim da pauta. A gente volta, Higor carregando a pesada filmadora.
E eu carrego a câmera, o bloco de anotações, e um peso assim, doído, ardido, no fundo do estômago.