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domingo, 29 de dezembro de 2013

Um 2013 muito l0k0

"Viver é lidar com as adversidades", disse minha avó, olhando plenamente pra mim. Nós estávamos na piscina da casa da minha madrinha em Maringá (PR), apenas brisando com vista pra um sol se pondo, no dia 26 de dezembro. Assim que sinto esse ano que passou. Pode ir, 2013. Já deu de você. Não te quero mais. 


Essa não é mais uma postagem reflexiva de um ano novo muito l0k0. É um batuque dentro do peito avisando: as adversidades, elas nunca cessam. Viver é isso. Encarar o ~rolê~ é isso. E até quando a gente vai ficar mandando recado e indireta pra si mesmo e o mundo falando "vamos guardar as coisas boas e filtrar as ruins para o ano que vem"? filtrar é o caramba, filho. Porque sem as adversidades, nós não seríamos nada

Eu terminei esse ano com muito mais dúvidas do que comecei e com um aprendizado muito maior também. Em janeiro eu decidi embarcar numa trip louca chamada "virar repórter". Minha rotina mudou e em pouco tempo eu já me sentia 100% adaptada à essa vida de descobrir a cultura nos mais escuros becos de um estado vidrado em sertanejo. Eu apenas quero dar voz aos outros, é minha obrigação. E isso vai continuar em 2014, mesmo quando desanima, mesmo na hora dos jabás, mesmo nos momentos que a fonte não te atende e você não entende nada do que seu editor tá dizendo. Vambora. 


Em março, eu tive um dos momentos de felicidade mais pura que tive em 2013. E é preciso dizer que essa pureza de sentimentos foi rara. Na verdade aquele momento foi o principal. Meu aniversário no show do Queens of the Stone Age, em São Paulo, no Lollapalooza. O sentimento transbordou em mim naquela plateia, e eu era aquela música tocando, eu era "Hangin Tree", "Round the hangin tree / Swaying in the breeze / In the summer sun / As we two are one / Swaying". Eu queria que 2013 tivesse sido um loop daquele instante. 



Em 2013 vários amigos muito queridos mudaram daqui. Outros voltaram. E agora no finzinho do ano eu conheci duas menines que vão ficar no meu coraçãozinho, e uma delas me tatuou. Eu queria, de algum jeito, marcar na pele esse sentimento ansioso que eu guardo e que fica pulsando e explodindo no meu peito o tempo todo. Explode quando tomo decisões sobre a minha vida, explode quando eu me sinto sozinha, quando escrevo. E tive a honra de ser tatuada por uma delas, que traduziu esse sentimento com sua mão leve e seu riso maravilhoso enquanto marcava a frase escolhida, do Lou Reed, pra que eu nunca esquecesse do que é necessário: dê uma volta no lado selvagem da vida. Coloque mais pimenta. Mais riso, mais choro, mais tudo. 


Só tem uma coisinha que me deixou triste no final do semestre: a escrita que eu deixei de lado. Deixei o blog de lado por motivos de tempo, de correria, de exaustão. Mas em contrapartida colaborei com as meninas no Universo Desconstruído, que eu sinto orgulho de ter participado. E espero colaborar de novo em 2014. Então, pro ano que vem, não quero nada além, nenhuma frase feita. Só quero ter forças pra escrever mais e melhor. Mais visceralidade, mais verdade, sempre sangrando e nunca, nunca me conformando com as letras que vejo superficialmente. Vou sangrar muito e quero tudo isso por escrito. "Take a walk on the wild side"

domingo, 13 de outubro de 2013

Quanto vale

Na quinta-feira, eu entrei pela porta do jornal às 8 horas da manhã. Sai de lá às 20 horas. Escrevi durante 12 horas sem parar. Minto, parei, almocei (não me lembro o que exatamente), escovei os dentes, peguei mais um café e voltei pro computador. 

Escrevi tudo que consegui, usei as palavras que pude, me exauri pensando em novos leads e novos ganchos (lead é o primeiro parágrafo de toda matéria e gancho é o 'foco' daquela reportagem). Cheguei no final do expediente com as costas curvadas sobre o computador. Ao meu lado, copos e copos sujos de café. Ar de absoluta exaustão. Tudo isso em função da seguinte questão: esse sacrifício todo, a ponto de eu chegar em casa explodindo de dor de cabeça e fadiga, é o clássico chamado de "pescoção": quando o repórter adianta matérias e matérias pra poder folgar. No meu caso, pra poder folgar sexta e domingo. 

Quanto vale meu trabalho?

Esses dias olhando o facebook em uma comunidade de jornalistas aqui do MS, me deparei com uma oferta de emprego/vaga, feita por um conhecido jornalista. E essa comunidade é povoada de jornalistas que, bem ou mal, se conhecem fora da rede. 


Se você ler bem certinho o que a pessoa oferece em troca e o que ela exige, olha, é de chorar. A empresa exige nada menos do que oito tarefas/habilidades/conhecimentos, muitos ali que simplesmente nós não aprendemos em uma universidade de comunicação social, ou seja, são experiências adquiridas no mercado. Pelas exigências, eu assumo que seja uma vaga pra assessoria de comunicação interna. E provavelmente as atribuições crescem muito ao longo do tempo, deve incluir jornais, newsletters internas, e-mail marketing, clipagem de notícias, e é claro, atendimento à imprensa externa se precisar. R$ 1200 por 8 horas inteiras. 

Quanto vale o nosso trabalho?

Quando a pessoa publicou a vaga, alguns colegas e eu comentaram a respeito da discrepância desse valor pago a um jornalista, ainda mais pela questão de que, em tese, nossa carga horária aprovada por lei é de cinco horas. E eu posso apenas falar da minha área em Campo Grande. Não sei, de fato, como estão as coisas fora de CG, mas pelo que tenho visto, as coisas andam bem dificeis pra quem é jornalista. Quem fica, quem sobrevive ao passaralho, acaba sofrendo outro fenômeno, o do ficaralho.

Atualmente, minha rotina de trabalho é a seguinte: eu acordo cedo, vou para o jornal, de lá vou para a agência de assessoria de imprensa onde trabalho como frila. A maioria dos jornalistas que eu conheço tem a mesma rotina: 6 horas em algum lugar, 6 horas em outro. Eu tenho, sim, a opção de ter apenas um emprego. Claro que tenho. Ninguém me obriga a trabalhar dobrado. Mas se eu não fizer isso, minhas contas atrasam. E não são uma ou duas. São todas. Eu vivo com meus pais e economizo o quanto dá, tento ser econômica. Eu sou privilegiada. Sempre imagino alguns pais e mães de família que trabalham comigo e sustentam um ou dois filhos. Eles ganham o mesmo que eu. 

Quanto vale a vida que a gente deixa de viver?

E assim a gente segue, driblando as contas com um milhão de frilas. Perdendo os feriados. Deixando a saúde em pescoções. Perdendo o aniversário da mãe (ou do pai, como foi no meu caso), entre outras tantas coisas. Sim, porque um dia eu trabalhei até mais tarde quando recebi uma ligação de "filha, vamos cortar o bolo do seu pai sem você, você não chega logo" e eu pensei, no alto da minha exaustão: "que bolo?".

Quanto vale a notícia que sai da gente?

Eu sou extremamente apaixonada pelo que eu faço. E é por isso que eu faço, mas a um preço muito alto. Ou muito baixo, se você olhar novamente essa vaga de emprego aí em cima. E não só eu. Todos vocês, jornalistas. Quem ganha mal, quem deixa a família no almoço de domingo pra preparar a edição do outro dia. Quem muda de cidade pra virar repórter e mesmo assim continua amando tudo. Quem abre o jornal e vê aquela reportagem maravilhosa e sente orgulho. Quem sente que, a cada dia trabalhando na área (assessor, repórter, redator, apresentador... todo mundo), fica com a casca um tanto mais grossa. 

Pra ler e pensar: 
Greve dos jornalistas do diário do Pará. 
As 50 melhores e piores profissões em 2013.
O perigo de ser jornalista: violência e abandono
A crise do jornalismo e a crise dos jornalistas

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Minha e nossa Cidadela


Há três meses atrás eu não fazia a menor ideia do quanto a gente pode fazer um pouquinho mais pelo que acreditamos. Foi quando a Sybylla e a Aline Valek me convidaram para um projeto um tanto inusitado: escrever Ficção Científica Feminista

Mas ein? 

Não tenho nem como explicar isso melhor que a Sybylla, vejam aqui

O caso é que unimos forças, dez autores e autoras com um único objetivo: escrever contos onde a mulher fosse destaque. Quem gosta de FC sabe que, muitas vezes no gênero, a gente não passa de objeto decorativo. 

O desafio: criar protagonistas que lutassem contra sexismo, homofobia, racismo, misoginia. E mais, que interagissem de forma justa, igualitária. Que fossem reflexo do que acreditamos na vida real. 

E foi árduo. Eu comecei com uma ideia, mudei tudo, voltei ao início, pedi socorro à Sybylla. No final, meu conto, "Cidadela", fala sobre uma coisa que sempre me incomodou. Além das outras questões que a gente aborda - a falta de tutela da mulher sobre seu corpo, opressão, preconceito - eu quis juntar não uma, mas duas protagonistas. A vida inteira eu tive mulheres que me foram muito importantes, minhas amigas, em quem eu confiava. Então para mim sempre foi estranho me dizerem que amizade entre mulheres não existe. Existe, sim. Chamar a colega de puta, criticar as mulheres por qualquer postura, achar que não se pode confiar em uma mulher - apenas por ela ser mulher - é uma visão impingida pelo machismo. 

Por isso concebi duas personagens centrais.

Irina é a primeira. Ela é uma mulher oprimida por um sistema que domina tudo (sim, meu conto é uma distopia). Ela é violentada de todas as formas possíveis, jogada ao vento, descartável como muitas mulheres são.

Luisa é a segunda. Ela nasceu em berço nobre, mas seu lugar é a rua. É uma guerrilheira capaz de lutar, de ser invisível ou grandiosa quando quer. Elas percebem, durante a narrativa, que a única forma de vencerem é se unirem. E elas fazem isso naturalmente, porque são mulheres. Sem julgamento. Sem desconfiança. E é a união delas que vai mudar tudo.  

Então pra você conhecer esse e mais nove contos (que nossasinhora, me fazem ficar arrepiada até hoje), basta clicar aqui: Universo Desconstruído. Dá pra baixar em diversos formatos, e de graça, apenas com o PagSocial! Ah, e dá pra comprar o livro via Clube dos Autores! não é lindo? aliás, a ilustração também tá de arrepiar. 

Tô realmente muito orgulhosa de ter feito parte disso. Espero que vocês também fiquem. Luisa e Irina agradecem. :)

PS: Algumas meninas feministas no twitter pontuaram que, ao escrever Ficção Científica Nacional e Feminista (tudo em caixa alta, veja bem), a gente "despolitiza" a causa. Não respondi porque não tenho mais twitter. Só queria dizer que ela entendeu tudo errado. A gente quer é começar com a prática, mesmo. Quer mais autores, mais debates, quer desconstruir um universo masculino e fomentar boas discussões. Por isso, para essas pessoas que olham com desdém, leiam a coletânea antes de falar qualquer coisa. Ou esse post da Sybylla.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sorrisos e Sabor

Há quase um mês topei um desafio maluco de ter dois empregos. Ok, eu tinha, porém um deles (a minha colaboração com uma revista) era totalmente em casa, via e-mail. Não havia expediente por lá, e esse frila, onde eu aprendi um montão de coisas (que inclusive me embasaram para escrever cultura hoje), precisei encerrar em maio. 

É estranho como as coisas mudam rápido e o tempo todo. 

Seu Alê (diretor do jornal) faleceu, muita coisa mudou, novas diretrizes, novos tratados. E percebi que eu precisava de mais alguma coisa. Aceitei uma proposta e de repente eu estava saindo de casa às sete da manhã e voltando às oito e meia da noite. Tudo isso em um esquema non-stop

Engulo a comida, engulo o café, dirijo com pressa e tudo isso para fazer meu melhor nos dois empregos. Minha rotina ficou mais pesada do que já era (e já não era muito fácil, quem trabalha em redação de diário sabe) de um jeito exaustivo, porém que vai me permitir coisas ao mesmo tempo materiais e não materiais. 

Esses dias um menino me chamou de maluca por ter decidido fazer isso. "Você consegue escrever fora dos empregos?", ainda não, porque ainda estou me adaptando. Um emprego é como repórter. O outro como assessora de imprensa. Eu estou em dois lados opostos, porém, tento levar tudo de um jeito ético e transparente. 

E tudo isso vai além do 'preciso pagar as conta'. Muito além. 

Aos poucos, depois do turbilhão e de aceitar que, sim, talvez eu seja workaholic, e sim, talvez eu compense mil aspectos frustrantes da minha atual condição em cima do trabalho, estou bem contente, lutando e incansável. E aos poucos retomarei o blog, a fanpage, os contos, os escritos. 

Mas por enquanto não vou falar muito disso, quero falar do Rolê Gourmet. 

Um dia, depois de trabalhar feito uma doida durante seis dias, falei pra alguns amigos: "Venham em casa, vou fazer um risoto". E todos vieram, todo mundo, e eu fiz, e as pessoas comiam e sorriam, e não deu para quem quis, faltou risoto. Sobraram sorrisos e elogios. Fiz questão de registrar tudo e fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem. 

Alguns dias depois fiz uma comida para a minha irmã. E depois para dois amigos muito especiais, e todo mundo se esbalda e sai daqui com um brilho nos olhos que não sei nem explicar. 

Nunca tinha pensado em como a comida podia aproximar as pessoas

Desde então isso é um projeto. Volta e meia vou cozinhar para pessoas queridas. E enquanto eles deixarem minha casa de barriga cheia e sorriso no rosto, eu vou continuar lutando, todos os dias, e sempre com mais força do que antes. 

Bon appetit! :)



terça-feira, 27 de agosto de 2013

São outros discos

Acordo, abro os olhos e penso em falar tudo aquilo que engoli no dia anterior.

Acordo, abro a boca e olho tudo aquilo que eu nunca disse no ano passado. No ano retrasado. E nos últimos dez anos.

Desperto, sinto frio e medo e sei que tudo aquilo ficou guardado e que nunca saiu.

E tudo aquilo fermenta aqui dentro. Porque é assim e eu não sei ser outra.

E eu sinto que o dia, a chance, o instante, se foi. Se foi e eu não vou mais atrás, porque é assim também. Passou, eu deixei passar.

Eu deveria ter mandado aquele e-mail. Eu deveria ter interrompido aquela discussão. Deveria ter levantado a voz e dito: "Não, já basta. Eu não posso mais".

Eu deveria ter jogado a mesa para cima, mesmo sendo grudada ao chão. Deveria ter saído sem dar tchau outras vezes, deveria ter explodido, cobrado, me alterado. Deixado o choro de raiva vir à tona ao invés de socar o volante sozinha.

Deveria não ser controlada. Deveria ter aprendido.

Não deveria ter silenciado, e deixado ir. Deveria ter batido no peito, interpelado e dito: "Não, eu quero saber se eu fiz alguma coisa de errado, eu quero explicações, eu quero alguma resposta".

O momento se foi. Ele passou. Eu deixei ir. Eu deixei levar embora. Eu deixei tirarem de mim. Eu olhei, e olhei, e meus olhos disseram tudo mas na verdade a voz não saiu. Então dá no mesmo, o momento se foi.

E passou, passou. Não voltaria nem se eu quisesse. E se eu quisesse não iria voltar.  É outro momento e são outros discos. E são outras de mim mesma.

Esse instante acena para mim de longe, um navio que partiu, cacos no chão, sem volta, sem retorno. Nem começo. Só foi.

Acordo, abro os olhos. Já é outro dia e outro instante.


domingo, 30 de junho de 2013

Maresia

Em algum ponto dos dois últimos anos, não sei precisar muito bem quando, eu me perdi. Como quando  uma ventania que te carrega pra todos os lados. Essa minha ventania, me fez perder até quando me recordo. Hoje eu sei disso. Sei lá, eu só sei que perdi. Perdi o viço do sorriso e hoje ele é meio irreal. Crio e cultivo uma couraça esfarelenta todos os dias na porrada cotidiana. 

A onda veio, levou quase tudo embora e eu fiquei com a maresia salgada. Fiquei lá na beirada do rio olhando a água turva sem reconhecer nada mais do que um marrom alagado. Sem bossa. Sem novas. 

Não faz sentido. 

Não, a vida não pode ser tão ordinária assim, tão macilenta assim, pensei um belo dia. Faz tempo também e eu mesma não acreditei por muito tempo nas minhas palavras. 

"Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais.
Mais do que eu". 

Coitada da menina que cai no canto de ossanha. Acho que eu cai. Na maresia ela me chamou e eu fui naquela conversa de esquecer a tristeza de um amor, de ir e sofrer e morrer e viver. 

Ficou só a espuma. 

Aqui, aqui e aqui


terça-feira, 11 de junho de 2013

Fragmentos do reportar


Em meio a conflitos indígenas com morte, a força nacional descendo em Sidrolândia (a 64 km de Campo Grande) uns dias atrás e a morte do diretor do jornal onde eu trabalho por um infarto fulminante também uns dias atrás, a cidade anda um caos. A vida anda um caos. Os sentimentos de todo mundo que eu convivo andam um caos. 

"You're such a mess".

Em meio ao caos, um dia desses escrevia sobre uma peça de teatro. Quando dei o "save" final no arquivo, ouço um berro e a seguinte ordem: morreu uma criança atropelada no bairro Aero Rancho. Um ônibus passou por cima dela. Vá lá e cubra isso, ninguém em Cidades pode ir. E eu fui, pálida e temerosa, mas fui. Graças à bondade de uma colega da editoria de Cidades, fui esclarecida de que a criança havia morrido às 12h57. Eram 16h30. Ainda encontrei a poça de sangue e a matéria foi manchete naquele dia. 

Dias depois acordei às 6h30 da manhã de domingo pra ir escrever sobre um projeto social de orquestra sinfônica. 50 alunos de diferentes idades em um bairro abandonado me receberam tocando violino e violão clássico. O texto fluiu tão bem que nem acreditei, às 9h da manhã eu já estava com a capa do caderno toda pronta. 

"Did you see the last news about the U.S.A. Government?", perguntou minha teacher. Ela sempre me pergunta nas aulas sobre journalism, se é legal ser "a journalist"

Em meio aos passaralhos Brasil afora, em meio ao impacto da trágica morte que nos pegou há pouco tempo, em meio às noites mal dormidas. Em meio aos indígenas que usaram um cinegrafista como escudo lá em Sidrolândia, já que a polícia atirou e matou um deles. Em meio a crianças mortas por ônibus em bairros sem sinalização de trânsito. Em meio a verdadeiras odisseias para ajudar estagiário a entregar página, em meio a notícias de que artistas estão sendo negligenciados na cidade em que eu vivo, é legal, sim. 

Tem o projeto social que eu divulguei, porque graças a isso, outro projeto musical me ligou dizendo que viu a matéria e que gostou, e que gostaria muito de uma divulgação. E o próprio projeto que vai poder receber mais incentivo. Tem aquela matéria de comportamento que falou sobre lutar contra preconceito entre as pessoas, aquela peça de teatro maravilhosa que eu pude escrever sobre. Tem aquele dia em que eu entrevistei gente simples com história boa pra contar, que eu ajudei um artista a divulgar sua peça gratuita e que eu nessa pequeneza que sou, me senti orgulhosa e feliz por alguma coisa que havia feito, que havia escrito. De vez em quando a gente precisa reafirmar tudo isso pra si mesmo, pra ser mais resiliente.

Pra não se fragmentar nem se desfazer.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somebody put me together

Assim mesmo, com a voz animada e melodiosa de Mike Patton, com as cores explodindo, peixes voadores, uma mão bizarra com um olho na palma, esse clipe feliz e vibrante. Minha inquietude soa exatamente como essa música, vontade de sair socando paredes vestida de Alex do Laranja Mecânica. 



"Back and forth, I sway with the wind
Resolution slips away again
Right through my fingers, back into my heart
Where it's out of reach and it's in the dark
Sometimes I think I'm blind
Or I may be just paralyzed
Because the plot thickens every day
And the pieces of my puzzle keep crumblin' away
But I know, there's a picture beneath"

De certa forma, eu me arrependo de não ter ido no show do Faith no More em 2011. Eu não havia planejado essa viagem e havia recém terminado, tomei outros rumos naquele fim de semana e viajei pra outro lugar, tentando me consolar acreditando que em breve eles voltam pro Brasil e daí eu vou. Esses planos. Olha, que droga. Talvez eu esteja exatamente paralisada como na música. Porque minha indecisão já me levou embora alguns anos da vida. E nesse momento é como se eu estivesse em uma ponte frágil e quebradiça que não vai dar em lugar nenhum. 

"Indecision clouds my vision
No one listens...
Because I'm somewhere in between
My love and my agony
You see, I'm somewhere in between
My life is falling to pieces
Somebody put me together"

Tem gente que insiste em dizer que eu sou uma típica "ariana", que meu signo no horóscopo dita o meu jeito  e essa minha tendência de começar a surtar toda vez que acho que tem alguma coisa me controlando. Já ouvi isso zilhões de vezes, só que eu não acredito em horóscopo. Toda vez que eu reúno cinco razões pra dar o fora de Campo Grande, os dias vão passando e essas razões vão se quebrando que nem um castelo de cartas. Minha rotina tem sido erguer isso de volta todos os dias, de forma exaustiva, pra que uma hora não caia mais e eu parta. 


Somebody, somebody put me together. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Três filmes sobre: Distopias

Fazia horas que eu não vinha com o #TrêsFilmesSobre, né? culpa da vida de repórter! e de música! e de mãe de gatos. Então vamos lá: três filmes de hoje é sobre distopias

Definição mais que sagaz da Sybylla: "(...) é o contrário de utopia, aquelas sociedades perfeitas e sem desigualdade". Sociedades distópicas são tema, com frequência, de filmes e seriados. Me favorito do gênero é o clássico "1984", de George Orwell, que descreve exatamente como é uma sociedade distópica, que geralmente agrega regimes totalitários, caos e colapso, opressão, desesperança e controle social.  Confesso que, dos tipos de ficção científica, é meu favorito. Os filmes que selecionei tem em comum o fato de se passarem em terras distópicas, apesar de terem histórias centrais diferentes entre si. 

1. Blade Runner (pt. Blade Runner: o caçador de androides)

Com uma fotografia de tirar o fôlego, esse filme de Ridley Scott não apenas possui um elenco estrelado (Harrison Ford, Daryl Hanna e por aí vai), mas também se mantém extremamente ~cool~ nos dias de hoje. Os efeitos especiais parecem ultrapassados mas continuam impressionantes. E a androide Pris de Daryl é um show a parte. Na história, a sociedade cria replicantes para servirem à humanidade, mas em algum momento acontece um motim. Deckard, personagem de Ford, navega entre seu conhecimento sobre a "natureza" dos replicantes, e seu interesse por Rachel, uma androide que ignora sua identidade por uma manobra de seu criador. A dinâmica de Blade Runner é considerada lenta por algumas pessoas, mas eu me sinto presa naquele mundo futurista, ciberpunk e extremamente destruído. 

Porque assistir: Harrison Ford Indiana Jones age da maneira perfeita na pele de Deckard. Caso a história não te atraia, vale a pena assistir pelo visual do filme, que é muito interessante (mistura de futurismo com uma pegada sombria). 



2. The Hunger Games (pt. Jogos Vorazes). 

Pra variar eu comecei com o livro de Susanne Collins, que pegou um monte de adolescentes pelo pé. Achei a história sensacional, mas muito porcamente escrita. Para mim, Susanne teve uma ótima ideia e  escreveu muito mal. Ela peca no desenvolvimento de cenas que poderiam ser muito mais sensacionais do que realmente são nas obras literárias. Por isso, fui assistir o filme só quando chegou no Netflix, tamanho receio de terem zoado a parada já um pouco prejudicada pela falta de traquejo literário da autora. Mas me preocupei em vão: o filme inclusive melhorou algumas das cenas, deu uma forma mais concreta aos personagens da Capital, que é a "máquina" do totalitarismo da história. Em The Hunger Games, existem 12 distritos submissos às vontades da Capital. Para lembrar que rebelião e motim são crimes, todos os anos cada distrito envia dois jovens para uma arena, onde eles deverão lutar entre si até a morte, tudo televisionado. A protagonista é Katniss Everdeen, uma jovem que cuida de sua família desde cedo e que se oferece para morrer na arena no lugar da irmã.

Porque assistir: Nunca entendi a comparação com a franquia Crepúsculo, já que Katniss é uma personagem forte e destemida, uma sobrevivente. Destaque para as cenas com a personagem Rue. A história é sobre opressão, acima de tudo. A atuação de Jennifer Lawrence como Katniss é muito boa. 




3. Children of Men (pt. Filhos da Esperança)

Uma sociedade desfeita: essa é a fórmula principal do filme. Eu assisti há cerca de um ano, e me lembro que fiquei pensativa com ele. O filme também tem atores estrelados. Eu não vou muito com a cara do Clive Owen, acho ele meio ruim, mas com a Julianne Moore você até esquece disso. O diretor Alfonso Cuarón é muito competente e é um daqueles diretores que imprime sua personalidade ao filme e eu adoro isso. Na história, as sociedades entram em colapso porque os seres humanos se tornam estéreis. No meio do caos, um homem deve ajudar um grupo de guerrilheiros a salvar uma mulher grávida, a única no mundo inteiro, para que ela seja a esperança de todo mundo. O filme tá mais pra distopia de uma sociedade em plena crise, onde a máquina de opressão é o caos, do que a figura central de um ditador, por exemplo. 

Porque assistir: A fotografia é muito bonita, cinza e cheia de cenários que impressionam, de zona de guerra a estrada com floresta. A trilha sonora também envolve você, por mais que saiba que em filmes de distopia, sempre alguma coisa dá errado e a luta pela sobrevivência é uma das mais difíceis. 



PS: Eu, psiu. Criei uma fanpage aqui pro blog. Curte aqui! ;)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Registros Oníricos: I. A excursão para Férmion

Hoje tive um sonho, de novo. E decidi que quero catalogá-los, registrá-los e guardá-los em algo mais duradouro que papel. Como um museu de história natural, só que dos meus sonhos, usando a escrita pra isso. Porque é só dessa forma que sei me expressar. 

Por isso inauguro a seção "Registros Oníricos". De vez em quando eu vou escrever aqui um sonho ou outro. Principalmente os bons. Obrigada por serem meus cúmplices nessa jornada deveras estranha, mas de um jeito bom. :)

Lyra. 

I. A excursão para Férmion

                                 “O princípio da exclusão de Pauli diz que uma partícula elementar conhecida como férmion não pode ocupar o mesmo estado quântico simultaneamente. (...) Em linguagem leiga, ele não pode ser positivo e negativo ao mesmo tempo, ou ligado e desligado, ou sim e não. As escolhas, como se percebe, são a base para tudo o que existe”. (Resenha de “Daytripper”, de Gabriel Bá e Fábio Moon, pelo Universo HQ) 

Duas portas se abriram para mim, duas portas enormes e pesadas de vidro denso. E mais um mundo, um universo ímpar de páginas, alcançou meus olhos dormentes. Eram tantos livros naquela loja imensa que até o calço da porta era livro também, milhares, milhões. Aquilo era o que uma livraria deveria ser pra mim. As pequenas livrarias tem seu charme, mas essa, que projeto maravilhoso, pensei com meus botões. Havia uma abóbada de vidro que fazia raios de luz entrarem, como se fosse uma grande estação de trem cheia de livros dentro. O piso era de madeira com carpete vermelho. Não era aqui em Campo Grande, era em algum lugar perdido no mundo perfeito que eu imagino. 

Eu era uma garota de alma nova ao abrir as portas dessa livraria. Usava meu vestido azul marinho com estampa de passarinhos brancos, tênis brancos nos pés e um casaco preto. Minha boca estava pintada de vermelho e o cabelo comprido solto. Me sentia tão menina, tão nova e cheia de expectativa. 
Caminhei decidida corredor afora, encarando as prateleiras com fome de ver mais, de olhar as partículas de cada livro daqueles. Então senti uma presença atrás de mim, e uma mão que acariciou meu braço. Mas não qualquer carícia. 

Sabe quando você está caminhando e esbarra de leve em alguém? Aquele primário momento em que sua pele toca a do desconhecido, e seu corpo se encosta por um centésimo de segundo no do outro, em uma terra nunca habitada. Um arrepio espinha afora. Me virei e vi um rosto muito perto do meu. 

- Me desculpe o esbarrão – ele disse, me olhando. Captei aquele rosto desconhecido, que eu nunca havia visto na realidade concreta. Acho que eu o inventei. – Mas você precisa ir até aquele corredor. 

- Mas eu não te conheço. – argumentei um pouco surpresa. 

- Eu te conheço e é só isso que importa – ele sorriu. 

Sorri de volta com aquele sorriso meio de canto da boca. Magro, óculos redondos, cabelos castanhos batendo no ombro combinando com a barba até cheia, apesar da cara de novo. A barba era arruivada. 
Ele segurou a minha mão e me levou por dois ou três corredores de obras bibliográficas, e aquele lugar era tão grande que a gente chegou a correr. Me lembro que a camisa era xadrez em tons de azul e verde. Isso não importou muito, porque eu estava hipnotizada por aquela mão quente que segurava a minha, uma mão grande e cheia de brancos dedos. A minha mão pequena não teve a menor chance. 

E depois de correr por horas, por dias, por anos e por microssegundos, a gente parou ao lado de uma enorme estante de madeira, que abrigava todos os livros que eu já li, e isso eu sinto por essa razão inexplicável, a mesma que com uma batuta de maestro me guiou porta adentro. E Barba Ruiva (vamos chamá-lo assim) puxou um livro grande e branco de uma estante e colocou nas minhas mãos dizendo “Você precisa ler Daytripper”. 

- Eu me lembro dessa HQ, eu vi... – comecei a argumentar, mas sua voz retumbou me interrompendo. 

- Não, você não viu nada. Seus olhos vidraram, você parou no tempo. Lyra, Menina Lyra, Lyrinha. Menina Daiane, Dai. Você precisa correr. Na chuva. Agora. Vem. – ele agarrou minha mão de novo, e a voz estremeceu assim como minhas pernas, mas eu fui forte. E com uma edição imaginária de Daytripper debaixo do braço, eu corri de mãos dadas com ele. E corremos, sem parar. 

E chegamos na chuva, no meio de uma avenida que transbordava um esgoto e era tudo cinza e se esvaía com a água abundante. Eu parei sem fôlego tentando salvar meu livro da água, mas nas minhas mãos já não havia nada mais. Barba Ruiva olhou nos meus olhos e me beijou. Um beijo de amor.

Senti a barba roçando nos meus lábios de menina, na minha bochecha. Ele desgrudou o rosto da minha boca, beijou minha testa e segurou meu rosto de volta. E sussurrou em meio à chuva que embaçava seus óculos: acorda.


Acorda. 



E eu acordei, e abri meus olhos nessa manhã fria. Mas eles não estão mais vidrados. 



domingo, 5 de maio de 2013

Essa saudade do cinza


Minha memória me trai, mas é preciso continuar.

Eu precisei passar alguns dias em São Paulo pra entender porque se ama e se odeia aquele amontoado de prédios, viadutos e gente, muita gente. E descobri de uma forma intensa. Decidi que amo, da sujeira às vitrines brilhantes. 


Não falei ainda do show do Queens of the Stone Age no Lollapalooza porque chega que a saudade dói profundamente. Se 2013 começou triste e sem graça, aquele instante do show foi o momento do ano até então. Eu queria que a minha vida fosse um eterno show de Josh Homme e trupe, um loop eterno, e eu vivesse aquele momento sem parar eternidade afora. Do it again. Do it again and again. 

(Destaques do show, na minha opinião: Burn the witch, que teve coro da plateia antes de começar, Hangin' Tree que eu chorei do começo ao fim e My God is the sun, a do disco novo tocada em primeira mão - algo como world première). 


Já fez um mês. No hostel da Vila Mariana, aquele lugar bucólico perdido no meio de outros labirintos, me senti em casa, mas na verdade minha casa era o mundo. Conheci israelenses, cariocas, paulistanos, gente do Acre e do nordeste inteiro, e uns dois americanos. Todos os dias eu saia de lá em busca de ver mais, muito mais. Entre quase ser prensada na porta do metrô, conhecer o caos de barracas que é a Rua 25 de Março e tomar café israelense, conheci a famosa Rua Augusta, em uma sexta-feira.

É claro que a gente parecia dois caipiras no meio da confusão, e eu me sentia a menina mais inexperiente do universo. Pessoas na calçada, bares em pequenas portas, mundos inteiros à parte. São Paulo e seu clima frio à noite me permitia sair de jaqueta de couro, e incrivelmente, ninguém reparava em mim com olhos espremidos, como quase sempre acontece. Eu era mais uma, eu era invisível, e eu adorei isso. 

Comemos em botequins, vimos surrealidades na Praça da Sé e na Galeria do Rock. Conheci duas amigas muito queridas que eu só havia visto pela tela do computador, andei por bares charmosos e jantei comida espanhola, tapas & tortilla. Tomei erdinger em outro boteco, experimentei cheiros e sabores como nunca. Esqueci que meu aniversário é um dia odioso e me permiti ficar feliz por ser 31 de março. Andei nas ladeiras da Augusta até os pés reclamarem.

E voltei pra cá.  

Voltei pra uma cidade que eu teimo em querer deixar. Voltei para a parte boa, meus amigos e minha família, meus gatos. E para a parte ruim, também. Eu insisto em querer ir embora porque não quero morrer enterrada pra sempre no meio do Pantanal. Um dia eu rompi as paredes da bolha em que vivia, e pra lá eu não volto mais, pra uma vidinha mais ou menos, eu não volto. Preciso romper agora os limites físicos. 

"Você é a cara de São Paulo, menina, em um bom sentido!" - me disse uma amiga de lá. Poucas vezes eu me senti tão lisonjeada. 

São Paulo, eu te amei e sinto imensamente a sua falta. 






sexta-feira, 3 de maio de 2013

E há tempos tive um sonho


Parece cocaína, mas é só tristeza
Talvez tua cidade.
Muitos temores nascem do cansaço, e da solidão
Descompasso, e desperdício.


Sei lá porque mas hoje passei o dia todo com essa música na cabeça. Desde que roubaram meu celular velho, onde eu escutava música, só consigo ouvir em casa. Aí por não ouvir música mais durante o dia, sempre que alguma coisa encafifa na minha cabeça, lá ela fica. Hoje foi "Há tempos", música que eu ouvi por demais quando era criança, e acho que ficou na cabeça talvez porque falamos (na redação) do filme sobre o Legião Urbana que vai ser estrear amanhã. Sei lá. 

Só sei que há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro.

Os dias tem sido pesados. Primeiro de tudo, eu parei de fumar. Há três semanas. E venho resistindo aos pequenos grandes impulsos, como comprar cigarro na banca. Ter pessoas fumando do meu lado e me contentar em permanecer em um silêncio resignado. Enganar a hora fatídica do cigarro no expediente tomando mais um copo de café. Eu não era a fumante mais viciada das galáxias, mas mesmo assim decidi parar. Mais um vício que deixo pra trás

É dificil quando já estamos acostumados a não termos mais nem isso. 

Eu voltei a fumar numa época muito específica da minha vida. Havia parado há seis meses. Numa quarta-feira de outubro, em 2011, terminei um relacionamento de 8 anos. Na primeira semana, eu fingi que nada aconteceu. Mas o descontrole veio. E na época, eu estava no meio de um relatório complicadíssimo de uma mostra de arquitetura, ainda na assessoria de imprensa. Precisava retomar algum controle, ou não daria conta. Precisava concluir aquilo pra depois explodir. Senão explodiria de um jeito irreversível. 

Meu grito acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira. 

Sai tremendo do trabalho, as lágrimas rolando enquanto pensava no que fazer, mas eu lutava contra ela, aquela tristeza tão exata. Queria gritar, queria quebrar alguma coisa. Não terminei esse relacionamento do jeito mais fácil. Eu abri meu peito e arranquei aquele ser, que hoje me é um completo estranho, à força de dentro do peito. Então, no meio disso, eu precisava me concentrar. Não tive dúvidas, e voltei a fumar. Encontrava no cigarro um momento de calma, só meu, de reflexão. Hoje eu sei, e lá eu também sabia o quão autodestrutivo é isso. Pra me concentrar, eu arrumei um jeito de me destruir, porque na minha cabeça quebrada, eu queria sentir alguma coisa. Não era o controle apenas para o trabalho que eu queria, era a frieza, a placidez da destruição de tudo que me fazia saudável e bem. De algum jeito, eu me sentia imune à dor porque não sentia mais nada. Fumar virou hábito de novo. 

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. 

Há quase um mês eu fiquei muito doente. Não faltei ao trabalho porque sou teimosa, mas alguns dias eu nem sei como dirigi até o jornal. Foi uma gripe, um resfriado, uma tuberculose ou sei lá o que. Fiquei imprestável como há muito tempo não ficava. Ainda guardo um pouco de tosse e ranço na garganta, alguns espirros, mas melhorei. Então no decorrer desses dias acamada, e sem poder dormir três dias seguidos pra me recuperar, deixei o cigarro de lado em um dia. Depois no outro. E no seguinte. E depois de uma semana, anunciei em alto e bom som: parei de fumar. E não tô contando os dias exatos, fazendo calendário. Apenas deixando ir, deixando pra lá. Resistindo com as minhas forças. Tem dado certo. 

Disciplina é liberdade? acho que sim. Acho que se não é pra mim, vai passar a ser. Eu devo isso a mim mesma, mesmo que já faça tempo. Há tempos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Guest post: Machismo para Iniciantes

Há um certo tempo, instalei o Google Analytics para conhecer o perfil dos leitores do blog. E eis que um pouco mais de 70% de quem acessa é aqui da minha cidade, Campo Grande. Acredito que os meios de divulgação que uso dos posts (Facebook e Twitter) direcionem pra isso. Sim, eu não divulgo tanto meu blog. É um exercício muito pessoal o que faço com isso aqui, e mesmo assim, às vezes o alcance é inesperado.

Na semana passada, o post "O estupro que não está longe" teve uma repercussão inusitada. Muitas pessoas se aproximaram de mim para conversar sobre o assunto, inclusive uma moça que estava na festa onde aconteceu o crime, o que inclusive me fez colocar um update na postagem. Então veio um comentário no dia seguinte. Um leitor(a) anônimo disse, entre outras coisas, o seguinte:

"(...) mas é igualmente irreal pensar que possuímos uma cultura em massa que apregoa tal prática. Se essa ideia fosse verdade, viveríamos em sodoma ou gomorra onde isso seria normal e socialmente aceito. não é o caso. Culpar cultura (ou o seu próprio fantasma generalizado do que ela é) não tem resultado prático algum. essa merda só aconteceu porque a organização da festa que não deixou seguranças no estacionamento e o poder público que não fez policiamento ostensivo (...) . Sempre a mídia divulga esse tipo de ocorrência como fatalidade, mas é só consequência da eterna irresponsabilidade do setor público/privado, e da inércia das pessoas que não fazem nada para cobrá-los".

Eu vi que esse comentário havia sido uma resposta a um comentário da Sybylla, amiga e leitora, que falou, entre outras coisas, da cultura do estupro. Então, olhando o Analytics me veio a dúvida: será que as pessoas que me cercam aqui, no meu cotidiano físico  realmente pensam que não há a cultura do estupro?

Pensando nisso, pedi à Sybylla que escrevesse mais sobre isso, de forma abrangente e livre. Ela pontuou tudo o que elenca o machismo. No comentário do leitor(a), ele culpa terceiros, o sistema, a falta de policiamento ostensivo, a mídia, pelo estupro. Mas e os estupros que acontecem entre quatro paredes? é falta de policiamento ostensivo? será que estamos nos esquecendo do sentimento de posse que todo homem  é incitado a ter sobre o corpo da mulher como indivíduo desde muito cedo? e o fato de ser culturalmente aceito culpar a vítima?


Quando li o comentário do leitor, lembrei de quando eu tinha 12 anos e pulava carnaval em um clube aqui da cidade. E que quando eu passei no meio de alguns garotos, um deles me agarrou e puxou meu cabelo com força. Eu resisti e fui empurrada, cai no chão e bati o braço. A culpa era minha, de estar na festa? da minha roupa, do meu corpo? de ter passado ali? do segurança da festa que não estava presente no momento? ou do garoto que simplesmente pensou, por alguma distorção social, que tinha direito de tocar meu corpo sem meu consentimento?

Eis então o texto da Sybylla. Aviso que é uma pedrada pra quem insiste em dizer que nada disso é real. A visão dela é crítica e sem meias palavras. Obrigada Sy!


Machismo para iniciantes
Por Sybylla.

Eu percebi que é muito difícil falar de feminismo porque as pessoas em geral tem conceitos distorcidos já estabelecidos na mente e simplesmente não escutam, não pensam e tampouco entendem o que ele quer dizer. Assim achei mais fácil para este guest post falar sobre o machismo e quem sabe assim mostrar o lamaçal no qual todos nadamos.

O que é machismo?

Machismo é toda uma cultura enraizada na sociedade patriarcal que diz que o homem é superior à mulher e à mulher cabem determinados lugares e ocupações na sociedade, mas não todos, porque não é digno para a mulher fazer certas coisas. É ele quem produz as manchetes absurdas que vemos todos os dias como violência contra a mulher, contra gays e transsexuais.

É o machismo que mede tamanho da saia, profundidade do decote, intensidade da maquiagem para enquadrar uma mulher como vadia ou não. É o machismo que diz que mulher não pode gostar de sexo, que para ser boa para casar tem que ter namorado pouco, mas que na cama deve saber chupar e rebolar gostoso. Ele diz que mulher não pode viver sem um marido, não pode rir alto, sentar de perna aberta, usar roupa curta, marcada ou colante, tampouco sair à noite, sair sozinha ou ir para a balada.

O machismo faz vítimas, pois para ele tudo o que não seja viril e vinculado à imagem do macho é digno de escárnio, de violência, de incompreensão. Basta ver como xingamos uma pessoa. “Ô, filho da puta!” Não xingamos a pessoa em si, mas xingamos a mãe dele que, opa, é mulher! Ou então a gente fala “Para de viadagem, mano!” E por que isso? Porque qualquer comportamento afeminado em um homem é feio. É o mesmo princípio que norteia a ofensa “Para de ser mulherzinha!” De novo, para o machismo, tudo o que se refere ao feminino é feio e inferior.

Mas nem tudo, né gente? Afinal de contas, o machismo adora mulheres nuas nas capas das revistas. Ou seja, o machismo diz como as mulheres devem se vestir e a como tirar a roupa. Ahh, mas tem regras. Você só pode tirar a roupa se for gostosa, pois se o seu corpo não estiver dentro do padrão que o machismo quer, você é baranga, caída, gorda e feia. Só que você não pode tirar fotos com o seu celular, pois aí você é puta. Não, nada disso, você tem que tirar a roupa para a revista para o machismo ver. Qualquer coisa fora disso e você é vagabunda que fica tirando fotos dentro da sua casa, do seu corpo e com o seu celular/máquina.

Uma das crias mais purulentas do machismo é a cultura do estupro. Essa cultura é derivada daquela outra lá de cima que gosta de medir o tamanho das roupas da mulher e que diz que se você não se encaixar em uma série de variantes, o seu estupro/abuso/violência/agressão foi provocado. Coitado do machista, ele não pode controlar seu impulso sexual e ataca uma mulher que está usando uma roupa que ele julga vulgar e a estupra, pois afinal, vestida assim, ela tá pedindo, né? O que é mais interessante de notar é que os estupros ocorrem em mulheres que estão vestidas com jeans, camiseta, saia, toga, camisa, casaco, boné, biquini, camisola, maiô, shortinho curto, bermuda, roupa de presidiária... Enfim! Parece até que a culpa do estupro e da cultura do estupro é do estuprador e do machismo, né?

É o machismo também que diz que mulher gorda e/ou feia deveria agradecer se é estuprada, pois afinal de contas, quem vai querer aquela mulher, que o próprio machismo diz que é feia, para transar ou ter algum relacionamento sério? E uma das coisas que o machismo também faz é gritar para os homens: “CALA A BOCA, QUE MENINO NÃO CHORA!” Porque chorar, ter emoções, amar, sentir tristeza, ter compaixão, falhar são coisas que o machismo não admite e se sucumbe à isso, você não presta.

É, gente, o machismo nos prende tal qual a Síndrome de Estocolmo. Pois tem gente presa ao machismo e agradece por ele existir, defendendo-o com unhas e dentes. E ataca aquelas outras ideias absurdas, como por exemplo, o feminismo, que quer reduzir as desigualdades entre homens e mulheres e que quer libertar todos nós de uma cultura castradora e punitiva.

                                  *** Sybyla é Blogueira responsável pelo Momentum Saga, feminista. Geógrafa professora da rede estadual de ensino de SP e mestranda em Geoquímica e Geotectônica. Fã do futuro, ficção científica e ciência."

Leia também (links recomendados pela Sybylla): 






sábado, 20 de abril de 2013

Desacelerando


Eu nunca pensei que me veria como workaholic. Sempre fiz as coisas no meu tempo, na minha velocidade, do jeito que me apetecia. A vida toda me criticaram por isso "só faz as coisas a hora que quer". Eu não entendia muito bem o motivo de isso ser errado. Só sabia que, se as pessoas queriam algo de mim, algo criativo (um texto, um layout, um conselho), que eu precisava fazer aquilo no meu tempo. 

Quando comecei a trabalhar na área do jornalismo, comecei a ver que eu poderia ser "multitarefada". Sempre gostei de fazer 17 coisas ao mesmo tempo, e esse é um tempo meu também. Ano passado eu trabalhei muito, muito mesmo, porque diagramava, entrevistava, assessorava porta-voz, fazia layouts, mandava e-mails, despachava press-kit pra jornalista, pautava. Sem falar nos eventos à noite, sapatinho e terninho, esconder o rosto cansado com maquiagem. Eu gostava e aprendi um bocado. Mas então resolvi que precisava de mais. Aí fui escrever pra uma revista. 

Acho que meu texto é muito mais solto hoje por causa da revista. Aprendi mais um bocadão. Mas agora, as coisas estão um pouco diferentes. Minha rotina mudou muito, meu trabalho ficou mais longe de casa, isso exclui as janelas de tempo que tinha. Não coloco mais terno, agora vou trabalhar de bota se quiser. E não faço mais nada de editoração gráfica, apenas apuro, entrevisto e escrevo. Mas mesmo assim, não sobra tempo. 

A atividade que sai do mecânico para o essencialmente criativo, é muito mais exaustiva do que se pode pensar. Saio do jornal com a cabeça em fogo. Se escrevo sobre algo que amo, o exercício se torna mil vezes mais prazeroso, e isso acontece com bastante frequência. Se não, é muito mais desgastante, mas de um jeito bom, não nocivo. Mas me exaure, me suga. Chego em casa e não consigo mais escrever pra mim, que é, penso eu com meus botões, o exercício mais importante de todos. 

Percebi que chegava e não ia jantar, tomar banho, sair e beber uma cerveja. Não ia escrever bobagem, ficar com a Panzinha entre os braços, tocar violão. Eu chegava, ligava o computador, e ia trabalhar. Ia pesquisar, mandar e responder e-mail, ligar para mais uma dezena de fontes, entrevistar. Meus pais chegando do trabalho, indo no meu quarto conversar comigo, e eu estava lá, absorta. Quando eu finalmente largava o osso, eles já haviam ido dormir. 

Minha alimentação só presta na hora do almoço, porque a comida do refeitório do jornal é ótima. De noite, eu basicamente como miojo ou algum delivery. Porque não tenho saco de ir no mercado, e preciso trabalhar. Na véspera de ir para São Paulo, ao invés de arrumar a mala e descansar de três semanas muito complicadas de trabalho, eu estava lá, me forçando a trabalhar, com meus prazos todos atrasados. Dormi umas 4 horas antes de pegar o avião. 

Aí semana passada, uma banda de stoner rock ia tocar aqui em Campo Grande, na sexta-feira. Eu prometi pra todo mundo que ía, porque ultimamente o que mais ouço é "você sumiu Lyrinha". Eu sumi, mesmo, porque estou sempre muito cansada pra qualquer coisa. Nesse dia, sai do jornal animada, dizendo que ia mesmo sair e beber umas, combinei com meus amigos e tudo mais. Cheguei em casa cansada como sempre, com as mesmas olheiras fundas. Então, pensei, "vou deitar um pouco até a hora". Acordei madrugada alta. Meu corpo se desligou, pediu arrego. Não houve despertador, ligação ou chamado que me acordou. 

Então por tudo isso, acho que chegou a hora de desacelerar. Quero também me dedicar mais ao blog, aos meus gatos, às minhas letrinhas e ao mestrado que eu quero fazer no final do ano. E que eu possa fazer as coisas cada vez mais no meu tempo.

Gatos nos ensinam: o ócio é importante.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O estupro que nunca está longe

Eu tinha começado a escrever um post pra falar do que vi em São Paulo e durante o Lollapalooza (o show do Queens of the Stone Age foi sensacional), mas acabei deixando. Quando fui pensar a respeito, duas coisas varreram a viagem da minha cabeça: o fato de terem tentado roubar meu carro e o estupro de uma menina de 20 anos, em uma festa de um curso da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Cheguei na redação para o costumeiro expediente de domingo, mais cedo, e vi o pessoal do turno da manhã comentando alguma coisa sobre uma festa que tinha acontecido na madrugada anterior. Duas repórteres da editoria de Cidades conversando entre si, pois as duas acabaram de se formar na universidade. Quando soube da história (que acho que o jornal deu em primeira mão), o chão me fugiu por um momento. Ou vários.

O caso foi tão banal, tão bárbaro, que fiquei sem palavras. E senti aquilo próximo de mim não só pelo contato direto na redação, mas pela situação em si. O cenário do filme de terror foi uma festa realizada pelo curso de Artes Visuais, em uma chácara distante. Aqui isso é muito comum, organizar festas em locais assim porque fica muito mais barato. Em determinado momento, a menina deixou a namorada na festa e alegando cansaço, foi descansar no carro. O estuprador a tirou do carro, a arrastou para o meio do mato e a violentou barbaramente, a ponto de ela ficar cheia de marcas e escoriações.

Até aí a violência já é terrível, horrível, por si só. Soma-se ao fato de que era uma menina que se relacionava com meninas. Não que ser heterossexual diminua o horror de um estupro, nunca, acho que o terror é o mesmo. Mas se nós, que nos relacionamos com homens, temos essa fobia de estupro, esse medo, imagine uma moça lésbica.

As meninas me contaram o caso, e eu, da editoria de cultura, sentei na minha mesa e fiquei matutando em silêncio. Pensando que, horrivelmente, a jornada da vítima não terminava ali, com a ida na delegacia, a denúncia, a busca da polícia pelo culpado. E nesse instante, a chefe de reportagem verbalizou os meus pensamentos e meus sentimentos de que ela ainda seria invadida, conspurcada pelo mundo machista em que a gente vive. Ela disse: "e aí vão falar que ela não devia ter ido sozinha para o carro; que ela mereceu pois era gay; e que a culpa é ainda mais dela porque estava em uma festa e devia estar bebendo, e todas essas merdas que falam pra colocar alguma parcela de culpa na vítima". Alguma e não raras vezes, todas a culpa.

Na matéria publicada nesse dia, a repórter entrevistou organizadores da festa, além da polícia. A vítima afirma com toda certeza que lembra do agressor de lá de dentro, tanto que pôde descrever até o tênis que ele calçava. Porém, na reportagem, os organizadores foram até enfáticos, da forma com que foi exposta por lá*****: "(...)ele permaneceu durante o evento na recepção e não se recorda de ter visto ninguém com as características descritas pela jovem. “A maioria das pessoas é nossa conhecida.” A estudante (xxx), que participou da organização da festa, afirma não se lembrar de ninguém circulando pelo evento com essa descrição. “Estávamos em oito cuidando da festa e ninguém foi procurado”, declarou (...)".

Algumas pessoas chegaram a levantar a hipótese de que ela estivesse em estado de choque, porém, a descrição foi tão precisa que menos de 72 horas depois já se tem o retrato falado do estuprador. Ah, e um suspeito.

Hoje, chegando na redação, imediatamente fui ver com o pessoal de Cidades como estavam as coisas. E um dos repórteres me disse que os responsáveis pela festa excluíram o evento do facebook********, onde possivelmente existiram pistas, ou assim a polícia poderia pensar. A imprensa não encontrou esse evento mais, mas nós sabemos que um simples software dá jeito nisso.

Então nesse momento funesto, a polícia divulga comunicados de que já tem tudo arquitetado. Os jornalistas sabem disso. **** Aliás, lembrem-se de que grande parte dos estupradores são gente conhecida. Isso, se for verdade, você diz para a polícia. Mas você não fala que estava perfeitamente monitorando tudo, obrigada. Você também não exclui o evento da festa, você cria um enorme comunicado dizendo: aconteceu isso, mas nós não vamos tolerar. Nós iremos grudar na polícia até achar o animal que a estuprou de forma tão covarde*****.

Não apoiar a vítima seria uma opressão pra gente também****, que nunca vai estar a salvo disso, porque a cultura do estupro é enraizada, e as pessoas não se mexem pra se livrar dela. Ninguém, no Brasil, ensina seus filhos a não estuprar, e sim ensina suas mulheres e crianças a não se "arriscarem". Vivendo. 

O desfecho a gente aguarda. Quando perguntei ao repórter qual seria a conduta do jornal em relação ao caso, já que a organização "lavou as mãos e tirou o seu da reta" e a polícia mantém sigilo, ele foi bem enfático (dessa vez pro bem): "A gente vai bater neles até pegar esse filho da puta". :)

OBS: Meu carro vai bem, obrigada. O seguro arrumou meu vidro quebrado no ato do assalto, sem consequências pro meu bolsinho empobrecido pós-festival. Um beijo pro meu agente de seguro. 
OBS¹: "Bater" é uma gíria jornalística pra investigar, insistir, ficar no pé de alguma autoridade/instituição para que algo não seja esquecido. 
OBS³: Nesse turbilhão, várias pessoas se propuseram a organizar uma ação, um protesto, contra mais esse estupro. Ela, infelizmente, cruelmente, não foi a primeira moça a ser violentada em uma festa ou na universidade. Infelizmente, e dói aqui dentro, de verdade.

                       *********UPDATE: Uma moça que estava na festa, colaborando com os organizadores, me chamou no Facebook agora a pouco, depois de ler o post, e me expôs o seguinte em relação ao assunto, que eles estão sim colaborando com a polícia e tá todo mundo super com medo de represálias e também por terem sido expostos na imprensa. Mas que todo mundo que tirou foto na festa mandou pra polícia e pra vítima, que todo mundo já falou tudo que sabe na polícia. Em resumo, que tiraram o evento do facebook simplesmente por medo, mas que todo mundo quer ajudar, mesmo que de forma mais sigilosa. Por isso, editei diversas falas do meu texto, principalmente onde tem os ***. Me sinto aliviada de muitas formas, porque alguém do outro lado rebateu uma coisa que me deixou muito, muito aflita. E se a cooperação tá sendo grande, conforme essa fonte falou, eu realmente espero que essas forças sejam somadas de uma vez e peguem esse agressor.

terça-feira, 26 de março de 2013

Nelson e o véu de tragédias


E com as luzes finalmente apagadas, abriu-se a cortina do teatro no centro de Campo Grande. Escuro tocado por velas artificiais no palco. E uma marcha fúnebre, muito alta, ensurdecedora. Meu coração bateu muito forte nesse instante. A cada batida da marcha dos mortos, era aqui dentro do peito. Fiquei arrepiada, amedrontada e maravilhada, tudo ao mesmo tempo.

 "Vamos assistir de pertinho", eu pedi, logo de início. Sentamos na segunda fileira, tão perto que eu podia me sentir dentro do palco. Nelson me esperava, em cinco contos "rodrigueanos" de "A vida como ela é" encenados pela peça "As Noivas de Nelson", da Cia. Paulista de Teatro.

Abre aspas: o primeiro livro que eu li de Nelson Rodrigues foi "Vestido de Noiva". E aquilo me cativou, pra sempre. Aquele olhar de dramaturgo, jornalista. Irônico, pueril, e ao mesmo tempo pra constranger, incomodar. Eu sempre fui muito fã das obras dele, desse jornalista que viveu na tragédia e tirou dela suas histórias. Na semana que antecedeu a peça, eu escrevi sobre ela, entrevistando a atriz Anamaria Assis e a produtora Katia Manfredi. E já percebi que aquilo me fisgava, porque as fotos eram impressionantes. Na matéria, que eu escrevi me deleitando, feliz da vida, falei de Nelson, de noivas, de obras como "Anjo Negro" e "Album de Família". E lembrei do próprio A vida como ela é, que eu reli pouco antes de ir pra Bonito, ano passado, à trabalho. Fecha aspas.

A genialidade de "As Noivas de Nelson" está também no formato escolhido, que não é uma adaptação e sim uma encenação. Os atores reverenciam o texto o tempo todo, e extraem dele sua intensidade. Simplesmente são os protagonistas, os narradores, os personagens secundários. Em cada conto (“Excesso de Trabalho”, “O Delicado”, “O Sacrilégio”, “O Pastelzinho” e “Feia Demais”), vemos tanto do hoje e do ontem. E os atores que estão ali representando, são fortes, destemidos e intensos, tal qual suas personas.

No primeiro instante em que o primeiro ator surgiu no palco, o rosto cadavérico de cada um, as noivas de vestidos amarelados pelo tempo e o algodão no nariz dos personagens, já antecipam essa tragédia que é tão Nelson. Tão cotidiana, tão cômica ao mesmo tempo. Nelson Rodrigues acostumou-se a narrar essa vida exemplar diante dos olhos de uma sociedade que é despedaçada dentro de quatro paredes. Ele narrou a hipocrisia daqueles tempos (que ainda se parecem com o hoje), e na peça, é ela que parece fazer exaltar a morte.

Entre um conto e outro, ouvimos a voz do escritor. Entre frases desconexas e a voz rouca de Nelson, a ação acontece. E são gritos, choro, murmúrios, sentenças. Entre véus amarelados do tempo, e flores secas em buquês, a gente vê tanto do que também somos: despedaçados e trágicos em nosso perfeitos retratos distorcidos.