Páginas

Mostrando postagens com marcador Amigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amigos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Amor não é temporário

Minha amiga queridona Stéphane Velasco vive um dilema de mãe de gatos de primeira viagem: ela acaba de realizar seu primeiro resgate. Achou uma gatinha pequenina na rua, brigando com outro gato maior. Stéphane já te dois gatos adultos, Acerola e Sardinha. A princípio, ela resolveu doar a pequena para uma moça contactada via Facebook, mas agora tá naquela dúvida que assola todo mundo que já foi, ou é lar temporário pra algum animalzinho carente: doar ou adotar?

De 2007 a 2009, eu alimentei diversos gatinhos no campus da minha universidade, realizei alguns resgates e fui lar temporário muitas vezes. E vou dizer, não é fácil. A gente sempre acha que faz pouco e que não é o suficiente. Mas uma coisa eu aprendi: não fazer absolutamente NADA é que é pouco. Nesse caminho, minha família e eu ficamos com 5 gatos. Hoje são três, pois dois morreram esse ano, e isso abalou demais a vida de todo mundo em casa. Meus gatos não vão pra rua, são castrados, comem ração premium e qualquer espirro já vão na veterinária especializada. Tem amor, carinho e são muito mimados. Mas mesmo assim, duas pequenas nos deixaram, uma picada por um bicho peçonhento e outra por uma doença que levou ela mesmo com todo o atendimento médico possível.


Amor não é temporário. Por um animalzinho que não faz nada pra nos magoar, então, acho que é ainda mais profundo. Por isso, temos que avaliar direitinho o que queremos e o que podemos fazer por aquele animal recém-acolhido, que até então só conheceu o asfalto como casa. 

A grande pergunta que temos que fazer é: o que é melhor pra ele? Ficar comigo ou ser doado? Porque de nada adianta adotar se você não pode dar todo amor, segurança e apoio do mundo, certo? e também não adianta doar só por doar, pra se livrar do problema, porque por causa de gente que só quer "se livrar do problema" é que existem tantos animais soltos e sofrendo na rua. Eu senti na pele o que uma escolha errada pode fazer. 

Em 2009, achei um gatinho cinzento numa praça, famélico e judiado. Deixei ele num hotelzinho, mas quando a conta bateu em R$ 200 apenas de hospedagem, decidi trazer pra casa. Já estava sendo lar temporário pra uma outra gatinha, e logo os filhotes ficaram amigos. Essa gatinha foi doada, e muito bem doada, para uma moça humilde mas muito cuidadosa. E o gatinho cinza ficou pra trás. Batizamos ele de Nanquim. 

Nanquim na época em que morava no hotelzinho. 

Logo ele brincava com a Pan, que revidava com tabefes, mas ele não ligava. Jogava futegato o dia todinho, era espoleta, carinhoso, enfim, um gatinho de colo. Na época, meus pais não gostavam muito de gatos, e eu não queria adotar o pequeno à revelia. No fim das contas, uma moça da faculdade mesmo, que parecia perfeita, apareceu. Quando fui entregar o lindo,  vi que era apartamento telado, tudo nos conformes. Sai de lá feliz pela adotante perfeita. 

Mas o que ela não me contou, é que seu pai não gostava de gatos. E me prometeu que ela mesma castraria, apesar da minha insistência de eu mesma buscá-lo dali dois meses para a cirurgia. O que de fato aconteceu: dias depois ela se mudou com a família pra uma casa térrea, e não castrou o pequeno nem o protegeu. Arrumou um cão de raça, daqueles que necessitam de atenção extrema, e que batia no gato. Nanquim fugiu e nunca mais foi visto. 

Meu coração foi lá no chão quando eu soube de tudo isso. O que eu berrei com essa menina, não tá escrito. Porque ela não me devolveu o gato? porque ela não agiu com responsabilidade? Porque pelo menos não me avisou todas essas mudanças, pra que eu mesma pudesse tomar uma atitude? Ele se perdeu pra sempre. 

É por isso que temos que pensar no que é melhor pra eles, porque mesmo com todo cuidado do mundo, as pessoas ainda são irresponsáveis. Porque se for pra doar de qualquer jeito, melhor continuar sob nossos cuidados. Mas se for pra ele ter um lar melhor, às vezes ser o gatinho mimado da casa, é melhor doar. 

Resgatei e doei outros, de lá pra cá. E outros gatinhos entraram na minha vida. Mas lembrar desses olhinhos brilhantes amarelos e desse corpinho cinza saltitante dói fundo, aqui dentro. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Nega, poeta e lar

Eu nunca conheci uma pessoa com um desabrochar tão extremo e intenso, e ao mesmo tempo, tão conectada às próprias raízes que era impossível separá-la da sua terra mãe, com todas as ruas de pedra e baixios, e neblina de congelar os ossos e a galinhada feita no quintal pela madrinha. Ela, Renata, a minha poeta. 

Me dou ao desfrute e à falsa modéstia, e sem rodeio, eu digo com a força do peito: eu tenho uma poeta que é minha. Porque ela também é meu lar, sempre nas horas críticas, em que eu preciso desesperadamente fugir pra algum lugar, e é sempre pra lá que eu vou, pra sacada, pra varanda, pro sofá-cama ouvir o sacolejo da Mariazinha (o cão), pra qualquer lugar onde minha Poeta, Barda e Moira esteja. E ela me dá abraço, café quente, cobertor, ouvido e risada.

Deixando as palavras bonitas de lado, eu lembro de quando conheci Renata, a menina tímida do interior que estava cursando jornalismo porque seu curso dos sonhos havia sido cancelado da forma mais indignante de todas. Seu sonho havia sido fragmentado, e ela aqui, perdida, olhando os cantos com estranheza. Alguma coisa bem no estômago me fez traçar uma linha reta até ela e me apresentar. Boa noite, eu sou a Lyra. Me dá a mão, e eu quero te conhecer, e se a gente se der bem, quero te trazer pro meu mundo. 

Mas foi o contrário: foi ela que me dragou, que virou refúgio, que deu a mão. A menina cheia de estigmas e medos deu lugar à moça que tinha nas palavras um universo extenso e brilhante de supernovas e constelações. Nas piores crises que tive na minha própria vida, ela estava lá. Eu estava lá. Pra ela me trazer pessoas essenciais e lindas, que eu vejo brilhando perto de mim dirigindo o fusca verde-abacate, que até me dá certa vergonha do meu espírito quebrado e opaco. Pra me presentear com chuva na cabeça, pra me fazer acreditar que o mundo é bonito quando eu sei, no meu âmago, que ele não é. Pra gargalhar da minha cara quando eu quase caio no meio da estrada. Pra me fazer rir e sentir acolhida perto da Vózinha, mesmo que ela não seja minha avó de verdade. 

Ela nunca pediu nada em troca. Eu nunca pedi nada em troca. Assim que funciona, há tempos. A saudade da estrada aperta, e eu simplesmente pego a mochila e volto pra um dos meus lares. É onde essas meninas estão. É onde a Rê está. Minha Rê e seu cão belzebu. 

Pode se abater, deixar o corpo doer, que eu vou estar aqui, menina, pra aparar você na queda. Porque vou te dar o que eu tenho de melhor, e você vai me presentear com a sua alma mais profunda, e vamos trocar o que nós duas temos de mais precioso: as palavras.

Te amo, nega