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sexta-feira, 3 de maio de 2013

E há tempos tive um sonho


Parece cocaína, mas é só tristeza
Talvez tua cidade.
Muitos temores nascem do cansaço, e da solidão
Descompasso, e desperdício.


Sei lá porque mas hoje passei o dia todo com essa música na cabeça. Desde que roubaram meu celular velho, onde eu escutava música, só consigo ouvir em casa. Aí por não ouvir música mais durante o dia, sempre que alguma coisa encafifa na minha cabeça, lá ela fica. Hoje foi "Há tempos", música que eu ouvi por demais quando era criança, e acho que ficou na cabeça talvez porque falamos (na redação) do filme sobre o Legião Urbana que vai ser estrear amanhã. Sei lá. 

Só sei que há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro.

Os dias tem sido pesados. Primeiro de tudo, eu parei de fumar. Há três semanas. E venho resistindo aos pequenos grandes impulsos, como comprar cigarro na banca. Ter pessoas fumando do meu lado e me contentar em permanecer em um silêncio resignado. Enganar a hora fatídica do cigarro no expediente tomando mais um copo de café. Eu não era a fumante mais viciada das galáxias, mas mesmo assim decidi parar. Mais um vício que deixo pra trás

É dificil quando já estamos acostumados a não termos mais nem isso. 

Eu voltei a fumar numa época muito específica da minha vida. Havia parado há seis meses. Numa quarta-feira de outubro, em 2011, terminei um relacionamento de 8 anos. Na primeira semana, eu fingi que nada aconteceu. Mas o descontrole veio. E na época, eu estava no meio de um relatório complicadíssimo de uma mostra de arquitetura, ainda na assessoria de imprensa. Precisava retomar algum controle, ou não daria conta. Precisava concluir aquilo pra depois explodir. Senão explodiria de um jeito irreversível. 

Meu grito acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira. 

Sai tremendo do trabalho, as lágrimas rolando enquanto pensava no que fazer, mas eu lutava contra ela, aquela tristeza tão exata. Queria gritar, queria quebrar alguma coisa. Não terminei esse relacionamento do jeito mais fácil. Eu abri meu peito e arranquei aquele ser, que hoje me é um completo estranho, à força de dentro do peito. Então, no meio disso, eu precisava me concentrar. Não tive dúvidas, e voltei a fumar. Encontrava no cigarro um momento de calma, só meu, de reflexão. Hoje eu sei, e lá eu também sabia o quão autodestrutivo é isso. Pra me concentrar, eu arrumei um jeito de me destruir, porque na minha cabeça quebrada, eu queria sentir alguma coisa. Não era o controle apenas para o trabalho que eu queria, era a frieza, a placidez da destruição de tudo que me fazia saudável e bem. De algum jeito, eu me sentia imune à dor porque não sentia mais nada. Fumar virou hábito de novo. 

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. 

Há quase um mês eu fiquei muito doente. Não faltei ao trabalho porque sou teimosa, mas alguns dias eu nem sei como dirigi até o jornal. Foi uma gripe, um resfriado, uma tuberculose ou sei lá o que. Fiquei imprestável como há muito tempo não ficava. Ainda guardo um pouco de tosse e ranço na garganta, alguns espirros, mas melhorei. Então no decorrer desses dias acamada, e sem poder dormir três dias seguidos pra me recuperar, deixei o cigarro de lado em um dia. Depois no outro. E no seguinte. E depois de uma semana, anunciei em alto e bom som: parei de fumar. E não tô contando os dias exatos, fazendo calendário. Apenas deixando ir, deixando pra lá. Resistindo com as minhas forças. Tem dado certo. 

Disciplina é liberdade? acho que sim. Acho que se não é pra mim, vai passar a ser. Eu devo isso a mim mesma, mesmo que já faça tempo. Há tempos.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Looping

Acende o cigarro no escuro, senta, pensa. Um trago, dois tragos. Toda segunda-feira eu decido parar de fumar, toda terça-feira eu falho. Fumaça,  cheiro de menta. O preço do cigarro aumentou, hoje comprei na banca e vi que havia ficado mais caro, assim, do nada. 'Você devia parar de fumar'. Eu deveria parar de fumar, penso na segunda-feira. 

Na sexta-feira passada voltei do bar caminhando calmamente. Onze horas. A hora em que eu deveria esperar, de camisa de flanela vermelha recém-comprada e maquiagem no rosto, pra brincar de ser o que eu quisesse, menina e rainha. Mas sigo resoluta pra casa, deixando o tempo fazer seu trabalho árduo e honroso, o de esquecer.

Quarta-feira e eu me sinto exausta. O corpo dói e me sinto uma velha, cada osso retinindo inquieto, as costas pesam e o cansaço me deixa irracional. Quero cama e aconchego. Quero reclamar e dormir em posição fetal, esquentando o frio que vem de dentro pra fora. Quero solidão e que me deixem quieta no meu canto e em silêncio. 

(0) e-mails novos na caixa de entrada. 

Quinta-feira não quero ligar o computador, mas acabo ligando, mesmo que invisível em todos os circuitos. Cerveja ocasional com um amigo ou outro. "Você anda sumida". Não ando não, vivo na mesma casa, no mesmo quarto, no mesmo corpo. Atrás da loja de calçados, próximo da avenida movimentada. Eu só sumi do que não me importa muito, mas aí descubro que até essas coisas são essenciais. Elas fazem parte de uma realidade paralela, por onde eu transito quando me dá vontade. E é assim, simples, aceita quem quiser e quem não quiser também, boa noite. Quinta tenho sempre energia, e vontade de fazer mil coisas e escrever e editar e tocar violão e arrumar os livros. Insônia. 

Insônia, insônia. 

"Tô saindo", eu digo pra alguém que não vai ligar muito, e bato o portão. Caminho pelas ruas, sento no bar porque é sexta-feira. Volto pra casa, porque sábado cedo eu trabalho. "Não, nem quero ir pra balada, amanhã cedo eu trampo". Chego e não durmo, só engano. Óculos escuros pra esconder olheira. Exausta. Animada. Quero reclamar. Onze horas. Insônia. 

Looping. 

'Droga, me perdi de novo'. 

Como naquele dia, naquela semana, em que minha memória se escoou pelo ralo e eu me perdi de casa.

Sábado, domingo. Não vi passar e não sei dizer. Oito horas da manhã, o sol na cara e a maquiagem escorrendo pelos cílios. A sola do tênis que ganhei por último já tá ficando gasta. Colocar eles no pé no sábado me faz sentir que eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Domingo eu não me lembro de nada, e fico contida, presa na gaiola, por vontade própria. Desligo dos outros e gostaria que se desligassem de mim.

Já é terça-feira. Eu devia mesmo parar de fumar.