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segunda-feira, 2 de março de 2015

Callas, essa maravilhosa

Há algumas semanas, o caderno que eu edito no jornal ficou em polvorosa com a chance de entrevistar uma atriz maravilhosa, diga-se de passagem: Silvia Pfeifer. Quem assiste ela na novela das sete como vilã, hoje, não imagina a simpatia que ela é. Uma pessoa centrada, acessível, que, como diz a minha estagiária Lua, ganha em todos os níveis de maravilhosidade. A Silvia veio pra cá pra estrelar a peça "Callas", baseada na vida trágica da soprano grega Maria Callas, que morreu nos anos 70. 

Resolvi ir assistir já antecipando que seria uma peça daquelas boas. E de fato, foi. A Silvia, incrível, o cenário extremamente elegante e bonito, iluminação surpreendente e sensível. Em quase uma hora de montagem, você tem a oportunidade de conhecer mais sobre uma cantora que fez história na ópera mundial, e que teve uma trajetória cheia de problemas pessoais e profissionais. 

Foto: Marcelo Victor

O enredo se desenrola, curiosamente, como se fosse uma enorme entrevista jornalística daquelas que só repórteres próximos à fonte fariam, já que, na sinopse, o jornalista John, personagem fictício, convida Callas para conhecer uma exposição que fará sobre ela e aproveita para entrevistá-la. Só que, nesse momento, a intensidade e a dramaticidade de uma história real acabam dominando a história. Em determinado ponto, John (o jornalista) vira o entrevistado pela curiosa Callas, que, nesses momentos, deixa a amargura pessoal de lado para fazer perguntas. Mas John foge e recomeça a tocar nas feridas dela. 

A peça me fez refletir não só sobre a história de uma mulher imensamente forte que passou por muitas coisas ruins como uma mãe opressora, a cobrança de ser a melhor cantora do mundo, o casamento sem amor e depois o amor que se casa com outra, o filho que é natimorto, as críticas pesadas da imprensa. Tudo isso pelo amor à música e ao seu público, que ela cultivava com apreço. A maior reflexão que me trouxe foi sobre a relação fonte-repórter

Callas cita, em vários momentos, sua relação de amor e ódio com a imprensa. Muitas vezes, jornais italianos e franceses usaram sua rixa famosa com a cantora Renata Tebaldi, para vender exemplares. E essa pisoteação fazia sucesso. Maria Callas não confiava na imprensa. Mas amava estar nela quando era ovacionada. Nem sempre nosso papel é destruir carreiras ou humilhar, mas revendo a situação dos jornais na época que Callas viveu, muitas vezes isso era serventia da casa. A cantora teve o azar de ver a imprensa em sua face mais grotesca.  

E, quando Callas diz à John que foi execrada pelos jornais porque "abandonou o espetáculo mais uma vez", com manchetes e letras garrafais, ela se vira para o amigo, e diz: "minha voz estava acabada, John". Na biografia dela, é contado que ela desmaiou de exaustão e pela dor da voz há muito perdida atrás das cortinas. Que se fecharam pra sempre.

Momento tietando a Silvia <3

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vivendo e aprendendo (no death metal)


O que eu aprendi no último sábado, quando cobri o show do Krisiun (RS) e de outras bandas de metal, em um bar de Campo Grande:

- Cuidado com seu equipamento de fotografia quando resolver se aproximar pra registrar os headbangers enlouquecidos. 
- O som é animal e você terá vontade de bater cabeça, então carregue o essencial.
- Fique amiga do técnico de som pra ele te deixar subir no palco e tirar fotos próximas. 
- Ingerir álcool deixa tudo mais divertido. 
- Seus amigos estarão lá, mesmo que jurem que não vão. 

E como diria o vocalista do Krisiun no ápice do show: "Metal doa a quem doer PORRA". Ou seja, foi lindo. Aguardem que vai sair no Rock do Mato. :)



terça-feira, 18 de setembro de 2012

As frágeis de Westeros

Conheci a saga As Crônicas de Gelo e Fogo por meio da série de TV, e me apaixonei imediatamente. Ansiosa e afogueada que sou, fui no dia seguinte à livraria atrás dos livros disponíveis, encomendando na pré-venda o indisponível e já olhando tudo quanto é site a respeito.

Essa semana comprei o quinto da saga que começa com Game of Thrones, menos aloka da livraria, porque tive uma certa dificuldade de achar. E também porque achei Festim dos Corvos (o quarto livro) incrivelmente lento.

Meninalyra em relacionamento sério com seu livro.

A saga de George R. R. Martin é extremamente violenta, ou assim eu classifico. E pra mim se aproxima muito mais de uma certa ~realidade~ medieval (excluindo-se alguns elementos fantásticos que dão o 'tchan' a mais). E são livros masculinos, onde muitos dos personagens são homens (quase todos). Porém, me chama atenção a incrível fragilidade das mulheres. E também sua incrível força.

Em Westeros, vigora a lei do fogo e da espada. Entre brigas de reis, banhos de sangue e batalhas, estão as mulheres. E elas são o fio condutor da mudança, do amor, e da coragem, mas também do ódio e da dor. Elas que sentem tudo, enquanto os homens tragam a terra em guerras vermelhas. E tem mulher pra todo tipo de perfil: tem a rainha Cersei Lannister, intolerante, ambiciosa, fria, mas que defende seus filhos como uma leoa. Daenerys Tangaryan, filha de reis e exilada, obrigada a casar com um guerreiro em troca de um exército, e que se torna a mãe dos dragões. Arya Stark, filha dos lobos, que aprende desde muito criança a sobreviver no mundo asqueroso da morte. 

Recomendo ler todos, e saborear cada trama que se desenrola no feminino da história. No poderoso e frágil. 





PS: Alerta de spoiler
A cena em que Daenerys, em Tormenta de Espadas, lidera um exército de Imaculados, me tirou o fòlego. Bem como o trecho em que Arya Stark foge das ruínas de Harenhall, aos 12 anos, matando homens em seu caminho com a espada fina e afiada, Agulha. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Pedaços #2: Dos medos e delírios, ao sr. Hunter S. Thompson

Eu admito que fugi de você, Hunter. Por tempo demais.

Me perdoa, mas é que eu fiquei com muito medo de desejar tão ardentemente viver o jornalismo da forma que você viveu, a ponto de ver minha vida ser completamente frustrada com a impossibilidade de assim simplesmente ser, porque as contas se acumulam, a velocidade do online desencadeia o caos da preguiça e da falta de confiança, de cuidado e de proximidade. É tudo tão envolto numa grossa camada de descrença que não se fazem mais reportagens diferentes, e a distância toma conta do jornalista. Ele é automático, já faz tempo. É assim que a gente sobrevive hoje. Eu queria muito viver só de escrever, e ficar um ano entre uma horda de motoqueiros lendários, como você fez em 'Hells Angels'. Ou queria sair por aí numa trip completamente insana da qual eu me lembraria por ilustrações do Steadman, como em 'Medo e Delírio em Las Vegas'.

Logo eu que sou só uma garota aleatória, de 23 anos, formada há pouco na escola e não na rua. Enquanto eu engatinhava, há décadas você havia estado entre os estandartes alados da avalanche de motos brilhantes.

E devo dizer, que concluindo a leitura desse quase estudo antropológico sobre motoqueiros foras da lei em 1960, que me senti nostálgica. Não pela obra em si, mas porque você estava nela. Você explicou várias vezes que depois de um tempo, 'não sabia se era você que pesquisava sobre eles, ou se estava sendo por eles lentamente absorvido'. E não existia medo de contar seus próprios delírios no enredo, e, em momento nenhum, deixou de ser uma reportagem. Você saía do estado de imparcialidade amarelada e quebradiça, e nos trazia uma nova visão de mundo. A humana. A que erra e sangra. Que treme, e principalmente, participa.

Obrigado, sr. Thompson. Pelos medos, pelos delírios, pela carona na garupa da moto de um hell angel, pela grande caçada aos tubarões, pelas viagens de LSD, pelas noites em claro. Obrigado por me fazer querer dar uma volta no lado selvagem, por ter criado o gonzo e o gozo nas letras.

E principalmente: obrigado por romper todas as barreiras.