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segunda-feira, 4 de maio de 2015

O que a gente come é (também) o que a gente é

Eu tenho pensado muito a respeito da minha relação com meu próprio corpo, assim, do jeitinho que ele é: costas largas, sobrepeso, coxas grossas, barriga saliente, pescoço com dobras. Eu nunca tive problemas graves com meu corpo, os outros é que sempre tiveram. Claro que às vezes eu pensava: não vou usar essa blusa aqui porque marca a barriga. Mas no geral, eu realmente penso que a vida pode ser um pouco mais do que isso. E sempre foi, ao menos pra mim e pra muitas amigas queridas minhas que também estão acima do peso, sofrem preconceito mas tão nem aí pra isso. O recalque bate na minha dobrinha e volta, queridos! 

Já fui xingada de gorda? Já. E de outras coisas também, mais ofensivas até. E que mulher não foi xingada de: insira aqui qualquer coisa. Sim, qualquer coisa. Se você não é gorda, você "não tem onde pegar e uzomi gosta de carne". Não existe ideal dentro de um espectro onde NADA é ideal caso você seja mulher. Você pode ser branca, hetero, magra, loira, alta, e ainda sim a sociedade vai achar um defeito em você, fica sossegada. Nem que seja apenas pra te chamar de vadia. Mas eu divago.

Tenho refletido muito sobre como era minha alimentação há cerca de uma semana atrás: comendo rápido pra voltar pro trabalho, sem sentir a comida e o sabor dela, almoço no refeitório do jornal que por vezes incluía carnes boiando em óleo (não tô brincando). Muito arroz branco, macarrão e nenhuma fruta, no máximo uma vez por semana. Fast food, comer fora, nenhum cereal. Chegava em casa da rua esfomeada pelas horas que ficava de jejum então fazia o que tava na mão mais rápido: fritura. Comida processada. Mais macarrão. E de manhã saia sem tomar café da manhã. No trabalho enchia a cara de café preto e comia no máximo um salgado. E assim por diante em loop. 

Sabe o que eu tinha todos os dias? Refluxo. Gastrite. Não aguentava subir direito a escada do trabalho mais de uma vez. Dor no joelho que tem a rótula fraca.

Eu sempre gostei muito de várias comidas legais tipo legumes e verdura. Nunca foi problema comer salada, inclusive eu gosto muito. Então decidi, de uma vez por todas, não mudar minha relação com meu corpo, que é meu e de mais ninguém. E sim mudar minha relação com a comida e com o exercício físico. Por mim, pra me sentir mais saudável, pra sentir melhor o sabor das coisas, pra valorizar o que entra no meu organismo, pra consumir e ser responsável comigo mesma.

Pra uma pessoa que nunca tomou café da manhã na vida com regularidade, está sendo uma luta genuína. E estou fazendo de tudo, e sei que ainda posso melhorar.

Minha rotina mudou completamente há apenas 7 dias e sei que isso é um compromisso pra vida toda, o de não abandonar minha saúde. Não importa se eu vou emagrecer. Importa se eu vou parar de ter refluxo. Não importa quantos quilos vou perder porque isso só vai ser uma consequência de uma melhoria nessa alimentação trash. A maior causa vai ser comer melhor e movimentar meu corpo. Eu não aceito que, querer ser saudável, seja uma porta de entrada pra gordofobia.

 Hoje eu chego em casa depois de um expediente duplo em dois empregos, cozinho arroz integral, feijão, legumes, carne sem gordura, tudo no azeite e pouco sal. Peso a mão no manjericão, na pimenta, no alho, porque além de tudo precisa ser saboroso e prazeroso. Monto duas marmitas que vão me acompanhar, mais os lanchinhos pra aguentar o dia sem sentir fome e sem deixar o estômago se remoendo, a ponto da gastrite colar junto. Saio de casa carregada de sacolas, uma de roupa de malhar e outra de comida.

Acordo cedo, sento e como, venho trabalhar mais disposta. Tento respeitar os horários de comer e de uma vez por todas, saborear o que estou comendo. 

Não tem sido fácil mudar bruscamente um hábito de uma vida. Mas no meu corpo mando eu. E na minha saúde também. 


Almoço maravilhoso: eu que fiz <3

quinta-feira, 5 de março de 2015

A publicidade brasileira não se garante

No dia 12 de fevereiro, a Revista Fórum publicou um artigo sobre a última publicidade machista do mês: das sopas Vono. Essa semana a discussão toda estava ao redor da propaganda da Always onde Sabrina Sato comparava o “vazamento” da menstruação (quem nunca?) com o “vazamento” de vídeos íntimos na internet. Só que nunca.

As pessoas ficaram bem bravas. E com razão. Entre outras questões, a propaganda fez o que tem sido feito no Brasil à exaustão: culpou a vítima.

Eu trabalhei dois anos numa agência de publicidade e jornalismo, mas as redações eram juntas e hoje eu trabalho diretamente com um publicitário. Sempre admirei o trabalho dos diretores de arte, redatores, mídias e atendimentos. Acho um trabalho tão árduo quanto o de muitos jornalistas que eu conheço. Por isso eu aprendi o seguinte: publicidade machista não é culpa só da agência de publicidade.


Uma campanha passa por NO MÍNIMO três pessoas: o atendimento, o diretor de criação e o cliente. Isso se a agência for pequena. Em grandes agências  deve passar por umas 30 pessoas. Mas o fato é que existem conceitos a serem mudados de todos os lados. A agência precisa se despir de machismo e preconceito na hora de criar ou sugerir uma campanha e precisa sim pensar no impacto negativo que isso vai ser gerado depois que ela for ao ar. Hoje a internet não poupa ninguém. Mas o cliente precisa entender que publicidade burra e preconceituosa muito mais atrapalha do que ajuda.

No Brasil, a publicidade não se garante. E é por isso que propagandas de cerveja com mulher seminua continuam sendo feitas. Não é porque vende. A publicidade tem medo de deixar a campanha padrão-machista de lado e investir em outro conceito e fracassar. Mas o que ela não percebe é que essa falta de coragem já é um fracasso por si só.

A publicidade tem poder de emocionar, de tocar, de abrir horizontes e de despertar emoções. De fazer rir mas também de incomodar. E mesmo assim as mulheres continuam sendo meros objetos decorativos e sexuais. Isso quando a propaganda não faz apologia à dominação e ao estupro. Em um mundo onde uma maioria esmagadora de consumidores é do gênero feminino e onde os índices de violência feminina são alarmantes, a publicidade continua tendo medo de empoderar as mulheres.



Um trecho muito pertinente do artigo da Fórum sobre a propaganda da Vono: "Aliás, falar na linguagem do capitalismo às vezes é a melhor alternativa que as mulheres possuem para que sejam ouvidas. Afinal, mulheres também bebem cerveja, compram sopa em pó, consomem e pagam por produtos e serviços. Em muitos casos, as mulheres ainda são responsáveis pela feira da semana ou do mês e são elas que se deslocam até supermercados para escolher o que vão colocar na mesa. Parece lógico, mas no mundo da publicidade, só quem recebe o devido respeito é o público masculino, em detrimento das mulheres, que são constantemente hostilizadas e agredidas em propagandas misóginas".

Se o mundo é metade feminino, porque a publicidade brasileira é tão machista? Se nós consumimos cerveja, porque estamos nuas nas propagandas? Porque somos vendidas como meras donas de casa ou objetos sexuais segurando uma garrafa? Porque, meus queridos, a propaganda é a alma do negócio. Enquanto a publicidade vender que somos seres inferiores, tem muita gente que vai acreditar e continuar alimentando o monstro do machismo. Simples assim. A publicidade tem medo das mulheres.

Isso só mostra que estamos no caminho certo. Mas ainda existe muito a se fazer.

Outros links pra se ler: 
Dez propagandas históricas machistas
Mídia Feminista
O machismo que impregna a propaganda

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

"Rock de Menina"

De vez em quando eu desapareço do blog porque minha escrita trava, como eu já expliquei pra vocês aqui. É uma tarefa muito árdua pra mim, às vezes, escrever, porque meu ganha pão é esse e o desafio é não me perder nesse emaranhado de letras. Eu passo o dia inteiro escrevendo. E quando quero escrever, me faltam palavras. Mas não desistam de mim. 

Hoje fiz uma descoberta musical daquelas genuínas e por acaso. Me perguntaram se eu conhecia Far from Alaska. Coloquei no Youtube e senti uma formigação dentro do estômago, maravilhosa, como há muito tempo não acontecia. 

Ouvi essa música. Um vórtice de pensamentos e lembranças aterrissou sobre a minha cabeça. Meu deus. 

Que força, gente. Que força. 

Procurei sobre a banda e descobri que eles são de Natal (RN), brasileiros. E fui ouvindo a música mais e mais e lembrando de como era ter banda, das bandas de metal que eu tive. Deixando a música FODA de lado, me identifiquei com a moça vocalista. Uma vez reclamei de ter dificuldades em encontrar bandas de stoner rock com vocais femininas, e taí uma delas pra me tirar o chão. 

Emily, não te conheço, mas já te amo. Sua voz não só me impressionou como me senti sob os seus ossos nesse vídeo. Uma garota de camiseta, jeans, sem maquiagem, gritando letras fortes e irônicas. Sem ser objeto, sem ser necessariamente magra, loira, cantando dilemas de amor e falando de namorado nas músicas, porque ela fala sobre o que ela quiser, usando a ironia que quiser e os palavrões e o idioma que ela quiser. Porque é isso que a maioria dos roqueiros de plantão acham que mulher tem que fazer no rock: cantar letrinha babaca sobre algum macho, provavelmente com uma voz fina e infantil. Porque mulher que canta grosso (como eu cantava), não pode ser levada à sério. Wait, shut! 

Quando eu tinha  16 anos, tinha uma banda que tocava som pesado e fazia cover de bandas de metal femininas gringas. A gente foi tocar em algum buraco da cidade e lembro que eu usava um shorts largo, uma camisa preta, bota e aquele cabelo batendo nas costas. Eu tocava uma guitarra preta flying v, e aquele era meu momento de gritar e berrar em gutural. E na banda tinham outras duas meninas. E lembro de estar encostada em um pilar esperando nossa vez de de tocar e ouvi um diálogo: "aquela que é a vocalista? isso aqui não é show da Sandy não", disse o ~headbanger~. 

Lembro que subi no palco e abri o maior gutural que consegui. Virei pra ele, entre uma segurada de palheta e outra, e mostrei o dedo do meio. 

Foda-se você, seu machista. O choro é livre porque as mulheres vão continuar nadando contra a maré social desse mundo misógino. Se conforma. Aqui vai meu gutural pra você. 

E Far From Alaska me trouxe toda essa sensação de volta. Um dedo do meio entre as seis cordas bem grande pro machismo. 

We rock, girls. 

She says, "I gotta tell you my story, man
The right story, man"
(Because yours is a lie)
Wait, shut, I gotta tell you my story, man
The whole story, man



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Se você não brilha venha e pague minha luz

- Olar, eu me chamo Daiane, conhecida nas redes sociais por menina lyrinha, tenho 25 anos, sou jornalista e moro sozinha. 
- Sozinha? você é casada então, né. 
- Não não, só moro sozinha. 
- Mas como?
- Morando uai. Eu e minhas duas gatas caipirotas. 
- Mas porque? 
- Porque eu gosto, sempre quis ter meu canto. 
- Brigou com seus pais?
- Não, só gosto mesmo.
- Gosta de ficar sozinha?
- Sim, adoro. 
- Mas você é muito nova. Seus pais moram em outra cidade, veio pra estudar?
- Não, eu trabalho e pago minhas contas, meus pais moram aqui em CG mesmo. 
- Mas porque você saiu então, se mora na mesma cidade?
- Porque eu quis uai. 
- Mas... mas... mulher nunca sai de casa, só sai pra casar. 
- Quem disse isso?
- Todo mundo sabe. 
- "Todo mundo" machista, né? 
- Er... pensando por esse lado... acho que sim. 



Tô aqui lavando a minha roupa no meu tanque cujas contas eu mesma pago sem casar e sem lavar cueca de marido, tomando meus bons drink de perna pra cima com meu pijama furado de gatinhos na minha sala, falous valeus sociedade!

Porque é tão difícil entender que mulher pode fazer o que quiser?




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Das opiniões sobre o meu corpo que eu nunca pedi

Esses dias eu estava comentando com a minha irmã que queria fazer uma tatuagem imensa no braço. E ela respondeu: eu preferia que você fosse pra academia cuidar da sua saúde. 

Eu fui pra academia a um tempo atrás e o instrutor disse que eu estou muito acima do meu peso ideal e me recomendou várias atividades e musculação. Fiquei uns dois meses malhando mais ou menos 2 horas por dia. No mês seguinte viajei e a academia ficou de lado. 

Quando eu malhava, fiquei com dor no corpo todo every fucking day, e a instrutora de musculação me deixava puta da vida. Primeiro porque era grossa quando eu pedia alguma ajuda pra ajustar um aparelho ou algo assim. Segundo, uma vez eu tava puta da cara levantando peso com as pernas e pedindo mentalmente pra Jesus me levar e ela disse "como ce é mole! vai gordinha". 

Como ce é mole. Vai gordinha. Vai gordinha. 

Sim, porque eu estava me sentindo ótima naquele momento e de certo a mulher tinha alguma intimidade comigo pra vir me chamar de molenga and gorda. Ok né? Não. Desanimei total e larguei a academia no terceiro mês. Meu peso não mudou muito desde então, mas muitas vezes fiquei indo e voltando nos meus pensamentos a respeito do meu próprio corpo. Meu. Corpo.

Há uns meses atrás escrevi um texto pro blog onde eu enaltecia a frase: "meu corpo, minhas regras", em que eu dizia com várias palavras que me amava como sou. Agradecia a uma pessoa por ter me ajudado com isso. Algum tempo depois decidi fazer academia. Fiquei amargurada com tudo e não postei esse texto até hoje. 

Eu vejo posts da Tess Munster e fico encantada. Ela é tão linda e tão estilosa e eu penso, nunca vou ser assim, me vestir desse jeito. Vejo postagens de gente chamando a amiga de gorda e de homens menosprezando mulheres com dobrinhas e  dizendo que vestir 44 é ser plus size. Não gente, não. 

Aí paro e penso na minha própria vida. Eu sempre fui grande. Quando era magra na adolescência (pq eu me achava gorda mas hoje sei que eu não era) as pessoas me notavam mesmo com as enormes tentativas de sumir atrás de uma cortina de cabelo. Eu tenho as costas largas, 1,69 m e calço 40. Eu nunca fui um padrão, nem serei jamais. 

Me pego pensando que tenho vontade de voltar no tempo e pegar a minha "eu" atual, que conhece o feminismo e que aceita o próprio corpo muito melhor e levar pra dar umas lições nas pessoas que vieram falar groselha sobre o meu corpo. 

Viagem no tempo 1:

- Eu aos 17 anos, indo tocar com a minha banda em um bar. O show tinha sido contratado por telefone e orkut. Na época, o baixista da banda era meu namorado. O cara que contratou o show me contactou pelo perfil no orkut (sdds). Quando chegamos no bar, eu sentei num banco e fiquei tomando umas esperando começar. Esse produtor sentou do meu lado e ficou conversando bobagem. Aí soltou: "Eu pensei que você fosse mais magra". 

Primeira reação foi pensar: -q. 

Segunda reação foi ficar com vergonha pensando "tô enganando as pessoas?". 

Minha eu atual chega e fala: "Amigo, veja este bar, está cheio de gente e ninguém te perguntou nada do meu corpo. Eu não te conheço, não te dei direito de achar nada a meu respeito. Flw Vlws". 

Viagem no tempo 2:

- Eu há dois anos atrás sentada num bar com meus amigos, chega meu ex-namorado com quem fiquei oito anos e sua atual namorada. Fui indiferente e continuei me divertindo, por motivos de que terminamos brigados e fazia quase dois anos que tudo tinha acabado, a vida segue afinal. No final da noite chega o garçom com um bilhete da menina pra mim, que ela deixou com ele e foi embora. E ficou ligando no bar pro cara entregar (que rolê imenso só pra entregar um bilhete). O bilhete dizia: "ele é meu sua gorda recalcada"

Primeira reação foi pensar: -q

Segunda reação foi ficar com vontade de jogar a mesa na cara dela, mas a garota não estava mais lá. Ela foi medrosa o suficiente pra entregar o bilhete e ir embora. 

Terceira reação foi ficar com pena dela por achar que eu ainda queria alguma coisa com um ex que eu realmente nunca mais tinha conversado na minha vida. Fiquei sem entender porque eles se importavam tanto comigo se eu jamais falei com ele depois do fim. Bateu um conflito. 

Minha eu atual chega e fala: "Garota, primeiro de tudo, meu corpo é meu e só meu e não entendi qual seu problema com ele. Tô agredindo seus olhos com a minha gordura? vira o rostinho pro lado minha querida! Segundo, mano, quem saiu do lugar pra mandar bilhete feito uma criança de cinco anos foi você e não eu o que demonstra o recalque real. Terceiro, fica pra você esse aí fia, e aceita que dói menos, vlws flws". 

Esse cara e essa mina, o que eles tinham em comum é o problema com o meu corpo. Um problema que  eu vou continuar lutando não pra ter. Não importa se eu emagrecer, pintar o cabelo, se eu engordar. A minha luta vai ser pra que ninguém se ache no direito de exprimir sobre mim, o que eu faço e como vivo, e quem eu sou, sua opinião sem consulta. E eu vou morrer lutando pelo direito de ser quem eu quiser. 

Flw, vlws. 








PS: A., aquela agradecimento do post nunca publicado é real. Obrigada. 





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A mulher jornalista

Na última sexta-feira (24), fui uma das participantes da mesa redonda "Mulheres no Jornalismo: O que queremos" organizada pela semana de jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a simpática Semajor. Ao lado de outra jornalista com o perfil completamente diferente, tinha a missão de falar sobre o que é ser jornalista e mulher. Pois bem. 

Rasguei o protocolo quando abri a fala dizendo que não dá pra falar sobre ser jornalista e mulher se a gente não discute quem é a mulher na mídia brasileira e quiçá mundial. Como vamos falar sobre o que é ser mulher dentro das redações, se dentro e fora delas, a gente ainda sofre desgraçadamente com um machismo que impera pras jornalistas ou não? impera pra todas nós?

As mulheres representam mais de 60% dos profissionais hoje dentro da área de jornalismo, entre assessorias e veículos de comunicação. Mas uma pequena parcela dessas mulheres está em um cargo de chefia. E a maioria esmagadora ganha menos que os colegas no mesmo cargo. 

A pesquisa detalhada foi feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e você pode checar em detalhes aqui. E o mais triste é que ela foi fazer um mapeamento do perfil do jornalista brasileiro e voltou com essa triste constatação de que, em mais uma área, a mulher é muito menos valorizada do que devia. E que o perfil do jornalista brasileiro é, pasmem, a jornalista brasileira. Citando a própria pesquisa: "(...) os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos". TÃ DÃ! (vinheta do Law & Order). 

Quando essa pesquisa veio à tona, o impacto foi mínimo mesmo a informação sendo incongruente: 1. Tem mais mulheres nas redações. 2. Elas não ocupam cargos altos e ainda tem salários menores. Chorei largada na cantareira. 

Mas muito além disso, o que mais me incomoda é como tratamos as mulheres na mídia. Quer dizer, o que publicamos sobre nós mesmas, sobre nosso próprio gênero. E foi sobre isso que falei na mesa, sobre as três vertentes da mídia machista: A "Musa" de qualquer coisa (insira aqui um grande evento brasileiro, principalmente esportivo. Apenas aguardando as ~musas das olimpíadas~). A reportagem "Por ciúmes, homem mata a esposa" (vamos começar a produzir matérias "por fome, ladrão rouba supermercado" aí por favor?) e a matéria do "suposto estupro" quando tem a palavra flagrante no mesmo parágrafo. 

Se sutilmente a gente massacra a mulher no nosso discurso jornalístico cotidiano, entre pautas e leads, vai ser diferente com a mulher jornalista? como discutir a vida dessa profissional (essa cara sou eu) se enquanto mulher, enquanto membro de uma sociedade, sou desvalorizada o tempo todo única e exclusivamente pelo meu gênero? 

É por isso que precisamos analisar nosso discurso sendo essa mulher jornalista. Sendo essa profissional que tem o poder de escrever o cotidiano das pessoas em qualquer mídia que seja. Mas nosso colega jornalista, aquele que ainda ganha mais do que a gente, também precisa. Vamos analisar nossos julgamentos pessoais sobre as matérias que a gente escreve. "Olhar sensível" das mulheres sobre a pauta não existe, a gente é treinada desde criança pra achar que tem que ter esse olhar. Mas o olhar crítico todo mundo pode ter. 

PS: Seu machista, pega aqui na minha pauta e balança! Olhar sensível é o deadline da sua cara! risos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Minha e nossa Cidadela


Há três meses atrás eu não fazia a menor ideia do quanto a gente pode fazer um pouquinho mais pelo que acreditamos. Foi quando a Sybylla e a Aline Valek me convidaram para um projeto um tanto inusitado: escrever Ficção Científica Feminista

Mas ein? 

Não tenho nem como explicar isso melhor que a Sybylla, vejam aqui

O caso é que unimos forças, dez autores e autoras com um único objetivo: escrever contos onde a mulher fosse destaque. Quem gosta de FC sabe que, muitas vezes no gênero, a gente não passa de objeto decorativo. 

O desafio: criar protagonistas que lutassem contra sexismo, homofobia, racismo, misoginia. E mais, que interagissem de forma justa, igualitária. Que fossem reflexo do que acreditamos na vida real. 

E foi árduo. Eu comecei com uma ideia, mudei tudo, voltei ao início, pedi socorro à Sybylla. No final, meu conto, "Cidadela", fala sobre uma coisa que sempre me incomodou. Além das outras questões que a gente aborda - a falta de tutela da mulher sobre seu corpo, opressão, preconceito - eu quis juntar não uma, mas duas protagonistas. A vida inteira eu tive mulheres que me foram muito importantes, minhas amigas, em quem eu confiava. Então para mim sempre foi estranho me dizerem que amizade entre mulheres não existe. Existe, sim. Chamar a colega de puta, criticar as mulheres por qualquer postura, achar que não se pode confiar em uma mulher - apenas por ela ser mulher - é uma visão impingida pelo machismo. 

Por isso concebi duas personagens centrais.

Irina é a primeira. Ela é uma mulher oprimida por um sistema que domina tudo (sim, meu conto é uma distopia). Ela é violentada de todas as formas possíveis, jogada ao vento, descartável como muitas mulheres são.

Luisa é a segunda. Ela nasceu em berço nobre, mas seu lugar é a rua. É uma guerrilheira capaz de lutar, de ser invisível ou grandiosa quando quer. Elas percebem, durante a narrativa, que a única forma de vencerem é se unirem. E elas fazem isso naturalmente, porque são mulheres. Sem julgamento. Sem desconfiança. E é a união delas que vai mudar tudo.  

Então pra você conhecer esse e mais nove contos (que nossasinhora, me fazem ficar arrepiada até hoje), basta clicar aqui: Universo Desconstruído. Dá pra baixar em diversos formatos, e de graça, apenas com o PagSocial! Ah, e dá pra comprar o livro via Clube dos Autores! não é lindo? aliás, a ilustração também tá de arrepiar. 

Tô realmente muito orgulhosa de ter feito parte disso. Espero que vocês também fiquem. Luisa e Irina agradecem. :)

PS: Algumas meninas feministas no twitter pontuaram que, ao escrever Ficção Científica Nacional e Feminista (tudo em caixa alta, veja bem), a gente "despolitiza" a causa. Não respondi porque não tenho mais twitter. Só queria dizer que ela entendeu tudo errado. A gente quer é começar com a prática, mesmo. Quer mais autores, mais debates, quer desconstruir um universo masculino e fomentar boas discussões. Por isso, para essas pessoas que olham com desdém, leiam a coletânea antes de falar qualquer coisa. Ou esse post da Sybylla.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Guest post: Machismo para Iniciantes

Há um certo tempo, instalei o Google Analytics para conhecer o perfil dos leitores do blog. E eis que um pouco mais de 70% de quem acessa é aqui da minha cidade, Campo Grande. Acredito que os meios de divulgação que uso dos posts (Facebook e Twitter) direcionem pra isso. Sim, eu não divulgo tanto meu blog. É um exercício muito pessoal o que faço com isso aqui, e mesmo assim, às vezes o alcance é inesperado.

Na semana passada, o post "O estupro que não está longe" teve uma repercussão inusitada. Muitas pessoas se aproximaram de mim para conversar sobre o assunto, inclusive uma moça que estava na festa onde aconteceu o crime, o que inclusive me fez colocar um update na postagem. Então veio um comentário no dia seguinte. Um leitor(a) anônimo disse, entre outras coisas, o seguinte:

"(...) mas é igualmente irreal pensar que possuímos uma cultura em massa que apregoa tal prática. Se essa ideia fosse verdade, viveríamos em sodoma ou gomorra onde isso seria normal e socialmente aceito. não é o caso. Culpar cultura (ou o seu próprio fantasma generalizado do que ela é) não tem resultado prático algum. essa merda só aconteceu porque a organização da festa que não deixou seguranças no estacionamento e o poder público que não fez policiamento ostensivo (...) . Sempre a mídia divulga esse tipo de ocorrência como fatalidade, mas é só consequência da eterna irresponsabilidade do setor público/privado, e da inércia das pessoas que não fazem nada para cobrá-los".

Eu vi que esse comentário havia sido uma resposta a um comentário da Sybylla, amiga e leitora, que falou, entre outras coisas, da cultura do estupro. Então, olhando o Analytics me veio a dúvida: será que as pessoas que me cercam aqui, no meu cotidiano físico  realmente pensam que não há a cultura do estupro?

Pensando nisso, pedi à Sybylla que escrevesse mais sobre isso, de forma abrangente e livre. Ela pontuou tudo o que elenca o machismo. No comentário do leitor(a), ele culpa terceiros, o sistema, a falta de policiamento ostensivo, a mídia, pelo estupro. Mas e os estupros que acontecem entre quatro paredes? é falta de policiamento ostensivo? será que estamos nos esquecendo do sentimento de posse que todo homem  é incitado a ter sobre o corpo da mulher como indivíduo desde muito cedo? e o fato de ser culturalmente aceito culpar a vítima?


Quando li o comentário do leitor, lembrei de quando eu tinha 12 anos e pulava carnaval em um clube aqui da cidade. E que quando eu passei no meio de alguns garotos, um deles me agarrou e puxou meu cabelo com força. Eu resisti e fui empurrada, cai no chão e bati o braço. A culpa era minha, de estar na festa? da minha roupa, do meu corpo? de ter passado ali? do segurança da festa que não estava presente no momento? ou do garoto que simplesmente pensou, por alguma distorção social, que tinha direito de tocar meu corpo sem meu consentimento?

Eis então o texto da Sybylla. Aviso que é uma pedrada pra quem insiste em dizer que nada disso é real. A visão dela é crítica e sem meias palavras. Obrigada Sy!


Machismo para iniciantes
Por Sybylla.

Eu percebi que é muito difícil falar de feminismo porque as pessoas em geral tem conceitos distorcidos já estabelecidos na mente e simplesmente não escutam, não pensam e tampouco entendem o que ele quer dizer. Assim achei mais fácil para este guest post falar sobre o machismo e quem sabe assim mostrar o lamaçal no qual todos nadamos.

O que é machismo?

Machismo é toda uma cultura enraizada na sociedade patriarcal que diz que o homem é superior à mulher e à mulher cabem determinados lugares e ocupações na sociedade, mas não todos, porque não é digno para a mulher fazer certas coisas. É ele quem produz as manchetes absurdas que vemos todos os dias como violência contra a mulher, contra gays e transsexuais.

É o machismo que mede tamanho da saia, profundidade do decote, intensidade da maquiagem para enquadrar uma mulher como vadia ou não. É o machismo que diz que mulher não pode gostar de sexo, que para ser boa para casar tem que ter namorado pouco, mas que na cama deve saber chupar e rebolar gostoso. Ele diz que mulher não pode viver sem um marido, não pode rir alto, sentar de perna aberta, usar roupa curta, marcada ou colante, tampouco sair à noite, sair sozinha ou ir para a balada.

O machismo faz vítimas, pois para ele tudo o que não seja viril e vinculado à imagem do macho é digno de escárnio, de violência, de incompreensão. Basta ver como xingamos uma pessoa. “Ô, filho da puta!” Não xingamos a pessoa em si, mas xingamos a mãe dele que, opa, é mulher! Ou então a gente fala “Para de viadagem, mano!” E por que isso? Porque qualquer comportamento afeminado em um homem é feio. É o mesmo princípio que norteia a ofensa “Para de ser mulherzinha!” De novo, para o machismo, tudo o que se refere ao feminino é feio e inferior.

Mas nem tudo, né gente? Afinal de contas, o machismo adora mulheres nuas nas capas das revistas. Ou seja, o machismo diz como as mulheres devem se vestir e a como tirar a roupa. Ahh, mas tem regras. Você só pode tirar a roupa se for gostosa, pois se o seu corpo não estiver dentro do padrão que o machismo quer, você é baranga, caída, gorda e feia. Só que você não pode tirar fotos com o seu celular, pois aí você é puta. Não, nada disso, você tem que tirar a roupa para a revista para o machismo ver. Qualquer coisa fora disso e você é vagabunda que fica tirando fotos dentro da sua casa, do seu corpo e com o seu celular/máquina.

Uma das crias mais purulentas do machismo é a cultura do estupro. Essa cultura é derivada daquela outra lá de cima que gosta de medir o tamanho das roupas da mulher e que diz que se você não se encaixar em uma série de variantes, o seu estupro/abuso/violência/agressão foi provocado. Coitado do machista, ele não pode controlar seu impulso sexual e ataca uma mulher que está usando uma roupa que ele julga vulgar e a estupra, pois afinal, vestida assim, ela tá pedindo, né? O que é mais interessante de notar é que os estupros ocorrem em mulheres que estão vestidas com jeans, camiseta, saia, toga, camisa, casaco, boné, biquini, camisola, maiô, shortinho curto, bermuda, roupa de presidiária... Enfim! Parece até que a culpa do estupro e da cultura do estupro é do estuprador e do machismo, né?

É o machismo também que diz que mulher gorda e/ou feia deveria agradecer se é estuprada, pois afinal de contas, quem vai querer aquela mulher, que o próprio machismo diz que é feia, para transar ou ter algum relacionamento sério? E uma das coisas que o machismo também faz é gritar para os homens: “CALA A BOCA, QUE MENINO NÃO CHORA!” Porque chorar, ter emoções, amar, sentir tristeza, ter compaixão, falhar são coisas que o machismo não admite e se sucumbe à isso, você não presta.

É, gente, o machismo nos prende tal qual a Síndrome de Estocolmo. Pois tem gente presa ao machismo e agradece por ele existir, defendendo-o com unhas e dentes. E ataca aquelas outras ideias absurdas, como por exemplo, o feminismo, que quer reduzir as desigualdades entre homens e mulheres e que quer libertar todos nós de uma cultura castradora e punitiva.

                                  *** Sybyla é Blogueira responsável pelo Momentum Saga, feminista. Geógrafa professora da rede estadual de ensino de SP e mestranda em Geoquímica e Geotectônica. Fã do futuro, ficção científica e ciência."

Leia também (links recomendados pela Sybylla): 






terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mundo machista, apenas pare

Depois de dois episódios envolvendo reportagens machistas, da imprensa local aqui de Campo Grande, que tiveram comentários de mulheres e homens apoiando o senso comum que atrapalha a vida de todo mundo, e que critica a postura de quem defende a liberdade da mulher, eu fiquei me questionando: será que é tão difícil assim entender o que é feminismo?

Primeiro deixe-me explicar. O primeiro episódio era sobre um jornal daqui que sempre fez reportagens muito boas. Mas aí escorregou em uma matéria que falava sobre uma greve de policiais, colocando uma foto de uma policial bonita (tirada sem ela olhar) com uma legenda que reiterava isso, fugindo do assunto completamente. "Agente penitenciária chama a atenção pela beleza em movimento grevista". Quer dizer, qual era o contexto daquilo?

Eu e mais um monte de gente tentamos explicar que a moça não era objeto decorativo. Que ser feia ou ser bonita sendo policial, quem-se-importa? o corpo é dela, a beleza/feiúra é dela! E recebemos argumentos como: "Ela é linda! Se falassem que era feia iam chiar... E por favor, respeitem o olhar fotográfico! Essa patrulha "politicamente correta" está cada dia mais insuportável!!!" e "Nunca foi ofensivo para uma mulher ser bonita, e ser bonita não tira a inteligência e o profissionalismo de ninguém. Quem cogitou essa ideia, esse sim, me desculpe, mas está sendo machista e preconceituoso"

O segundo episódio foi o seguinte: outro jornal online publicou uma manchete dizendo "Com tanto gay na cidade, o que sobrou para as mulheres em Campo Grande?". Aí, já viu. Segue a pérola:

"Na mesa do bar, as três amigas solteiras só comprovam o que as mulheres há tempos vêm reclamando. Hoje em dia há tanto gay em Campo Grande que falta opção hetero para a mulherada. Antigamente, a reclamação era contra os cafajestes, que não queriam um relacionamento sério. Agora, o alvo é a turma gay. “Há anos tem muito gay na balada e, levando em conta que há mais mulher do que homem na cidade, claro que dificulta mais ainda a paquera e arrumar namorado”, comenta Viviane, de 29 anos."

Quando eu li essa reportagem (e não vou nem entrar no mérito da pauta em si), pensei: comentários machistas chovendo em 3, 2, 1. E não deu outra. Foi de "Em Campo Grande falta é mulher séria", pra "mulher em CG tá solteira porque que homem rico com carrão". Sério, nesse nível. 

A polêmica rendeu muito nas redes sociais, então a reportagem estragou a situação mais ainda publicando outra matéria: "Mulher campo-grandense é difícil de conquistar, respondem os homens". Outro 'primor' de comentário na matéria: "Para chamar a atenção dos homens, ele dá a dica “machista”. “Mulher tem que ser comportada. Tem que ter atitude diferente da que vemos na noite. Meninas bêbadas e rebolando até o chão”.

Não, você não leu errado. MULHER TEM QUE SER COMPORTADA. MULHER NÃO PODE SAIR A NOITE. NÃO PODE BEBER NEM REBOLAR. 

Eu sei lá de onde vem essa cartilha. Não, na verdade eu sei. Vem da mesma do estupro, do controle, do estado que manda nos nossos corpos. Corpo de mulher é terra de todo mundo, menos dela mesma. E o pior, o mais triste, o mais deprimente, é que isso não é falado nem visto. Ninguém é preso por ser misógino. Feministas são pintadas como loucas extravagantes que querem roubar o lugar dos homens. Não é nada disso, nada disso mesmo. 

Me senti cansada, exausta, usada. Como jornalista e como mulher. E o que mais doeu, além de tudo, foi a mulherada concordando com os comentários acima, muitas vezes defendendo todos eles com afinco.

Respirei fundo, e escrevi o que o nervosismo me permitiu na hora. Eis o que publiquei no Facebook depois disso:

"Cansei gente, de ver tanta publicação machista. Não é só o jornal não, é geral, e inclusive, muitas mulheres julgando as outras sem dó, porque se vestem de um jeito x ou fazem determinada coisa. Mulher é sempre pária, sempre "mal comida", "interesseira". 

Acham normal que a mulher não tenha autonomia de ficar com quem quiser, fazer o que quiser e ainda acham legal a mulher ser punida por causa disso. Cansei, cansei de mulher postando comentário machista e achando que o feminismo não te engloba, mas eis uma notícia, você é mulher! feminismo é a defesa do SEU gênero e existe pra defender o SEU corpo da tutela de outros! e pra garantir os SEUS direitos! 

Se você acha legal e concorda quando um homem diz que "faltam mulheres sérias", e que "mulher não pode beber nem ir pra balada pra se dar ao respeito", só te digo uma coisa: você pode achar que não, mas um dia o machismo vai te atingir. Porque toda mulher passa por ele, seja de forma velada, seja de forma direta. E um dia você vai entender e apoiar o feminismo, se tiver alguma sorte".

Então elas vieram. E alguma coisa, sabe, acendeu de volta. 

Da Sybylla:
"Mulher dizendo que odeia o feminismo cospe no prato que foi responsável por ela poder estudar, trabalhar, se divorciar, ter ou não filhos se quiser, votar, ser ou não dona de casa, casar ou não... Cansa demais mesmo ter que ficar explicando, explicando e explicando cada vez que surgem essas merdinhas de comentários. Pior quando ainda soltam aquela "não sou machista, mas..." Aí estragou foi tudo. 
Não se preocupe, linda, sua indignação é nossa também".

Da Daniela:
"Conversa longa...eu acho que é ignorância, de ignorar, de se deixar levar, sem observar o que realmente acontece a sua volta, não perceber nas entre linhas, e olha que na maioria das vezes tá escancarado o machismo e deixam passar batido!"

Da Suzana:
"Mulher machista dá nojo e me envergonha. mas, além disso, fico indignada com gente que se diz "esclarecida e mente aberta", mas no fundo conserva um machismo velado, que, vez por outra, vem à tona, a exemplo de homens (e mesmo mulheres) que "dizem" defender a igualdade de gênero (e não me atenho aqui às suas especificidades inatas), mas são os primeiros a julgar uma mulher solteira se ela for livre o suficiente pra ficar com quem e com quantos ela bem entender. pior que o machismo declarado é o machismo velado!!!! e tô cansada de ver esse tipo de postura de conhecidos e ex-namorados metidos a descolados. só acredito que nem tudo está perdido porque felizmente tenho amigos sensatos e inteligentes, que tem discernimento quanto a isso".

Obrigada, meninas, e também meninos (que curtiram e compartilharam o post). Ainda dá vontade de continuar, e é tudo por saber que vocês também acreditam. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As vítimas atacam de volta

Essa semana conheci um tumblr que me fez sentir calafrios. Porque o conteúdo dele é simples, mas ao mesmo tempo visceral. É o "Project Unbrekable", de uma fotógrafa americana, que registra vítimas de violência e abuso sexual ao redor do país, segurando placas contendo frases e quotes de seus estupradores e agressores. Porque fazer isso? Bom, são muitas razões: romper o silêncio que permeia a vida das pessoas que já foram abusadas, romper com preconceitos, chocar e tirar os leitores do lugar comum, e mais um milhão de razões. Abuso é um trauma pra vida toda, e o próprio projeto mostra que muitos abusos são realizados por pessoas próximas da gente. 


Para mim, são as vítimas se posicionando, mostrando o rosto e dizendo "Toma sociedade. Chega de silêncio". Algumas frases são muito tristes e chocantes, como a "The nurses who did my rape kit told me there was “more than enough evidence that I had been raped” yet the police who took on my case didn’t believe me. / I am a survivor NOT a victim" (tradução livre: "A enfermeira que me socorreu no estupro me disse que havia "mais de uma evidência que eu havia sido estuprada" ainda sim o policial que pegou meu caso não acreditou em mim. / Eu sou uma sobrevivente e NÃO uma vítima"). 

E as que descrevem as frases ditas pelos agressores, são ainda piores, porque denotam não só a crueldade e a banalidade do ato, mas também o machismo e a misoginia (quando da violência em mulheres) de cada violência, e a perversão por trás de conceitos sociais como a submissão da mulher. Porque por trás do "você tem o dever de satisfazer seu marido/namorado", existe um ódio profundo contra o ser feminino. A gente só que acha que é normal, mas não é. 


Quantas vezes, no nosso cotidiano, a vida é justa? E quantas vezes uma vítima de abuso consegue, de fato, lutar contra o seu agressor? quantas escapam e quantas se vigam, lutam de volta? Acho que nenhuma. Ou pouquíssimas. 

Eu sou contra violência. Mas sou um ser humano, dotado de características e defeitos. E eu gostaria de ver as vítimas lutando. Os sobreviventes lutando. Meio super-herói, meio enredo de filme. É por isso que eu gostei tanto do Project Unbreakable. A gente não pode fazer como Lisbeth Salander, amarrar nosso estuprador no chão e dar a ele o que ele merece, certo? mas a gente pode não ficar calada. Pode lutar contra misoginia, ensinar nossa família e nossos irmãos e irmãs que a vítima NUNCA é culpada. Que não importa a roupa que ela estava usando, nem se ela bebeu demais, porque beber e se vestir de um jeito x não é crime, mas estuprar é. Que não é direito passar a mão nas meninas na fila da balada. Que um marido não tem direito de violentar a esposa, que não é porque ela é casada com o abusador que aquilo não é violência. 

A gente pode trabalhar pra que mais leis como a Maria da Penha existam, pode ensinar nossos homens desde pequenos que a mulher não é propriedade de ninguém, que não existe crime mais hediondo que estupro. E eu, como jornalista, como imprensa, posso trabalhar para divulgar tudo isso. É minha obrigação cidadã, profissional. Meu compromisso como jornalista, defender e divulgar as mazelas daqueles que não tem voz. Porque a gente sabe o quanto a imprensa pode ser misógina e preconceituosa. E eu como parte dela, vou lutar contra isso. 

Ainda nesse clima, fiquei vidrada num clipe do Skrillex onde uma garotinha atrai um homem que visivelmente irá abusar dela até um porão, e usa seus "poderes" nele. Nem sou muito fã de dubstep, mas gostei da música. Também enxerguei referências muito minhas no enredo do clipe. Violência não é a resposta, mas que eu queria dar esses poderes à todas as vítimas do mundo, ah, isso eu queria.