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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma troca

A chuva tinha lavado a cidade um dia antes quando eu recebi, saindo do jornal, a seguinte ligação: 

"Dai, eu resgatei um gatinho sarnento. Ele está no veterinário mas quando ele sair, você poderia dar lar temporário a ele?", disse uma amiga muito querida. Aceitei sem piscar duas vezes. 

Minha casa tem exatos dois cômodos que o uso não é frequente: um banheirinho e um quarto de visitas, que uso pra guardar algumas coisas. Alguns dias antes, a Pan (minha gata mais velha) tinha sido diagnosticada com leucemia felina - a temida felv.

Pan

Chorei muito, me desesperei e fui obrigada a deixar a Pagu (a filhotona escaminha, gritona e carente adotada há seis meses) na casa dos meus pais. Pra quem não sabe, a convivência entre um gato negativo e um positivo para felv é altamente desaconselhada. 

Me senti a pior gateira do mundo ao deixar ela por lá, mesmo sabendo que ela seria muito mimada e amada pelos meus pais e pela minha irmã, doeu porque me senti irresponsável. Além disso, doía no peito saber que a Panci não viveria tanto quanto eu gostaria que ela vivesse, ao meu lado. 

Pagu

Eu não gosto muito de chorar. É uma fraqueza minha. Mas quando descobri que a Panci tinha felv chorei muito. Sim, por um gato. Porque ela é minha alma gêmea felina, nós estamos sempre em sintonia e eu fiquei de verdade mal com tudo. A Pan é a minha companhia mais frequente hoje, que está comigo a todo momento quando estou em casa. Partilhamos uma rotina, afagos, momentos de silêncio. Cumplicidade. Quando fomos examiná-la para felv ela agrediu três pessoas na clínica. Eu tive que entrar na sala e segurá-la. E com o som da minha voz ela se acalmou e permitiu que tirassem o sangue. Só a minha presença ali a acalmou. E só a dela me acalma.  

Então quando minha amiga pediu ajuda para dar abrigo ao Chuvisco, eu não tive como negar. Foi como se eu me sentisse em dívida. Ouvi muita crítica que aquilo podia perturbar a saúde da Panci, mas não tive como negar. E Chuvisco-Brie (eu chamava ele de queijinho porque ele é todo branco) chegou num dia quente com o rosto já melhor pela sarna que o desfigurou, porém totalmente careca. Ele estava irreconhecível. 

Chuvisco pouco depois do resgate

Nos 20 dias de LT que dei a ele, ficamos companheiros. Eu ficava várias horas com ele no quartinho. Obrigava ele a tomar um pouco de sol e via, pasma, ele abrir sozinho a trava da janela. Ele melhorou muito, ganhou peso e ficou mais bonito. Encontramos o lar dele, mas ele foi devolvido. Naquele dia, minha amiga e eu ficamos muito chateadas. Nos sentimos impotentes naquela missão que tomamos: ajudar um animal de rua. 

O primeiro banho com 1 semana lá em casa
15 dias lá em casa - bravinho porque coloquei ele no sol

Hoje Chuvisquinho está um pitel de gatinho, mora em uma casa com outros bichinhos de estimação e duas crianças que adoram ele. Fica escondido de dia mas de noite cola com a família e balança o rabicó peludo em busca de carinho e atenção. E ganha tudo isso de sobra, assim como devolve em dobro o carinho. 

Hoje, após sua adoção <3

Meu esforço em tudo isso, eu considero que foi mínimo. Eu dei a ele uma chance, só isso. Foi pouco? foi. Mas pra ele fez muita diferença. Assim como fez diferença pra mim o dia em que cheguei perto de uma gaiolinha de doação de gatos em 2008, e uma gatinha rajada e branca agarrou minha manga e fez: "pruuu". Foi o dia que conheci a minha Panpi

Jamais fui a mesma pessoa novamente. Esse tipo de coisa transforma a gente. Basta abrir um pedacinho do coração. Basta pensar "eu posso jogar isso nas costas dos outros. Ou eu posso, uma vez na vida, me responsabilizar". E eu não me arrependo nem um minuto de ter sido LT de um animal de rua. Eu o ajudei a curar machucados, lhe dei comida e um teto. E ele me ajudou a cicatrizar feridas e esquecer tristezas. 

PS: Panci está muito bem, por sinal. Hoje pediu muito atum e amassou muito pãozinho na coberta <3


quinta-feira, 19 de março de 2015

Escarlate não é vermelho

"Me ensine a ver as coisas
E todas as pistas estão, tão embaçadas, através
Escarlate não é vermelho"

Acordei com esse verso na cabeça. E ele não é meu. É de uma banda independente que fez parte de um jeito muito louco da minha adolescência: Torivas.

Me ensine a ver as coisas.

E hoje esse verso significa que eu tenho tanta coisa pra aprender na jornada. Mas agora é como se eu olhasse por uma janela e lá fora só fizesse neblina. Quando abri os olhos hoje e me lembrei desses versos, alguma coisa me incomodou. Talvez estar envelhecendo.

Vim procurar agora se essa banda ainda existia e não, não existe mais. Pararam de atualizar o Fotolog ainda naquela época. Mas ao ouvir os primeiros acordes de "Escarlate" um mundo de memórias veio na minha cabeça, de um tempo que eu não sinto exatamente saudades. Talvez de algumas coisas. Me veio um sentimento engraçado, de que eu vou fazer 26 anos. E eu quero gritar, tal qual eu gritava na minha banda, expurgando demônios a cada apresentação, independente de ter plateia.

Sei lá. Talvez esse loop em que eu me encontro de volta e meia relembrar um tempo que não volta mais seja uma parte do meu desabafo de finalmente estar do lado de cá, na vida adulta.


Me ensine a ver as coisas...







segunda-feira, 2 de março de 2015

Callas, essa maravilhosa

Há algumas semanas, o caderno que eu edito no jornal ficou em polvorosa com a chance de entrevistar uma atriz maravilhosa, diga-se de passagem: Silvia Pfeifer. Quem assiste ela na novela das sete como vilã, hoje, não imagina a simpatia que ela é. Uma pessoa centrada, acessível, que, como diz a minha estagiária Lua, ganha em todos os níveis de maravilhosidade. A Silvia veio pra cá pra estrelar a peça "Callas", baseada na vida trágica da soprano grega Maria Callas, que morreu nos anos 70. 

Resolvi ir assistir já antecipando que seria uma peça daquelas boas. E de fato, foi. A Silvia, incrível, o cenário extremamente elegante e bonito, iluminação surpreendente e sensível. Em quase uma hora de montagem, você tem a oportunidade de conhecer mais sobre uma cantora que fez história na ópera mundial, e que teve uma trajetória cheia de problemas pessoais e profissionais. 

Foto: Marcelo Victor

O enredo se desenrola, curiosamente, como se fosse uma enorme entrevista jornalística daquelas que só repórteres próximos à fonte fariam, já que, na sinopse, o jornalista John, personagem fictício, convida Callas para conhecer uma exposição que fará sobre ela e aproveita para entrevistá-la. Só que, nesse momento, a intensidade e a dramaticidade de uma história real acabam dominando a história. Em determinado ponto, John (o jornalista) vira o entrevistado pela curiosa Callas, que, nesses momentos, deixa a amargura pessoal de lado para fazer perguntas. Mas John foge e recomeça a tocar nas feridas dela. 

A peça me fez refletir não só sobre a história de uma mulher imensamente forte que passou por muitas coisas ruins como uma mãe opressora, a cobrança de ser a melhor cantora do mundo, o casamento sem amor e depois o amor que se casa com outra, o filho que é natimorto, as críticas pesadas da imprensa. Tudo isso pelo amor à música e ao seu público, que ela cultivava com apreço. A maior reflexão que me trouxe foi sobre a relação fonte-repórter

Callas cita, em vários momentos, sua relação de amor e ódio com a imprensa. Muitas vezes, jornais italianos e franceses usaram sua rixa famosa com a cantora Renata Tebaldi, para vender exemplares. E essa pisoteação fazia sucesso. Maria Callas não confiava na imprensa. Mas amava estar nela quando era ovacionada. Nem sempre nosso papel é destruir carreiras ou humilhar, mas revendo a situação dos jornais na época que Callas viveu, muitas vezes isso era serventia da casa. A cantora teve o azar de ver a imprensa em sua face mais grotesca.  

E, quando Callas diz à John que foi execrada pelos jornais porque "abandonou o espetáculo mais uma vez", com manchetes e letras garrafais, ela se vira para o amigo, e diz: "minha voz estava acabada, John". Na biografia dela, é contado que ela desmaiou de exaustão e pela dor da voz há muito perdida atrás das cortinas. Que se fecharam pra sempre.

Momento tietando a Silvia <3

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Dos diários e de um outro tempo



Quem eu era, há alguns anos. A menina que eu fui quando adolescente. Os diários que eu sempre escrevi. Tive um milhão de agendas, cadernos, livrinhos de desabafo. Eu sempre gostei de escrever pra desabafar. 

Desses milhares de diários, alguns cadernos ainda permanecem, que eu escrevi na adolescência. Eu sai da casa dos meus pais e não sei porque senti que precisava deles na minha casa nova. Não folheei nenhum durante a mudança. 

Todos os escritos são reticências de ser adolescente e ter um monstrinho de dúvidas e inquietações dentro de você. E como tudo isso se conecta à mim hoje, quando minha única concessão é escrever nesse blog, raramente, assumo, menos do que deveria. 

Desses cadernos e linhas e folhas de papel, o que sobrou de mim. Ontem a noite precisei abri-los e foi como abrir uma cápsula do tempo, o que na verdade eles são. E perceber que o ensejo não mudou. A música ainda é a mesma. Os desejos de adolescente eu tranquei numa caixa de chumbo aqui dentro. Mas eu não posso continuar mais negando que eles existem e eles já estavam lá naquela época. 

Eu já imaginei criar uma fogueira enorme com esses cadernos e queimar tudo, os canhotos de cinema, os desenhos, os recadinhos de amor e as letras de música. Já imaginei ver aquilo ardendo, queimando, meu passado e minha definição. Mas desisti. Ás vezes a gente precisa se encontrar um pouco. Aquela menina risonha e que funcionava à mil, eu não consigo mais acreditar que não sobrou nada mais dela. A gente não pode aceitar que se perdeu entre os numerais 15 e 30. Nossa idade. Nosso crescimento.

Março, esse mês que se aproxima, quando eu completo, no dia 31, meus 26 anos, sempre me faz refletir dessa forma. Sempre, como aqui. Fuçando nos diários como se fossem tábua de salvação, encontrei a data onde eu comecei a odiar aniversários, em 2004, a contabilizar o caos e a amargura não de ficar mais velha, e sim de me sentir mais frustrada, quando nada que eu imaginei aconteceu. É um sentimento ruim por tempo demais. 

"
Março chegou. Sempre que eu lembro do mesmo mês no ano passado, sinto um aperto no peito. Eu tinha tanta certeza sobre tantas coisas. Sobre o que eu era, o que eu queria e onde iria estar. Minhas certezas eram de ferro. E eis me aqui, vivendo outra vida, que em nenhum momento foi planejada por mim. Março me faz olhar pra trás, pra todos os dias 31 que já passei e lembrar com muita clareza desses planos que nunca floresceram. 
"

Eu disse em março de 2013. Não mais

Esse ano, prometo, vou deixar os diários e o mês de março em paz. E só assim vou sorrir com 26. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lar doce

"Casa" é a designação, o significado, a roupagem, o começo-meio-fim de um sentimento intenso de paz e sossego.

Para mim, e apenas para mim, é um todo palpável.

É um abraço que envolve seu corpo inquieto e que no momento do toque faz você transpirar calma de uma forma que você não pensasse possível.

É um momento de assistir televisão de pernas para cima, rindo de alguma coisa boba em um filme, onde não existem preocupações urgentes. É o cheiro de alho fritando na panela da cozinha enquanto pessoas queridas riem na sala.

"Casa" é chegar, abrir a porta, e uma felina se enroscar nas suas pernas te dando boas vindas com um miado fininho e alegre de saudade.

É você saber que cada coisa que está fora do lugar, na verdade, está no lugar que sempre deveria ter estado, porque tudo aquilo é você e seu lugar é ali. Apenas ali.

E tudo que te amargura e que te entristece deve ficar do lado de "fora". E quando você está ali na sua "Casa", você trabalha seus sentimentos de forma a criar aquela couraça pra lidar com seus medos quando pisar o pé lá "fora". Pra que, um dia, o "fora" não exista.

Só a "Casa".


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Alor mundo

A garganta doeu muito e parecia travada quando acordei hoje de manhã. Foi como se todo o peso de inúmeras coisas tivesse caído, finalmente, sobre o meu corpo. Mas como num mantra inquebrantável, a gente levanta, bate um cabelo pro lado, dá uma esticada nas costas (toma umas dose de tequila) e vai trabalhar. 

Pois bem, desabafo número um: tô saindo da casa dos meus pais. A conta matemática que resultou nessa decisão é bem simples: 25 anos de idade, um emprego ok, muita vontade de deixar várias coisas pra trás (agora é aquele momento que eu viro e falo "vamos beber que eu te conto". O dia que eu fundar o Bar da Lyrinha pfvr não reclamem). Tô juntando panelas usadas, armários de doação, coisas que as pessoas que me rodeiam não querem ou não precisam mais. Manda pra cá, realmente tô sem nada e aceitando o que vier. Passamos uma mão de tinta e pronto, ficará lindo na casinha. A casinha já existe, está tudo certo, apenas esperando eu levar a matula e o gato e começar a habitá-la. A mudança está prevista para a fatídica data de 13 de setembro. Já tenho até cafeteira que ganhei e fiquei muito feliz <3. Reflexão é que tenho pessoas muito fodas ao meu redor, e inclusive até geladeira e conjunto de pratos ~náuticos~ (sente o amor puro) eu ganhei. 

Desabafo número dois: amanhã eu tô indo viajar pra cobrir o Festival de Cinema de Gramado. Apenas um derradeiro comentário: será lindo. 

Desabafo número três: mesmo cansada e doente estou verdadeiramente inquieta. A vida anda meio doida por aqui. Doida e Doída. Chega o fim do dia eu penso na minha cama e no quanto quero dormir uma noite completa. Madrugada alta e meus olhos estão abertos no escuro. Eu devo funcionar ao contrário. 

PS: Depois de 4 anos trabalhando sem parar, setembro tô de férias. /tchorando de emoção.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Tempo de Felino

The animals, the animals
Trapped trapped trapped 'till the cage is full

A primeira vez que eu fitei as pupilas da minha cara-metade felina, a Pan, eu finalmente entendi. Ela se movimentava sem se encostar na grade da gaiola em uma pet shop. Ela andava na jaula minúscula de um lado pro outro atraindo minha atenção com seu corpo rajado lustroso, aqueles movimentos que o leão faz dentro da jaula quando se sente ameaçado, incomodado, nervoso. Me aproximei e ela também, a patinha metade branca cortou o ar e ela agarrou a manga da minha blusa. Isso foi em 2008. 

De manhã cedo eu abro os olhos e levo algum tempo pra despertar. E esse tempo do despertar é importante, é precioso. Eu não consigo aceitar que o despertador me acorde. Eu sou teimosa. Eu tenho meu tempo. 

Eu me sinto presa, enjaulada, acuada, quando esse tempo de assimilar as coisas que é muito meu - que pode ser um piscar de olhos como pode ser um dia inteiro, uma hora inteira, um ano inteiro - é tirado de mim. E ele foi, a vida adulta me tirou isso. 

Tem dias que eu me sinto o felino andando de um lado pro outro na jaula. Já tentou acariciar um gato quando ele não quer? ele tira o corpo do alcance da sua mão com toda a força que existe nele. Eu me sinto assim. 



Quando me cobram coisas que eu julgo não merecer, dentro da minha vida "pessoal", eu me sinto assim. E me aflora irritação e desprezo. "Você não responde minha mensagem". "Você disse que ia sair comigo e não saiu". "Você não me convidou". "Você devia trabalhar menos". "Você devia arrumar um namorado". "Você - insira aqui a sua sentença de algo que você achava que eu tinha obrigação e eu não tenho. Fecha aspas. 

The cage is full, stay away
In the darkness count mistakes

A vida adulta me judiou muito nesse sentido, e merecidamente, e eu não estava preparada. Eu acordava todo dia no piloto automático porque era assim que me sentia. Não sei bem dizer quando parei e pensei "nossa, eu sou adulta", mas eu me sentia sufocada e anulada ao mesmo tempo. Apanhei tanto que aprendi uma coisa muito lógica: separar a vida em responsabilidades inadiáveis e criar prazer nelas, do grupo das coisas que eu não sou obrigada. E num terceiro grupo eu agrego as coisas que eu desejo e faço a conta do que preciso pra chegar nelas. Parece lógico mas na minha cabeça é só um emaranhado de pensamentos e reações. 

É totalmente sem sentido, eu sei. Mas de alguma forma me resolveu e eu consegui seguir em frente e criar prazer nas necessidades, mas não, eu não sei lidar bem com a jaula. Nem com as jaulas que se chamam "carreira de sucesso", "contas a pagar", "amizades por ocasião", "amores vazios". Uma hora essas coisas cansam.

Taking steps is easy 
Standing still is hard

Aquele momento que o gato se ajeita sentado e lambe as patas, passa as patas sobre os bigodes lustrando-os com zelo e cuidado, mas de olhos fechados, aproveitando a sensação e a importância do gesto, esse instante é quando eu escrevo. Lustro os bigodes. Me mantenho longe da gaiola. E tento ser adulta por mais um dia. 


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Espacinho

Desde abril que não escrevo aqui. Fico encontrando motivos: o post que necessitava de fotos, a criatividade que não veio, a falta de tempo... e aí começo a pensar em novos blogs, novos espaços, outros projetos, outros escritos. E lembro que aqui, o mais básico e simples de todo, o meu Menina Lyra, tem faltado um certo zelo.

Eu havia escrito um post muito especial sobre a relação minha - e das mulheres que conheço, as de verdade - com seus corpos, mas talvez, por motivos que eu nem quero falar agora, talvez tenha que reescrevê-lo. O fato, é que eu voltei. E estava quase colocando as amarras de sempre em mim quando me dei conta e parei no último instante e pensei "preciso voltar às raízes".

O fato é que sempre que eu preciso desabafar, refletir, me expor e ao mesmo tempo me desconstruir, é nesse espacinho com esse template bobo e simples de um gato de óculos - é aqui que eu venho.

E eu voltei. Junto com as reflexões. Mais sinceras dessa vez.

Eu prometo. Pra mim mesma, aos mesmos. Ao menos.

*



Morreu Ariano Suassuna também. Fiquei triste. O sertão chorou feito Macondo quando Gabo se foi. O mais triste foi o jornalismo que matou ele antes da hora. As vezes eu me pergunto se escolhi a profissão certa ou se a profissão é que se perdeu na escolha. Mas isso é assunto pra depois. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um pouco mais de Frida, por favor

Cidade do México, 
14 de abril. 

"Por 50 anos, o banheiro do quarto de Frida Kahlo permaneceu trancado após sua morte, na casa onde hoje funciona um popular museu na Cidade do México. O espaço só foi aberto há dez anos, revelando diversos baús de objetos íntimos, como cartas, fotografias e vestidos coloridos. 

Enquanto as correspondências viraram livros sobre a artista mexicana, seu guarda-roupa e suas fotos vão aos poucos chegando ao público. "Ela usava estes vestidos tradicionais para fortalecer sua identidade, reafirmar suas crenças políticas e para esconder suas imperfeições", diz a curadora Circe Henestrosa. "Seus amigos mais íntimos contam como Kahlo tinha um cuidado especial ao escolher o que vestir, dos pés à cabeça, com as mais lindas sedas, laços, xales e saias". 

A exposição traz também aparatos médicos que a artista precisava usar por conta de suas doenças (primeiro pólio e depois um acidente num ônibus). Há uma prótese de perna com uma bota de cano alto vermelha e um espartilho feito de gesso, decorado com uma foice e um martelo. 

Foi o muralista Diego Rivera (1886-1957), marido de Kahlo (1907-1954), que havia dado as ordens para manter o banheiro fechado por 15 anos após a morte da artista. Mas a mecenas Dolores Olmedo (1908-2002), amiga íntima de Rivera que tinha ciúmes de Kahlo, conseguiu manter o lugar lacrado por mais tempo. "É como sentar em sua sala de estar e folhear seu álbum de fotos. É muito pessoal", disse o presidente do museu, Stuart Ashman". 

Campo Grande, 14 de abril. 

Frida, Frida, Fridinha, com suas flores na cabeça e seu olhar desafiador. Hoje você fez meu dia menos cinza com essa notícia, de que um dia, quem sabe, eu posso chegar perto dos seus vestidos rodados, das próteses que fizeram você sofrer e também de pequenos mimos que fizeram parte de você. 

É que agora Frida, eu sou editora. Trabalho mais, tenho mais responsabilidades, e amo o que faço. Consigo por em prática tudo que imaginei ser possível durante um ano que fui repórter. Consigo construir, no dia-a-dia, toda a logística que acho válida dentro do caderno de cultura. Mas tem dias cinzentos pra essa jornalista que escreve. Tem dias difíceis, e não pela pauta ou pelo trabalho, talvez por outras coisas. Dias que a única coisa é sentar e trabalhar, e que você sente que não tem mais nada na sua vida tão coeso. Que suas responsabilidades são sua âncora, e que você se sente meio oca. A garganta dói, a cabeça perturba, os pensamentos assombram. 

Abri o site da agência e lá estava você. Segui buscando uma imagem para ilustrar a reportagem e minha retina ficou perturbada ao olhar tantas e tantas fotos suas, linda, esplêndida, as flores, a saia, os seios, tudo. E abri outros sites, outras reportagens, e mais imagens, e seus quadros, e tive quinze minutos de contemplação. Mais Frida no meu dia, por favor. Mais suas cores em mim. 




(A matéria é da Folhapress)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Venha dançar você até o fim

Tenho vivido um turbilhão. Ou turbilhões, e são tantas coisas vindo de tantos lados que escrever virou uma mera atividade cotidiana e automática. Eu amarro as palavras, dou um laço nas letras, amasso rascunhos, e devolvo folhas em branco. Dentro de mim permanece uma grande mancha de tinta. Faz tanto tempo desde que escrevi pelo mero prazer de externar aquilo que sentia aqui dentro. Um bom tempo. 

Sempre penso nisso, todos os dias, enquanto costuro teias e mais teias de hipóteses e teorias dentro da minha cabeça. Penso nisso segurando meu copo de vodka, enquanto raspo minhas botas de R$ 50 no chão nervosamente. Essas mesmas botas que eu uso todos os dias, que não tiro nunca. Isso me consome e arde junto com o gole, que desce pela garganta e eu queimo nisso. E penso nisso quando deito a cabeça no travesseiro e me lembro de um monte de coisas que eu nem queria lembrar. 


Fico tentando me recordar quando foi que eu permiti me deixar perder em essência. Em que ponto eu fui deixando de lado essa minha expressão vital. E quando é que eu vou retomar. Sinceramente? não sei. Não quero saber. Tenho raiva de quem sabe. Porque no dia que eu me cobrar disso, aí não vai fazer mais o menor sentido. 

. faz tempo esse som vem zunindo bem longe além dos suspiros . 

Minhas mãos estão travadas no escuro e eu me sinto dentro de um pesadelo. O de sempre, os gritos, a angústia, o pavor, o medo. O corpo paralisado. Tento abrir os olhos mas eles estão tão congelados quanto meus ossos, presos à cama. Mas aí de repente não é mais real e eu abro os olhos. É outro tempo. É outra vida. 

É como se não houvesse, dentro de mim, o que machucar, nem esses sonhos surreais e esse terror que eu sinto de vez em quando dormindo. Não, ainda há alguma coisa, mas é só um... cansaço. Até nos ouvidos escutam as conversas das torres. Até dentro da minha cabeça eu escuto um zumbido indefinido e que já parece fazer parte de mim. E é nesse zumbido que eu sei que março chega, que eu preciso reconstruir todas as coisas que sinto. Inclusive escrever. 

. pra quem perdeu o sono na velocidade do tempo, que zarpa e cala. 

E faço isso aos poucos, me reconstruo e reconstruo minha escrita, meu ar, de mansinho. No meu tempo, no meu próprio ritmo vital. É pra não me perder na correnteza de novo. 


domingo, 30 de junho de 2013

Maresia

Em algum ponto dos dois últimos anos, não sei precisar muito bem quando, eu me perdi. Como quando  uma ventania que te carrega pra todos os lados. Essa minha ventania, me fez perder até quando me recordo. Hoje eu sei disso. Sei lá, eu só sei que perdi. Perdi o viço do sorriso e hoje ele é meio irreal. Crio e cultivo uma couraça esfarelenta todos os dias na porrada cotidiana. 

A onda veio, levou quase tudo embora e eu fiquei com a maresia salgada. Fiquei lá na beirada do rio olhando a água turva sem reconhecer nada mais do que um marrom alagado. Sem bossa. Sem novas. 

Não faz sentido. 

Não, a vida não pode ser tão ordinária assim, tão macilenta assim, pensei um belo dia. Faz tempo também e eu mesma não acreditei por muito tempo nas minhas palavras. 

"Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais.
Mais do que eu". 

Coitada da menina que cai no canto de ossanha. Acho que eu cai. Na maresia ela me chamou e eu fui naquela conversa de esquecer a tristeza de um amor, de ir e sofrer e morrer e viver. 

Ficou só a espuma. 

Aqui, aqui e aqui


domingo, 5 de maio de 2013

Essa saudade do cinza


Minha memória me trai, mas é preciso continuar.

Eu precisei passar alguns dias em São Paulo pra entender porque se ama e se odeia aquele amontoado de prédios, viadutos e gente, muita gente. E descobri de uma forma intensa. Decidi que amo, da sujeira às vitrines brilhantes. 


Não falei ainda do show do Queens of the Stone Age no Lollapalooza porque chega que a saudade dói profundamente. Se 2013 começou triste e sem graça, aquele instante do show foi o momento do ano até então. Eu queria que a minha vida fosse um eterno show de Josh Homme e trupe, um loop eterno, e eu vivesse aquele momento sem parar eternidade afora. Do it again. Do it again and again. 

(Destaques do show, na minha opinião: Burn the witch, que teve coro da plateia antes de começar, Hangin' Tree que eu chorei do começo ao fim e My God is the sun, a do disco novo tocada em primeira mão - algo como world première). 


Já fez um mês. No hostel da Vila Mariana, aquele lugar bucólico perdido no meio de outros labirintos, me senti em casa, mas na verdade minha casa era o mundo. Conheci israelenses, cariocas, paulistanos, gente do Acre e do nordeste inteiro, e uns dois americanos. Todos os dias eu saia de lá em busca de ver mais, muito mais. Entre quase ser prensada na porta do metrô, conhecer o caos de barracas que é a Rua 25 de Março e tomar café israelense, conheci a famosa Rua Augusta, em uma sexta-feira.

É claro que a gente parecia dois caipiras no meio da confusão, e eu me sentia a menina mais inexperiente do universo. Pessoas na calçada, bares em pequenas portas, mundos inteiros à parte. São Paulo e seu clima frio à noite me permitia sair de jaqueta de couro, e incrivelmente, ninguém reparava em mim com olhos espremidos, como quase sempre acontece. Eu era mais uma, eu era invisível, e eu adorei isso. 

Comemos em botequins, vimos surrealidades na Praça da Sé e na Galeria do Rock. Conheci duas amigas muito queridas que eu só havia visto pela tela do computador, andei por bares charmosos e jantei comida espanhola, tapas & tortilla. Tomei erdinger em outro boteco, experimentei cheiros e sabores como nunca. Esqueci que meu aniversário é um dia odioso e me permiti ficar feliz por ser 31 de março. Andei nas ladeiras da Augusta até os pés reclamarem.

E voltei pra cá.  

Voltei pra uma cidade que eu teimo em querer deixar. Voltei para a parte boa, meus amigos e minha família, meus gatos. E para a parte ruim, também. Eu insisto em querer ir embora porque não quero morrer enterrada pra sempre no meio do Pantanal. Um dia eu rompi as paredes da bolha em que vivia, e pra lá eu não volto mais, pra uma vidinha mais ou menos, eu não volto. Preciso romper agora os limites físicos. 

"Você é a cara de São Paulo, menina, em um bom sentido!" - me disse uma amiga de lá. Poucas vezes eu me senti tão lisonjeada. 

São Paulo, eu te amei e sinto imensamente a sua falta. 






quinta-feira, 25 de abril de 2013

Guest post: Machismo para Iniciantes

Há um certo tempo, instalei o Google Analytics para conhecer o perfil dos leitores do blog. E eis que um pouco mais de 70% de quem acessa é aqui da minha cidade, Campo Grande. Acredito que os meios de divulgação que uso dos posts (Facebook e Twitter) direcionem pra isso. Sim, eu não divulgo tanto meu blog. É um exercício muito pessoal o que faço com isso aqui, e mesmo assim, às vezes o alcance é inesperado.

Na semana passada, o post "O estupro que não está longe" teve uma repercussão inusitada. Muitas pessoas se aproximaram de mim para conversar sobre o assunto, inclusive uma moça que estava na festa onde aconteceu o crime, o que inclusive me fez colocar um update na postagem. Então veio um comentário no dia seguinte. Um leitor(a) anônimo disse, entre outras coisas, o seguinte:

"(...) mas é igualmente irreal pensar que possuímos uma cultura em massa que apregoa tal prática. Se essa ideia fosse verdade, viveríamos em sodoma ou gomorra onde isso seria normal e socialmente aceito. não é o caso. Culpar cultura (ou o seu próprio fantasma generalizado do que ela é) não tem resultado prático algum. essa merda só aconteceu porque a organização da festa que não deixou seguranças no estacionamento e o poder público que não fez policiamento ostensivo (...) . Sempre a mídia divulga esse tipo de ocorrência como fatalidade, mas é só consequência da eterna irresponsabilidade do setor público/privado, e da inércia das pessoas que não fazem nada para cobrá-los".

Eu vi que esse comentário havia sido uma resposta a um comentário da Sybylla, amiga e leitora, que falou, entre outras coisas, da cultura do estupro. Então, olhando o Analytics me veio a dúvida: será que as pessoas que me cercam aqui, no meu cotidiano físico  realmente pensam que não há a cultura do estupro?

Pensando nisso, pedi à Sybylla que escrevesse mais sobre isso, de forma abrangente e livre. Ela pontuou tudo o que elenca o machismo. No comentário do leitor(a), ele culpa terceiros, o sistema, a falta de policiamento ostensivo, a mídia, pelo estupro. Mas e os estupros que acontecem entre quatro paredes? é falta de policiamento ostensivo? será que estamos nos esquecendo do sentimento de posse que todo homem  é incitado a ter sobre o corpo da mulher como indivíduo desde muito cedo? e o fato de ser culturalmente aceito culpar a vítima?


Quando li o comentário do leitor, lembrei de quando eu tinha 12 anos e pulava carnaval em um clube aqui da cidade. E que quando eu passei no meio de alguns garotos, um deles me agarrou e puxou meu cabelo com força. Eu resisti e fui empurrada, cai no chão e bati o braço. A culpa era minha, de estar na festa? da minha roupa, do meu corpo? de ter passado ali? do segurança da festa que não estava presente no momento? ou do garoto que simplesmente pensou, por alguma distorção social, que tinha direito de tocar meu corpo sem meu consentimento?

Eis então o texto da Sybylla. Aviso que é uma pedrada pra quem insiste em dizer que nada disso é real. A visão dela é crítica e sem meias palavras. Obrigada Sy!


Machismo para iniciantes
Por Sybylla.

Eu percebi que é muito difícil falar de feminismo porque as pessoas em geral tem conceitos distorcidos já estabelecidos na mente e simplesmente não escutam, não pensam e tampouco entendem o que ele quer dizer. Assim achei mais fácil para este guest post falar sobre o machismo e quem sabe assim mostrar o lamaçal no qual todos nadamos.

O que é machismo?

Machismo é toda uma cultura enraizada na sociedade patriarcal que diz que o homem é superior à mulher e à mulher cabem determinados lugares e ocupações na sociedade, mas não todos, porque não é digno para a mulher fazer certas coisas. É ele quem produz as manchetes absurdas que vemos todos os dias como violência contra a mulher, contra gays e transsexuais.

É o machismo que mede tamanho da saia, profundidade do decote, intensidade da maquiagem para enquadrar uma mulher como vadia ou não. É o machismo que diz que mulher não pode gostar de sexo, que para ser boa para casar tem que ter namorado pouco, mas que na cama deve saber chupar e rebolar gostoso. Ele diz que mulher não pode viver sem um marido, não pode rir alto, sentar de perna aberta, usar roupa curta, marcada ou colante, tampouco sair à noite, sair sozinha ou ir para a balada.

O machismo faz vítimas, pois para ele tudo o que não seja viril e vinculado à imagem do macho é digno de escárnio, de violência, de incompreensão. Basta ver como xingamos uma pessoa. “Ô, filho da puta!” Não xingamos a pessoa em si, mas xingamos a mãe dele que, opa, é mulher! Ou então a gente fala “Para de viadagem, mano!” E por que isso? Porque qualquer comportamento afeminado em um homem é feio. É o mesmo princípio que norteia a ofensa “Para de ser mulherzinha!” De novo, para o machismo, tudo o que se refere ao feminino é feio e inferior.

Mas nem tudo, né gente? Afinal de contas, o machismo adora mulheres nuas nas capas das revistas. Ou seja, o machismo diz como as mulheres devem se vestir e a como tirar a roupa. Ahh, mas tem regras. Você só pode tirar a roupa se for gostosa, pois se o seu corpo não estiver dentro do padrão que o machismo quer, você é baranga, caída, gorda e feia. Só que você não pode tirar fotos com o seu celular, pois aí você é puta. Não, nada disso, você tem que tirar a roupa para a revista para o machismo ver. Qualquer coisa fora disso e você é vagabunda que fica tirando fotos dentro da sua casa, do seu corpo e com o seu celular/máquina.

Uma das crias mais purulentas do machismo é a cultura do estupro. Essa cultura é derivada daquela outra lá de cima que gosta de medir o tamanho das roupas da mulher e que diz que se você não se encaixar em uma série de variantes, o seu estupro/abuso/violência/agressão foi provocado. Coitado do machista, ele não pode controlar seu impulso sexual e ataca uma mulher que está usando uma roupa que ele julga vulgar e a estupra, pois afinal, vestida assim, ela tá pedindo, né? O que é mais interessante de notar é que os estupros ocorrem em mulheres que estão vestidas com jeans, camiseta, saia, toga, camisa, casaco, boné, biquini, camisola, maiô, shortinho curto, bermuda, roupa de presidiária... Enfim! Parece até que a culpa do estupro e da cultura do estupro é do estuprador e do machismo, né?

É o machismo também que diz que mulher gorda e/ou feia deveria agradecer se é estuprada, pois afinal de contas, quem vai querer aquela mulher, que o próprio machismo diz que é feia, para transar ou ter algum relacionamento sério? E uma das coisas que o machismo também faz é gritar para os homens: “CALA A BOCA, QUE MENINO NÃO CHORA!” Porque chorar, ter emoções, amar, sentir tristeza, ter compaixão, falhar são coisas que o machismo não admite e se sucumbe à isso, você não presta.

É, gente, o machismo nos prende tal qual a Síndrome de Estocolmo. Pois tem gente presa ao machismo e agradece por ele existir, defendendo-o com unhas e dentes. E ataca aquelas outras ideias absurdas, como por exemplo, o feminismo, que quer reduzir as desigualdades entre homens e mulheres e que quer libertar todos nós de uma cultura castradora e punitiva.

                                  *** Sybyla é Blogueira responsável pelo Momentum Saga, feminista. Geógrafa professora da rede estadual de ensino de SP e mestranda em Geoquímica e Geotectônica. Fã do futuro, ficção científica e ciência."

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sábado, 20 de abril de 2013

Desacelerando


Eu nunca pensei que me veria como workaholic. Sempre fiz as coisas no meu tempo, na minha velocidade, do jeito que me apetecia. A vida toda me criticaram por isso "só faz as coisas a hora que quer". Eu não entendia muito bem o motivo de isso ser errado. Só sabia que, se as pessoas queriam algo de mim, algo criativo (um texto, um layout, um conselho), que eu precisava fazer aquilo no meu tempo. 

Quando comecei a trabalhar na área do jornalismo, comecei a ver que eu poderia ser "multitarefada". Sempre gostei de fazer 17 coisas ao mesmo tempo, e esse é um tempo meu também. Ano passado eu trabalhei muito, muito mesmo, porque diagramava, entrevistava, assessorava porta-voz, fazia layouts, mandava e-mails, despachava press-kit pra jornalista, pautava. Sem falar nos eventos à noite, sapatinho e terninho, esconder o rosto cansado com maquiagem. Eu gostava e aprendi um bocado. Mas então resolvi que precisava de mais. Aí fui escrever pra uma revista. 

Acho que meu texto é muito mais solto hoje por causa da revista. Aprendi mais um bocadão. Mas agora, as coisas estão um pouco diferentes. Minha rotina mudou muito, meu trabalho ficou mais longe de casa, isso exclui as janelas de tempo que tinha. Não coloco mais terno, agora vou trabalhar de bota se quiser. E não faço mais nada de editoração gráfica, apenas apuro, entrevisto e escrevo. Mas mesmo assim, não sobra tempo. 

A atividade que sai do mecânico para o essencialmente criativo, é muito mais exaustiva do que se pode pensar. Saio do jornal com a cabeça em fogo. Se escrevo sobre algo que amo, o exercício se torna mil vezes mais prazeroso, e isso acontece com bastante frequência. Se não, é muito mais desgastante, mas de um jeito bom, não nocivo. Mas me exaure, me suga. Chego em casa e não consigo mais escrever pra mim, que é, penso eu com meus botões, o exercício mais importante de todos. 

Percebi que chegava e não ia jantar, tomar banho, sair e beber uma cerveja. Não ia escrever bobagem, ficar com a Panzinha entre os braços, tocar violão. Eu chegava, ligava o computador, e ia trabalhar. Ia pesquisar, mandar e responder e-mail, ligar para mais uma dezena de fontes, entrevistar. Meus pais chegando do trabalho, indo no meu quarto conversar comigo, e eu estava lá, absorta. Quando eu finalmente largava o osso, eles já haviam ido dormir. 

Minha alimentação só presta na hora do almoço, porque a comida do refeitório do jornal é ótima. De noite, eu basicamente como miojo ou algum delivery. Porque não tenho saco de ir no mercado, e preciso trabalhar. Na véspera de ir para São Paulo, ao invés de arrumar a mala e descansar de três semanas muito complicadas de trabalho, eu estava lá, me forçando a trabalhar, com meus prazos todos atrasados. Dormi umas 4 horas antes de pegar o avião. 

Aí semana passada, uma banda de stoner rock ia tocar aqui em Campo Grande, na sexta-feira. Eu prometi pra todo mundo que ía, porque ultimamente o que mais ouço é "você sumiu Lyrinha". Eu sumi, mesmo, porque estou sempre muito cansada pra qualquer coisa. Nesse dia, sai do jornal animada, dizendo que ia mesmo sair e beber umas, combinei com meus amigos e tudo mais. Cheguei em casa cansada como sempre, com as mesmas olheiras fundas. Então, pensei, "vou deitar um pouco até a hora". Acordei madrugada alta. Meu corpo se desligou, pediu arrego. Não houve despertador, ligação ou chamado que me acordou. 

Então por tudo isso, acho que chegou a hora de desacelerar. Quero também me dedicar mais ao blog, aos meus gatos, às minhas letrinhas e ao mestrado que eu quero fazer no final do ano. E que eu possa fazer as coisas cada vez mais no meu tempo.

Gatos nos ensinam: o ócio é importante.

terça-feira, 26 de março de 2013

Nelson e o véu de tragédias


E com as luzes finalmente apagadas, abriu-se a cortina do teatro no centro de Campo Grande. Escuro tocado por velas artificiais no palco. E uma marcha fúnebre, muito alta, ensurdecedora. Meu coração bateu muito forte nesse instante. A cada batida da marcha dos mortos, era aqui dentro do peito. Fiquei arrepiada, amedrontada e maravilhada, tudo ao mesmo tempo.

 "Vamos assistir de pertinho", eu pedi, logo de início. Sentamos na segunda fileira, tão perto que eu podia me sentir dentro do palco. Nelson me esperava, em cinco contos "rodrigueanos" de "A vida como ela é" encenados pela peça "As Noivas de Nelson", da Cia. Paulista de Teatro.

Abre aspas: o primeiro livro que eu li de Nelson Rodrigues foi "Vestido de Noiva". E aquilo me cativou, pra sempre. Aquele olhar de dramaturgo, jornalista. Irônico, pueril, e ao mesmo tempo pra constranger, incomodar. Eu sempre fui muito fã das obras dele, desse jornalista que viveu na tragédia e tirou dela suas histórias. Na semana que antecedeu a peça, eu escrevi sobre ela, entrevistando a atriz Anamaria Assis e a produtora Katia Manfredi. E já percebi que aquilo me fisgava, porque as fotos eram impressionantes. Na matéria, que eu escrevi me deleitando, feliz da vida, falei de Nelson, de noivas, de obras como "Anjo Negro" e "Album de Família". E lembrei do próprio A vida como ela é, que eu reli pouco antes de ir pra Bonito, ano passado, à trabalho. Fecha aspas.

A genialidade de "As Noivas de Nelson" está também no formato escolhido, que não é uma adaptação e sim uma encenação. Os atores reverenciam o texto o tempo todo, e extraem dele sua intensidade. Simplesmente são os protagonistas, os narradores, os personagens secundários. Em cada conto (“Excesso de Trabalho”, “O Delicado”, “O Sacrilégio”, “O Pastelzinho” e “Feia Demais”), vemos tanto do hoje e do ontem. E os atores que estão ali representando, são fortes, destemidos e intensos, tal qual suas personas.

No primeiro instante em que o primeiro ator surgiu no palco, o rosto cadavérico de cada um, as noivas de vestidos amarelados pelo tempo e o algodão no nariz dos personagens, já antecipam essa tragédia que é tão Nelson. Tão cotidiana, tão cômica ao mesmo tempo. Nelson Rodrigues acostumou-se a narrar essa vida exemplar diante dos olhos de uma sociedade que é despedaçada dentro de quatro paredes. Ele narrou a hipocrisia daqueles tempos (que ainda se parecem com o hoje), e na peça, é ela que parece fazer exaltar a morte.

Entre um conto e outro, ouvimos a voz do escritor. Entre frases desconexas e a voz rouca de Nelson, a ação acontece. E são gritos, choro, murmúrios, sentenças. Entre véus amarelados do tempo, e flores secas em buquês, a gente vê tanto do que também somos: despedaçados e trágicos em nosso perfeitos retratos distorcidos. 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Haicais do Caos

Ninguém sabe como, mas há dias que queimam carros por aqui. Alguma força criminosa sem rosto está colocando fogo em carros estacionados nas ruas da Cidade Morena.

Acho que vi isso tantas vezes nas páginas do jornal que ontem sonhei com isso. Que encontrava meu carro queimando no meio de uma rua deserta. E eu chorava, pedia, gritava, meu carro, meu único bem material, que eu suei tanto pra poder comprar, fruto do meu trabalho e do meu esforço. Aquilo simplesmente queimava, ardia. Aquele objeto, que representou a minha independência mais recente, meu meio de transporte, o funil para onde parte do mês de labuta vai. Queimando. Fora do meu controle.

A gente senta e se acomoda em uma zona de segurança tão grande, e esquece que o caos existe. Está lá fora, está aqui dentro, e nós somos feitos dele. A gente nem lembra, tamanho o conforto, que em um piscar de olhos e pronto, tudo virou do avesso, tudo mudou. Perdemos algo, deixamos algo ir contra nossa vontade. Vórtice.

Eu costumava escrever muito isso nos meus tantos diários da adolescência. Gostava de sentir que era parte pulsante desse caos, que para mim naquela época queria dizer "renovação, mudança". Mas hoje, às vezes sinto que esse esfacelamento da rotina brusco, sem prelúdio e sem preparação, às vezes é muito dificil de lidar. 

Ele vem,  gente se adapta, se renova, cata os pedaços, reconstrói, muda, melhora ou se deixa levar. Se cura, se entrega de volta pra rotina confortável e calorosa. Ou pra rotina gélida da repetição, depende do gosto. E então ele vem, e de novo, leva tudo embora. Leva que nem aquela chuva que falei, que inunda, molha, estraga, mas lava.


E sem caos, a gente não seria nada. 


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Das coisas que um dia voltarão pra gente

Daquelas coisas que a gente lembra pra sempre, aqueles pequenos fatos importantes que mudam o curso do  nosso pensamento pra sempre. O dia em que você deixou de ter medo de se perguntar se Deus existia mesmo, deixou de temer uma punição dolorosa por no mínimo se questionar. Um momento em que você sentiu na ponta da língua aquele gosto inesquecível, que hoje até dói de lembrar. O momento esmagador em que você teve certeza do quão pequena era diante desse mundo grotesco. 

Foi assim comigo e Gabo. Meu pai vivia dizendo que existia um escritor chamado Gabriel García Marquez, que era Prêmio Nobel de Literatura, um colombiano daqueles marrentos, e o pior, jornalista. E que ele havia escrito um livro chamado "Cem anos de solidão", onde havia uma personagem chamada Úrsula Buendía, que era a minha avó. Simples assim, D. Enerstina estava escrita, "cuspida e escarrada", naquelas páginas. Eu tinha 13 anos. 

Encontrei "Cem anos..." jogado pela casa, uma edição antiga, deixada sobre a mesa. Peguei a mania engraçada de andar pela casa lendo, porque não queria largar do livro de jeito nenhum, nem na hora de comer. 

Eram férias escolares, e eu estava deitada na cama dos meus pais, quando finalmente virei a última página. Entrava uma nesga de sol muito forte pela janela, e até hoje é aquele o cômodo mais ensolarado da casa inteira. Sentei no chão de azulejos e chorei como nunca. Me debulhei em lágrimas desesperadas, e alguma coisa muito grande transbordava de dentro de mim, e eu não conseguia tirar Aureliano Buendía da cabeça, com seu olhar triste e seus peixinhos dourados, da cabeça. Nem Melquíades, o Mago, nem as grandes e fortes personagens mulheres, como Remédios, A Bela, e Amaranta e Rebeca. 

Começou aí, meu amor por Gabo. "Cem anos..." se tornou meu livro favorito de todos os tempos. Cheguei até mesmo a desenhar a árvore genealógica dos Buendía, em algum momento da vida. A seguir vieram outros livros, como "O amor nos tempos do cólera", "Doze contos peregrinos", "A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada", "Viver para contar" e todos que pude ter nas mãos. Mais os que mais amo são os engendrados para consumirem nosso realismo e transformar nossos sentimentos em fantasia. 

E um dia, sem que eu sequer imaginasse, encontrei um livro de Gabo guardado no armário. "Olhos de cão azul"**, de 1947. Nem meu pai sabe como esse livro veio parar aqui em casa. Eu o devorei principalmente pelo conto "Eva está dentro de seu gato". Sonhei mil noites com essa história. E não lembrava o que tinha sido feito do livro. 

Eu havia emprestado pra uma pessoa muito querida há muito tempo atrás, e ele agora retorna pra mim. Já o reli no mesmo dia, e matei as saudades das palavras dele. E as histórias, os contos, soaram diferentes de quando eu li. Acho que eu estava precisando reencontrar certos sentimentos há muito esquecidos na estrada. Tem coisas, sim, na vida da gente, que nunca mais se recupera. Outras, acabam voltando pras nossas mãos, mesmo que demore. De vez em quando, acreditar nisso é somente o que a gente precisa pra continuar sonhando.


**"Olhos de cão azul" é um livro com 11 contos escritos por Gabo na juventude, 
que falam sobre a morte em muitos aspectos. Mesmo com um título poético, 
é um texto imaginativo e agridoce sobre a parada súbita do final, e uma troça
com a lembrança fugaz que nos tornamos pra quem por aqui ainda fica. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dia de não folia

Acorda, toma banho, escova os dentes. Coloca o tênis confortável ou aquela sapatilha amaciada, porque afinal, agora não existe mais a obrigação do terno sempre, de estar sempre impecável. Embora antes não fosse uma exigência, era uma obrigação, parte do trabalho. Agora posso ir trabalhar de flanela, arrumada ou mais largada, do jeito que for. Saio correndo, tiro o carro da garagem, dirijo a minha vida.

Centro da cidade fervilhando, movimentado. Trabalhar um pouco mais tarde dá nisso, mas meu sono agradece. Estaciono na frente do jornal quando tenho sorte. Cumprimento os vigias, que sorriem alegremente. As moças da portaria são todas meio iguais e sempre me olham indagadoras.

Primeiro pego um copo cheio de café. Sento na mesa, abro o e-mail, desisto das redes sociais, faz muito tempo que não me interesso mais como costumava ser. Abro a agenda, elenco as pautas, coloco os assuntos do dia. Pauta marcada pras 10 horas, saio correndo de bloco na mão, caneta em punho. O fotógrafo vai no banco da frente, e a repórter do Arte e Lazer (eu) atrás. Amenidades do dia a dia. "Você foi no Cordão da Valu ontem, cobrir?", e eu respondo que nem fui a trabalho, era minha folga. Fui mesmo pra pular carnaval contrariando minha própria personalidade. Fui de vestido rodado e batom vermelho, tomei chuva e dancei no asfalto, porque eu precisava fugir um pouquinho de ser eu mesma. Fui menina faceira na chuva por algumas poucas horas, me embalei em samba e em marchinhas com os cabelos colados no rosto, vi olhos me encarando, olhei de volta com a mesma intensidade, bebi e deixei aquele aguaceiro lavar tudo que me incomodava e levar rua afora, gelei até os ossos e não me importei. Mas nada disso sai da minha boca na conversa. "Fui sim, e estava legal apesar da chuva".

O motorista pega um caminho diferente do habitual e ali, no meio da rua, avistamos um acidente. O carro imediatamente para, e descemos pra ver o que aconteceu. De carnaval, de dança e alegria, pra uma moça que se acidentou de moto. O braço dela se estilhaçou contra o vidro do carro, e ela berrava e gritava e chorava enquanto o Corpo de Bombeiros tentava remove-la dali, debaixo do veículo. Não consigo olhar por muito tempo, e relanceio apenas os ossos expostos e o pedaço do corpo completamente esfolado. Converso com o motorista  do jornal pra não encarar, porque meu estômago pode me trair. Por sorte, outro repórter cobre a pauta, sendo da editoria certa. Uma constatação: editoria de Cidades/Polícia não é meu forte.

De volta na redação, o telefone louco, incessante. "Mataram uma moça na Vila Alba". "O desfile de carnaval do grupo especial foi adiado". Chuva nas janelas, coloco o fone no ouvido pra me concentrar no texto. Cinco mil toques, capa, fotos. Texto pronto, ideias formatadas. 

Mais café.

Mais vivência, mais rua. Mais chuva, mais asfalto, por favor. É que só assim que eu me sinto viva por esses dias. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As vítimas atacam de volta

Essa semana conheci um tumblr que me fez sentir calafrios. Porque o conteúdo dele é simples, mas ao mesmo tempo visceral. É o "Project Unbrekable", de uma fotógrafa americana, que registra vítimas de violência e abuso sexual ao redor do país, segurando placas contendo frases e quotes de seus estupradores e agressores. Porque fazer isso? Bom, são muitas razões: romper o silêncio que permeia a vida das pessoas que já foram abusadas, romper com preconceitos, chocar e tirar os leitores do lugar comum, e mais um milhão de razões. Abuso é um trauma pra vida toda, e o próprio projeto mostra que muitos abusos são realizados por pessoas próximas da gente. 


Para mim, são as vítimas se posicionando, mostrando o rosto e dizendo "Toma sociedade. Chega de silêncio". Algumas frases são muito tristes e chocantes, como a "The nurses who did my rape kit told me there was “more than enough evidence that I had been raped” yet the police who took on my case didn’t believe me. / I am a survivor NOT a victim" (tradução livre: "A enfermeira que me socorreu no estupro me disse que havia "mais de uma evidência que eu havia sido estuprada" ainda sim o policial que pegou meu caso não acreditou em mim. / Eu sou uma sobrevivente e NÃO uma vítima"). 

E as que descrevem as frases ditas pelos agressores, são ainda piores, porque denotam não só a crueldade e a banalidade do ato, mas também o machismo e a misoginia (quando da violência em mulheres) de cada violência, e a perversão por trás de conceitos sociais como a submissão da mulher. Porque por trás do "você tem o dever de satisfazer seu marido/namorado", existe um ódio profundo contra o ser feminino. A gente só que acha que é normal, mas não é. 


Quantas vezes, no nosso cotidiano, a vida é justa? E quantas vezes uma vítima de abuso consegue, de fato, lutar contra o seu agressor? quantas escapam e quantas se vigam, lutam de volta? Acho que nenhuma. Ou pouquíssimas. 

Eu sou contra violência. Mas sou um ser humano, dotado de características e defeitos. E eu gostaria de ver as vítimas lutando. Os sobreviventes lutando. Meio super-herói, meio enredo de filme. É por isso que eu gostei tanto do Project Unbreakable. A gente não pode fazer como Lisbeth Salander, amarrar nosso estuprador no chão e dar a ele o que ele merece, certo? mas a gente pode não ficar calada. Pode lutar contra misoginia, ensinar nossa família e nossos irmãos e irmãs que a vítima NUNCA é culpada. Que não importa a roupa que ela estava usando, nem se ela bebeu demais, porque beber e se vestir de um jeito x não é crime, mas estuprar é. Que não é direito passar a mão nas meninas na fila da balada. Que um marido não tem direito de violentar a esposa, que não é porque ela é casada com o abusador que aquilo não é violência. 

A gente pode trabalhar pra que mais leis como a Maria da Penha existam, pode ensinar nossos homens desde pequenos que a mulher não é propriedade de ninguém, que não existe crime mais hediondo que estupro. E eu, como jornalista, como imprensa, posso trabalhar para divulgar tudo isso. É minha obrigação cidadã, profissional. Meu compromisso como jornalista, defender e divulgar as mazelas daqueles que não tem voz. Porque a gente sabe o quanto a imprensa pode ser misógina e preconceituosa. E eu como parte dela, vou lutar contra isso. 

Ainda nesse clima, fiquei vidrada num clipe do Skrillex onde uma garotinha atrai um homem que visivelmente irá abusar dela até um porão, e usa seus "poderes" nele. Nem sou muito fã de dubstep, mas gostei da música. Também enxerguei referências muito minhas no enredo do clipe. Violência não é a resposta, mas que eu queria dar esses poderes à todas as vítimas do mundo, ah, isso eu queria.