domingo, 13 de outubro de 2013

Quanto vale

Na quinta-feira, eu entrei pela porta do jornal às 8 horas da manhã. Sai de lá às 20 horas. Escrevi durante 12 horas sem parar. Minto, parei, almocei (não me lembro o que exatamente), escovei os dentes, peguei mais um café e voltei pro computador. 

Escrevi tudo que consegui, usei as palavras que pude, me exauri pensando em novos leads e novos ganchos (lead é o primeiro parágrafo de toda matéria e gancho é o 'foco' daquela reportagem). Cheguei no final do expediente com as costas curvadas sobre o computador. Ao meu lado, copos e copos sujos de café. Ar de absoluta exaustão. Tudo isso em função da seguinte questão: esse sacrifício todo, a ponto de eu chegar em casa explodindo de dor de cabeça e fadiga, é o clássico chamado de "pescoção": quando o repórter adianta matérias e matérias pra poder folgar. No meu caso, pra poder folgar sexta e domingo. 

Quanto vale meu trabalho?

Esses dias olhando o facebook em uma comunidade de jornalistas aqui do MS, me deparei com uma oferta de emprego/vaga, feita por um conhecido jornalista. E essa comunidade é povoada de jornalistas que, bem ou mal, se conhecem fora da rede. 


Se você ler bem certinho o que a pessoa oferece em troca e o que ela exige, olha, é de chorar. A empresa exige nada menos do que oito tarefas/habilidades/conhecimentos, muitos ali que simplesmente nós não aprendemos em uma universidade de comunicação social, ou seja, são experiências adquiridas no mercado. Pelas exigências, eu assumo que seja uma vaga pra assessoria de comunicação interna. E provavelmente as atribuições crescem muito ao longo do tempo, deve incluir jornais, newsletters internas, e-mail marketing, clipagem de notícias, e é claro, atendimento à imprensa externa se precisar. R$ 1200 por 8 horas inteiras. 

Quanto vale o nosso trabalho?

Quando a pessoa publicou a vaga, alguns colegas e eu comentaram a respeito da discrepância desse valor pago a um jornalista, ainda mais pela questão de que, em tese, nossa carga horária aprovada por lei é de cinco horas. E eu posso apenas falar da minha área em Campo Grande. Não sei, de fato, como estão as coisas fora de CG, mas pelo que tenho visto, as coisas andam bem dificeis pra quem é jornalista. Quem fica, quem sobrevive ao passaralho, acaba sofrendo outro fenômeno, o do ficaralho.

Atualmente, minha rotina de trabalho é a seguinte: eu acordo cedo, vou para o jornal, de lá vou para a agência de assessoria de imprensa onde trabalho como frila. A maioria dos jornalistas que eu conheço tem a mesma rotina: 6 horas em algum lugar, 6 horas em outro. Eu tenho, sim, a opção de ter apenas um emprego. Claro que tenho. Ninguém me obriga a trabalhar dobrado. Mas se eu não fizer isso, minhas contas atrasam. E não são uma ou duas. São todas. Eu vivo com meus pais e economizo o quanto dá, tento ser econômica. Eu sou privilegiada. Sempre imagino alguns pais e mães de família que trabalham comigo e sustentam um ou dois filhos. Eles ganham o mesmo que eu. 

Quanto vale a vida que a gente deixa de viver?

E assim a gente segue, driblando as contas com um milhão de frilas. Perdendo os feriados. Deixando a saúde em pescoções. Perdendo o aniversário da mãe (ou do pai, como foi no meu caso), entre outras tantas coisas. Sim, porque um dia eu trabalhei até mais tarde quando recebi uma ligação de "filha, vamos cortar o bolo do seu pai sem você, você não chega logo" e eu pensei, no alto da minha exaustão: "que bolo?".

Quanto vale a notícia que sai da gente?

Eu sou extremamente apaixonada pelo que eu faço. E é por isso que eu faço, mas a um preço muito alto. Ou muito baixo, se você olhar novamente essa vaga de emprego aí em cima. E não só eu. Todos vocês, jornalistas. Quem ganha mal, quem deixa a família no almoço de domingo pra preparar a edição do outro dia. Quem muda de cidade pra virar repórter e mesmo assim continua amando tudo. Quem abre o jornal e vê aquela reportagem maravilhosa e sente orgulho. Quem sente que, a cada dia trabalhando na área (assessor, repórter, redator, apresentador... todo mundo), fica com a casca um tanto mais grossa. 

Pra ler e pensar: 
Greve dos jornalistas do diário do Pará. 
As 50 melhores e piores profissões em 2013.
O perigo de ser jornalista: violência e abandono
A crise do jornalismo e a crise dos jornalistas

7 comentários:

  1. Eu me vejo nesse post. Não sou jornalista, mas sim publicitária e nossa categoria é tão desvalorizada quanto a sua aqui em CG. Infelizmente, ao contrário de vocês, não conseguimos ter dois empregos e temos que nos contentar com apenas um e com a merreca que nos pagam. Conheço poucos publicitários aqui que ganham bem e a maioria que ganha mal já não é mais apaixonada pela profissão. Eu, como quase todos, estou estafada disso tudo. Da cobrança, das campanhas feitas nas pressas e que nem vai pras ruas, da desvalorização, de tudo. Vocês ainda conseguem se orgulhar da matéria no jornal, nós ralamos por uma p*ta ideia e nem a vemos no outdoor. É triste, é frustrante, é totalmente desmotivante. Te entendo, se não 100%, pelo menos uns 80%.

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  2. Entendo muito bem Teté. Vi isso de perto quando trabalhamos juntas numa agencia, lembra? e fico feliz do meu post ter te alcançado, mesmo sendo uma coisa tão negativa. E lembro de quando fiquei chocada por você ter me falado que, em 99% das agências de publicidade, não existem CLTistas, ou seja, ninguém assina carteira de publicitário. Assim, vocês vão ficar sem benefícios como uma parca aposentadoria. Não tem como não ser desmotivante, né.

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  3. Sabe Van, todos os dias eu me pego pensando nisso. É muito triste e só quem é jornalista entende o que se passa, acho. Mas você tem toda razão. É um sacrifício desmedido que eu espero não ter que fazer por muito mais tempo. É o que tem pra hoje. Espero que não seja meu amanhã, porque sinceramente, acima de tudo, a saúde pede a conta no final. E sem volta.

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  4. Um texto muito pertinente Daiane. Colaboro com mais um ponto: Além de quanto vale nosso trabalho, também é importante pensar em quais amarras nos deixam presos - ainda que frustrados - à situações profissionais que não nos valorizam. Família, prestação do carro, aluguel, cartão de crédito... Quanto mais vamos deixando para trás a vida de jornalista recém-graduado, mais vamos nos atrelando de maneira indissociável a compromissos que nos impedem de sair dessa rotina massacrante.

    Decidi cedo que isso não era para mim. Em 2011, depois de mais um "pescoção" (nunca usei esse termo!) de 12 horas de trabalho e de ouvir um monte de merda de editor ignorante, resolvi pedir demissão do jornal diário. Eu era livre, não tinha contas e morava com a família. Fiz algumas escolhas que hoje me parecem cada vez mais acertadas, mas na época eu não tinha como ter certeza.

    Hoje estou num emprego que me estimula intelectualmente, que me paga um valor justo (embora a gente sempre queira mais) e me oferece um ambiente de trabalho imerso na lógica jornalística, mas muito mais sadio do que o da minha antiga redação. No entanto, já não sou mais tão livre quanto antes. Não tenho ninguém que dependa de mim, mas preciso pagar as contas e vivo com meu próprio dinheiro e de ninguém mais. Não sei se teria condições de sair com tanta facilidade quanto tive há alguns anos atrás, mas já fico feliz por ter escolhido meu caminho logo cedo!

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  5. Isso é realmente para se pensar,mas sou apaixonada por jornalismo e tudo que eu quero fazer,e neste Brasil e difícil achar uma profissão que seja valorizada,eles não estão nem ai para quem trabalha honestamente e um lugar ao sol está bem difícil de se conseguir.Mas espero que eu ainda tenha um tempinho para passar com as pessoas que eu mais gosto.Boa sorte pra mim,pra você e para todos os jornalistas e assessores,pois ta complicada esta profissão.

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  6. http://fulanadiz.blogspot.com.br/

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Comentários.