quinta-feira, 5 de março de 2015

A publicidade brasileira não se garante

No dia 12 de fevereiro, a Revista Fórum publicou um artigo sobre a última publicidade machista do mês: das sopas Vono. Essa semana a discussão toda estava ao redor da propaganda da Always onde Sabrina Sato comparava o “vazamento” da menstruação (quem nunca?) com o “vazamento” de vídeos íntimos na internet. Só que nunca.

As pessoas ficaram bem bravas. E com razão. Entre outras questões, a propaganda fez o que tem sido feito no Brasil à exaustão: culpou a vítima.

Eu trabalhei dois anos numa agência de publicidade e jornalismo, mas as redações eram juntas e hoje eu trabalho diretamente com um publicitário. Sempre admirei o trabalho dos diretores de arte, redatores, mídias e atendimentos. Acho um trabalho tão árduo quanto o de muitos jornalistas que eu conheço. Por isso eu aprendi o seguinte: publicidade machista não é culpa só da agência de publicidade.


Uma campanha passa por NO MÍNIMO três pessoas: o atendimento, o diretor de criação e o cliente. Isso se a agência for pequena. Em grandes agências  deve passar por umas 30 pessoas. Mas o fato é que existem conceitos a serem mudados de todos os lados. A agência precisa se despir de machismo e preconceito na hora de criar ou sugerir uma campanha e precisa sim pensar no impacto negativo que isso vai ser gerado depois que ela for ao ar. Hoje a internet não poupa ninguém. Mas o cliente precisa entender que publicidade burra e preconceituosa muito mais atrapalha do que ajuda.

No Brasil, a publicidade não se garante. E é por isso que propagandas de cerveja com mulher seminua continuam sendo feitas. Não é porque vende. A publicidade tem medo de deixar a campanha padrão-machista de lado e investir em outro conceito e fracassar. Mas o que ela não percebe é que essa falta de coragem já é um fracasso por si só.

A publicidade tem poder de emocionar, de tocar, de abrir horizontes e de despertar emoções. De fazer rir mas também de incomodar. E mesmo assim as mulheres continuam sendo meros objetos decorativos e sexuais. Isso quando a propaganda não faz apologia à dominação e ao estupro. Em um mundo onde uma maioria esmagadora de consumidores é do gênero feminino e onde os índices de violência feminina são alarmantes, a publicidade continua tendo medo de empoderar as mulheres.



Um trecho muito pertinente do artigo da Fórum sobre a propaganda da Vono: "Aliás, falar na linguagem do capitalismo às vezes é a melhor alternativa que as mulheres possuem para que sejam ouvidas. Afinal, mulheres também bebem cerveja, compram sopa em pó, consomem e pagam por produtos e serviços. Em muitos casos, as mulheres ainda são responsáveis pela feira da semana ou do mês e são elas que se deslocam até supermercados para escolher o que vão colocar na mesa. Parece lógico, mas no mundo da publicidade, só quem recebe o devido respeito é o público masculino, em detrimento das mulheres, que são constantemente hostilizadas e agredidas em propagandas misóginas".

Se o mundo é metade feminino, porque a publicidade brasileira é tão machista? Se nós consumimos cerveja, porque estamos nuas nas propagandas? Porque somos vendidas como meras donas de casa ou objetos sexuais segurando uma garrafa? Porque, meus queridos, a propaganda é a alma do negócio. Enquanto a publicidade vender que somos seres inferiores, tem muita gente que vai acreditar e continuar alimentando o monstro do machismo. Simples assim. A publicidade tem medo das mulheres.

Isso só mostra que estamos no caminho certo. Mas ainda existe muito a se fazer.

Outros links pra se ler: 
Dez propagandas históricas machistas
Mídia Feminista
O machismo que impregna a propaganda

Um comentário:

  1. <3 obrigada Van. Pra mim muita coisa ficou de fora do texto, por isso deixei os links haha. Beijocas.

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Comentários.