segunda-feira, 25 de junho de 2012

Nega, poeta e lar

Eu nunca conheci uma pessoa com um desabrochar tão extremo e intenso, e ao mesmo tempo, tão conectada às próprias raízes que era impossível separá-la da sua terra mãe, com todas as ruas de pedra e baixios, e neblina de congelar os ossos e a galinhada feita no quintal pela madrinha. Ela, Renata, a minha poeta. 

Me dou ao desfrute e à falsa modéstia, e sem rodeio, eu digo com a força do peito: eu tenho uma poeta que é minha. Porque ela também é meu lar, sempre nas horas críticas, em que eu preciso desesperadamente fugir pra algum lugar, e é sempre pra lá que eu vou, pra sacada, pra varanda, pro sofá-cama ouvir o sacolejo da Mariazinha (o cão), pra qualquer lugar onde minha Poeta, Barda e Moira esteja. E ela me dá abraço, café quente, cobertor, ouvido e risada.

Deixando as palavras bonitas de lado, eu lembro de quando conheci Renata, a menina tímida do interior que estava cursando jornalismo porque seu curso dos sonhos havia sido cancelado da forma mais indignante de todas. Seu sonho havia sido fragmentado, e ela aqui, perdida, olhando os cantos com estranheza. Alguma coisa bem no estômago me fez traçar uma linha reta até ela e me apresentar. Boa noite, eu sou a Lyra. Me dá a mão, e eu quero te conhecer, e se a gente se der bem, quero te trazer pro meu mundo. 

Mas foi o contrário: foi ela que me dragou, que virou refúgio, que deu a mão. A menina cheia de estigmas e medos deu lugar à moça que tinha nas palavras um universo extenso e brilhante de supernovas e constelações. Nas piores crises que tive na minha própria vida, ela estava lá. Eu estava lá. Pra ela me trazer pessoas essenciais e lindas, que eu vejo brilhando perto de mim dirigindo o fusca verde-abacate, que até me dá certa vergonha do meu espírito quebrado e opaco. Pra me presentear com chuva na cabeça, pra me fazer acreditar que o mundo é bonito quando eu sei, no meu âmago, que ele não é. Pra gargalhar da minha cara quando eu quase caio no meio da estrada. Pra me fazer rir e sentir acolhida perto da Vózinha, mesmo que ela não seja minha avó de verdade. 

Ela nunca pediu nada em troca. Eu nunca pedi nada em troca. Assim que funciona, há tempos. A saudade da estrada aperta, e eu simplesmente pego a mochila e volto pra um dos meus lares. É onde essas meninas estão. É onde a Rê está. Minha Rê e seu cão belzebu. 

Pode se abater, deixar o corpo doer, que eu vou estar aqui, menina, pra aparar você na queda. Porque vou te dar o que eu tenho de melhor, e você vai me presentear com a sua alma mais profunda, e vamos trocar o que nós duas temos de mais precioso: as palavras.

Te amo, nega


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