quarta-feira, 6 de junho de 2012

Pedaços #2: Dos medos e delírios, ao sr. Hunter S. Thompson

Eu admito que fugi de você, Hunter. Por tempo demais.

Me perdoa, mas é que eu fiquei com muito medo de desejar tão ardentemente viver o jornalismo da forma que você viveu, a ponto de ver minha vida ser completamente frustrada com a impossibilidade de assim simplesmente ser, porque as contas se acumulam, a velocidade do online desencadeia o caos da preguiça e da falta de confiança, de cuidado e de proximidade. É tudo tão envolto numa grossa camada de descrença que não se fazem mais reportagens diferentes, e a distância toma conta do jornalista. Ele é automático, já faz tempo. É assim que a gente sobrevive hoje. Eu queria muito viver só de escrever, e ficar um ano entre uma horda de motoqueiros lendários, como você fez em 'Hells Angels'. Ou queria sair por aí numa trip completamente insana da qual eu me lembraria por ilustrações do Steadman, como em 'Medo e Delírio em Las Vegas'.

Logo eu que sou só uma garota aleatória, de 23 anos, formada há pouco na escola e não na rua. Enquanto eu engatinhava, há décadas você havia estado entre os estandartes alados da avalanche de motos brilhantes.

E devo dizer, que concluindo a leitura desse quase estudo antropológico sobre motoqueiros foras da lei em 1960, que me senti nostálgica. Não pela obra em si, mas porque você estava nela. Você explicou várias vezes que depois de um tempo, 'não sabia se era você que pesquisava sobre eles, ou se estava sendo por eles lentamente absorvido'. E não existia medo de contar seus próprios delírios no enredo, e, em momento nenhum, deixou de ser uma reportagem. Você saía do estado de imparcialidade amarelada e quebradiça, e nos trazia uma nova visão de mundo. A humana. A que erra e sangra. Que treme, e principalmente, participa.

Obrigado, sr. Thompson. Pelos medos, pelos delírios, pela carona na garupa da moto de um hell angel, pela grande caçada aos tubarões, pelas viagens de LSD, pelas noites em claro. Obrigado por me fazer querer dar uma volta no lado selvagem, por ter criado o gonzo e o gozo nas letras.

E principalmente: obrigado por romper todas as barreiras.

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