terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Das coisas que um dia voltarão pra gente

Daquelas coisas que a gente lembra pra sempre, aqueles pequenos fatos importantes que mudam o curso do  nosso pensamento pra sempre. O dia em que você deixou de ter medo de se perguntar se Deus existia mesmo, deixou de temer uma punição dolorosa por no mínimo se questionar. Um momento em que você sentiu na ponta da língua aquele gosto inesquecível, que hoje até dói de lembrar. O momento esmagador em que você teve certeza do quão pequena era diante desse mundo grotesco. 

Foi assim comigo e Gabo. Meu pai vivia dizendo que existia um escritor chamado Gabriel García Marquez, que era Prêmio Nobel de Literatura, um colombiano daqueles marrentos, e o pior, jornalista. E que ele havia escrito um livro chamado "Cem anos de solidão", onde havia uma personagem chamada Úrsula Buendía, que era a minha avó. Simples assim, D. Enerstina estava escrita, "cuspida e escarrada", naquelas páginas. Eu tinha 13 anos. 

Encontrei "Cem anos..." jogado pela casa, uma edição antiga, deixada sobre a mesa. Peguei a mania engraçada de andar pela casa lendo, porque não queria largar do livro de jeito nenhum, nem na hora de comer. 

Eram férias escolares, e eu estava deitada na cama dos meus pais, quando finalmente virei a última página. Entrava uma nesga de sol muito forte pela janela, e até hoje é aquele o cômodo mais ensolarado da casa inteira. Sentei no chão de azulejos e chorei como nunca. Me debulhei em lágrimas desesperadas, e alguma coisa muito grande transbordava de dentro de mim, e eu não conseguia tirar Aureliano Buendía da cabeça, com seu olhar triste e seus peixinhos dourados, da cabeça. Nem Melquíades, o Mago, nem as grandes e fortes personagens mulheres, como Remédios, A Bela, e Amaranta e Rebeca. 

Começou aí, meu amor por Gabo. "Cem anos..." se tornou meu livro favorito de todos os tempos. Cheguei até mesmo a desenhar a árvore genealógica dos Buendía, em algum momento da vida. A seguir vieram outros livros, como "O amor nos tempos do cólera", "Doze contos peregrinos", "A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada", "Viver para contar" e todos que pude ter nas mãos. Mais os que mais amo são os engendrados para consumirem nosso realismo e transformar nossos sentimentos em fantasia. 

E um dia, sem que eu sequer imaginasse, encontrei um livro de Gabo guardado no armário. "Olhos de cão azul"**, de 1947. Nem meu pai sabe como esse livro veio parar aqui em casa. Eu o devorei principalmente pelo conto "Eva está dentro de seu gato". Sonhei mil noites com essa história. E não lembrava o que tinha sido feito do livro. 

Eu havia emprestado pra uma pessoa muito querida há muito tempo atrás, e ele agora retorna pra mim. Já o reli no mesmo dia, e matei as saudades das palavras dele. E as histórias, os contos, soaram diferentes de quando eu li. Acho que eu estava precisando reencontrar certos sentimentos há muito esquecidos na estrada. Tem coisas, sim, na vida da gente, que nunca mais se recupera. Outras, acabam voltando pras nossas mãos, mesmo que demore. De vez em quando, acreditar nisso é somente o que a gente precisa pra continuar sonhando.


**"Olhos de cão azul" é um livro com 11 contos escritos por Gabo na juventude, 
que falam sobre a morte em muitos aspectos. Mesmo com um título poético, 
é um texto imaginativo e agridoce sobre a parada súbita do final, e uma troça
com a lembrança fugaz que nos tornamos pra quem por aqui ainda fica. 

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