quarta-feira, 8 de maio de 2013

Registros Oníricos: I. A excursão para Férmion

Hoje tive um sonho, de novo. E decidi que quero catalogá-los, registrá-los e guardá-los em algo mais duradouro que papel. Como um museu de história natural, só que dos meus sonhos, usando a escrita pra isso. Porque é só dessa forma que sei me expressar. 

Por isso inauguro a seção "Registros Oníricos". De vez em quando eu vou escrever aqui um sonho ou outro. Principalmente os bons. Obrigada por serem meus cúmplices nessa jornada deveras estranha, mas de um jeito bom. :)

Lyra. 

I. A excursão para Férmion

                                 “O princípio da exclusão de Pauli diz que uma partícula elementar conhecida como férmion não pode ocupar o mesmo estado quântico simultaneamente. (...) Em linguagem leiga, ele não pode ser positivo e negativo ao mesmo tempo, ou ligado e desligado, ou sim e não. As escolhas, como se percebe, são a base para tudo o que existe”. (Resenha de “Daytripper”, de Gabriel Bá e Fábio Moon, pelo Universo HQ) 

Duas portas se abriram para mim, duas portas enormes e pesadas de vidro denso. E mais um mundo, um universo ímpar de páginas, alcançou meus olhos dormentes. Eram tantos livros naquela loja imensa que até o calço da porta era livro também, milhares, milhões. Aquilo era o que uma livraria deveria ser pra mim. As pequenas livrarias tem seu charme, mas essa, que projeto maravilhoso, pensei com meus botões. Havia uma abóbada de vidro que fazia raios de luz entrarem, como se fosse uma grande estação de trem cheia de livros dentro. O piso era de madeira com carpete vermelho. Não era aqui em Campo Grande, era em algum lugar perdido no mundo perfeito que eu imagino. 

Eu era uma garota de alma nova ao abrir as portas dessa livraria. Usava meu vestido azul marinho com estampa de passarinhos brancos, tênis brancos nos pés e um casaco preto. Minha boca estava pintada de vermelho e o cabelo comprido solto. Me sentia tão menina, tão nova e cheia de expectativa. 
Caminhei decidida corredor afora, encarando as prateleiras com fome de ver mais, de olhar as partículas de cada livro daqueles. Então senti uma presença atrás de mim, e uma mão que acariciou meu braço. Mas não qualquer carícia. 

Sabe quando você está caminhando e esbarra de leve em alguém? Aquele primário momento em que sua pele toca a do desconhecido, e seu corpo se encosta por um centésimo de segundo no do outro, em uma terra nunca habitada. Um arrepio espinha afora. Me virei e vi um rosto muito perto do meu. 

- Me desculpe o esbarrão – ele disse, me olhando. Captei aquele rosto desconhecido, que eu nunca havia visto na realidade concreta. Acho que eu o inventei. – Mas você precisa ir até aquele corredor. 

- Mas eu não te conheço. – argumentei um pouco surpresa. 

- Eu te conheço e é só isso que importa – ele sorriu. 

Sorri de volta com aquele sorriso meio de canto da boca. Magro, óculos redondos, cabelos castanhos batendo no ombro combinando com a barba até cheia, apesar da cara de novo. A barba era arruivada. 
Ele segurou a minha mão e me levou por dois ou três corredores de obras bibliográficas, e aquele lugar era tão grande que a gente chegou a correr. Me lembro que a camisa era xadrez em tons de azul e verde. Isso não importou muito, porque eu estava hipnotizada por aquela mão quente que segurava a minha, uma mão grande e cheia de brancos dedos. A minha mão pequena não teve a menor chance. 

E depois de correr por horas, por dias, por anos e por microssegundos, a gente parou ao lado de uma enorme estante de madeira, que abrigava todos os livros que eu já li, e isso eu sinto por essa razão inexplicável, a mesma que com uma batuta de maestro me guiou porta adentro. E Barba Ruiva (vamos chamá-lo assim) puxou um livro grande e branco de uma estante e colocou nas minhas mãos dizendo “Você precisa ler Daytripper”. 

- Eu me lembro dessa HQ, eu vi... – comecei a argumentar, mas sua voz retumbou me interrompendo. 

- Não, você não viu nada. Seus olhos vidraram, você parou no tempo. Lyra, Menina Lyra, Lyrinha. Menina Daiane, Dai. Você precisa correr. Na chuva. Agora. Vem. – ele agarrou minha mão de novo, e a voz estremeceu assim como minhas pernas, mas eu fui forte. E com uma edição imaginária de Daytripper debaixo do braço, eu corri de mãos dadas com ele. E corremos, sem parar. 

E chegamos na chuva, no meio de uma avenida que transbordava um esgoto e era tudo cinza e se esvaía com a água abundante. Eu parei sem fôlego tentando salvar meu livro da água, mas nas minhas mãos já não havia nada mais. Barba Ruiva olhou nos meus olhos e me beijou. Um beijo de amor.

Senti a barba roçando nos meus lábios de menina, na minha bochecha. Ele desgrudou o rosto da minha boca, beijou minha testa e segurou meu rosto de volta. E sussurrou em meio à chuva que embaçava seus óculos: acorda.


Acorda. 



E eu acordei, e abri meus olhos nessa manhã fria. Mas eles não estão mais vidrados. 



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