sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Qualquer dia...

Qualquer dia eu vou acordar e te ver ressonando do meu lado, dormindo tranquilo porque seu sono é bem mais tranquilo que o meu. Eu me debato, resmungo, falo dormindo mas você não, então eu sinto, e sempre senti, que é como se você guardasse meu sono, me protegesse, me mantivesse segura quando eu cruzo as fronteiras do subconsciente, esse mundo aterrador onde as lembranças se transformam de uma forma nunca segura, sempre traiçoeira. 

Mas eu me sinto segura qualquer dia quando acordo ao seu lado. 

Qualquer dia eu vou ouvir você me contando sobre seu telescópio e sobre as coisas que você gosta, e sobre seu livro sobre guerras mundiais, e sobre seu seriado favorito que eu vou assistir. E você fala com paixão e ri da minha cara quando eu falo que seus gostos são engraçados, e me abraça dizendo que a minha banda favorita é tosca, depois de encher meu computador de música que você gosta. 

Qualquer dia você vai chamar a minha gatinha de gorda e vai fazer carinho do jeito exato que ela gosta, de uma forma que eu eu nunca vi ninguém fazer. E vai achar engraçado que ela goste tanto de você e fique te seguindo pela casa de um lado pro outro, miando, pedindo atenção, dizendo que ela é linda e engraçada e se parece comigo. 

Qualquer dia ela vai se aninhar em você pra dormir, porque assim como eu ela ama o seu calor. 

Qualquer dia eu vou comprar cada ingrediente do seu prato favorito com carinho, vou pegar minha panela favorita e vou cozinhar com toda a paixão que puder reunir em pimenta e sal. E vou te olhar comer e elogiar aquele prato que fiz, como se a comida que eu preparei pudesse traduzir tudo que eu sinto em demasia. 

E qualquer noite vou cutucar você com a ponta do meu pé por debaixo da mesa do restaurante chique, sem ninguém perceber, arrancando um sorriso de você enquanto você estende a mão e percebe que eu tirei o sapato quando alcança meu pé com as unhas escarlates. Sinto sua mão quente acariciando minha pele, quando você estende sua mão sobre a minha por cima da mesa de linho.  

Qualquer dia vai doer menos. Mas nunca vai ser menos amor. 


3 comentários:

  1. Que texto fofinho e doloroso, Lyra. Tão triste sentir essa ausência, né? Eu que sei...

    Adorei o texto, como sempre.

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  2. Esse texto é uma dolorosa conclusão sobre como a vida nunca é do jeito que a gente quer :'(

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  3. Chegar a esta conclusão dói...sinta-se abraçada.

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Comentários.