quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dentro do (meu) sono

No ranger dos dentes e estalar da nuca, eu durmo de olhos abertos. Olhe pro meu rosto dormindo e você verá o risco branco da córnea, porque eu pareço em transe. Mas meu sono é profundo e perturbado, sempre foi e sempre será, a não ser que eu faça o que o médico mandou e comece a tomar antidepressivos, porque distúrbio de sono é comigo mesmo. 

Na plena adolescência, já tinha problemas pra dormir, e um dia senti um pavor imenso e uma dor excruciante dentro do sono. Fora dele gritava e não conseguia acordar de fato. Crises como essa se seguiram, às vezes três ou quatro vezes por semana, e então outro diagnóstico: você faz parte dos 5% que sofrem de terror noturno. Antidepressivo acompanha seu milkshake, senhora?

Não, nem pensar. 

Em 2011 tive algumas crises, a maioria delas no final do ano. Não existem muitas causas comprovadas pra esses distúrbios de ranger os dentes e acordar volta e meia gritando, mas eu sei que stress emocional explica muita coisa, hoje em dia. Eu tive essas crises porque me encontrava sob grande tensão, dormia mal, me alimentava mal. Minha mãe irrompeu no meu quarto pra me acudir e me acordar, me fazer sair do estupor de pânico que eu me encontrava, chorando, berrando, me debatendo, mais de uma vez. E depois demora pro coração parar de bater desembestado, o corpo parar de tremer e você entender o que seu cérebro não consegue, que foi só um pesadelo, um descontrole, que nada do que você viu no sono é real, e que aquele medo causticante todo não existe.

Esse ano, tive uma leve crise durante o carnaval, onde dormindo balbuciei palavras e frases pouco compreensíveis e acordei um pouco assustada, e ontem, quando acordei sozinha, com frio e tremendo, e com um medo extremo de alguma coisa que eu tento não pensar. Gritei até a garganta ficar rouca, e só despertei de verdade quando bati o braço na madeira da cama e senti a dor completamente real. Ela me acordou. 

É por isso que, depois de oito meses solteira, não pode ser qualquer um a dormir aqui, do meu lado. Vai ter que ser alguém que possa ouvir meus gritos e calmamente me segurar com o corpo, com força, até eu emergir desse terror completamente insano, aos prantos, respirando forte e com o coração saltando pela garganta, e depois me console até eu parar de chorar e voltar a dormir, completamente acalmada. 

Eu não sei se essa pessoa existe.  Esse alguém, se eu encontrar um dia, vai ter que simplesmente mergulhar e me trazer de volta do fundo da água turva e ácida do pesadelo, puxada pela mão pra que eu não me perca. Porque eu me perco sempre. 

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