sexta-feira, 4 de maio de 2012

Fuligem

Campo Grande, 03 de maio de 2012. 19h47. 
Fumando um cigarro enquanto caminho, em direção ao Centro Cultural José Octávio Guizzo, onde no teatro Aracy Balabanian iria começar a pauta de assessoria.

Encontro toda a equipe do meu antigo estágio, da Assecom do Ministério Público Estadual. Avisto meu ex-chefe, um dos jornalistas da "velha escola" com quem mais tenho orgulho de ter trabalhado.

"Jorge!" - emoçãozinha de reencontrar. Vejo mais pessoas conhecidas do mesmo lugar: o cameraman e radialista da equipe; a publicitária que me ensinou a diagramar meu livro reportagem de conclusão de curso pra que eu não precisasse pagar, e ainda aprendesse; a moça do café, que ria da minha cara enquanto eu tomava generosas xícaras de café durante o dia. Pessoas que de um jeito ou de outro foram importantíssimas pra minha formação profissional. Jorge acende um cigarro e me acompanha, e a gente troca impressões sobre o MP, a agência em que eu trabalho, e sobre o curta-metragem que ele e Márcio, o cameraman, estavam exibindo ali, naquela noite.

Nostalgia me toma por completo.


..

Campo Grande, 27 de maio de 2009. 14h37. 
Nós vamos até a pauta com a van que leva processos e outros documentos pro fórum central da cidade. Eu e Higor, o primeiro cameraman. Levo meu bloquinho do Intercom, e máquina fotográfica. Graças ao jornalista preguiçoso que costuma me passar as pautas quando Jorge não tá, é a estagiária que vai. Me sinto meio "vendida", porque ele não se deu ao trabalho de me explicar direito do que se trata. Já notei que não sou a estagiária favorita, ele gosta mais da menina crente do período da manhã. Pudera, me perguntaram minha religião e eu disse que sou ateia. Irônico, no mínimo, religião fazer diferença em um órgão de justiça pública.

Longe pra caramba. A gente passou pela AV. Tamandaré. Ar condicionado na van salva, totalmente. Higor tá me falando do seu novo projeto de banda. Recentemente, ele fez uma gravação com algumas bandas pra um programa universitário. Minutos se arrastam.

Chegamos. Terreno enorme, um depósito com cara de abandono. Portões carcomidos de ferrugem. Começo os cliques. Carros do Gaeco, do Ministério do Trabalho, do Ministério Público e da Polícia Ambiental. Fardas, crachás, ternos. Eles entram com os carros sem muita cerimônia.

Lá dentro, pilhas e pilhas de carvão, madeira, embalagens. Sujeira, muito sujeira. Clico a esteira de embalagem, um policial ambiental mexe com as mãos no carvão, separando algumas peças, e mostra ao parceiro: "tá vendo? eucalipto. Esse outro aqui, parece ipê. Tudo ilegal". Outro policial conversa com algumas pessoas que estavam ali.


Caminho receosa pelo cenário, cuidando para não tropeçar no cascalho, ao mesmo tempo que tento não perder nada. Observo as pilhas de carvão, o maquinário, os policiais. Então em um canto um pouco mais afastado, um promotor de justiça conversa com três pessoas sentadas sobre pilhas de carvão.

"- Tá tudo bem, vocês podem me contar. Como é o trabalho aqui?".

Olho para os três homens. Um deles parece ter mais de 50 anos, enquanto outro, bem menos de 18. O terceiro, calculo que tenha em torno de 30 anos. O mais novo é perguntado sobre sua idade, e afirma ter recém-completo 19 anos. Olho para suas mãos, enegrecidas de sujeira, e elas estão feridas. Ele tem um pano sujo enrolado na palma, e torce os punhos no colo, nervoso. Os outros estão com o mesmo rosto triste, expressão de abandono. Um descalço, os outros com chinelo solto no pé e tênis preto. Eles não conseguem esconder um leve desespero, mas contam calmamente o que acontece ali.

Tiro fotos sem focar nos seus rostos cheios de fuligem e abandono, preservando o anonimato deles. Sem nem sequer configurar a máquina, o tom cinzento da situação transparece nas imagens, quando paro pra conferir. Ouço trechos da conversa enquanto uma breve confusão de instala um pouco mais longe. Os homens estão contando que são obrigados a trabalhar sem muito descanso, e grande parte do salário é usado na compra de produtos da venda do dono da embaladora.


Um deles começa a chorar, e as lágrimas escorrem pelo rosto e abrem caminho na fuligem negra. Não consigo desgrudar meus olhos dele. Como se quebra a dignidade de alguém? eu me pergunto. Sendo humano também. Sendo filho da puta.

O gerente do lugar apareceu, ele que está fazendo a confusão. Policiais estão ameaçando prendê-lo por desacato, se ele não se acalmar. Ministério do Trabalho avisa que ele será notificado, assim como o dono do lugar. "Vocês não podem levar meus funcionários!". Calma, amigo, diz um policial. Manda o gerente sossegar, que eles não são propriedade de ninguém.

Fim da pauta. A gente volta, Higor carregando a pesada filmadora.
E eu carrego a câmera, o bloco de anotações, e um peso assim, doído, ardido, no fundo do estômago.


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