quinta-feira, 19 de abril de 2012

desembaraçando.jor

Da primeira ligação que fiz pra primeira fonte, para a primeira pauta nos tempos de Unifolha, embaraçada e insegura, até o dia de hoje, em que andei por toda a extensão do Albano Franco levando a imprensa de cá pra lá, tem chão. Dos tempos do primeiro estágio em jornalismo, abril de 2007, voluntária sem um puto no bolso, era ingênua e ficava nervosa quando tinha que ligar e conversar com alguém. Do cabelo colorido e all star sujo que não tomava café, até a levemente-viciada-em-cafeína que respira assessoria e sabe o que quer dizer coisas como "media training", "follow up" e "budget", um montão de água correu debaixo da ponte.

E eu ainda tremo na base.

Os sonhos nem são mais os mesmos, e na verdade, naquela época era tudo muito simples. Saudosismo bocó, mas é uma daquelas bobas verdades. Dormir até tarde, acordar, vestir a camiseta listrada e o único tênis bom, ir até a faculdade calmamente, comprar cookies na vending machine no corredor do bloco V, subir a escadinha da TV Pantanal, chegar na redação. As pautas eram leves, tranquilas, inspiradas. O chefe era um dos jornalistas mais foda do mundo, com sua "mochilinha" engraçada e o gosto afinado por MPB. Quatro ou cinco horas depois, missão cumprida, aulas. Cabeça livre pra se dedicar a coisinhas infinitas.

Nessa época eu achava que ia escrever para a revista Piauí. Vai vendo.

Mas aí em 2009 virei gente grande, pulei de galho. Por um acaso, fui parar na assessoria de um grande órgão público estadual. Assessoria, logo eu que tinha dois piercings na cara, e que não costumava pentear o cabelo (ops). Por algum motivo gostaram de mim, exceto o jornalista mais inútil que conheci nessa época em que eu não conhecia ninguém, mas que eu ignorava sumariamente em contrapartida. Foi lá que aprendi que às vezes ninguém entende o papel do jornalismo. Nem mesmo os próprios jornalistas. Jurista, então? vish. Menos ainda.

Só que ficaram bons momentos, vários, na verdade. Como quando eu entrei em uma Unidade de Internação de Menores (UNEI), que havia sido alvo de rebelião horas antes. Fotografei os menores, magros e embrutecidos, e os cachos de barata que se estendiam pelas portas. Imprensa nenhuma foi autorizada, mas eu estava lá, e nem formada era, e só porque o tal jornalista inútil tinha preguiça de sair da sala e mandava a estagiária. Ele pode pensar que naquele dia eu me ferrei; eu me considero sortuda. E as fotos que eu tirei após uma operação que acompanhei, com a polícia e outras instituições?. "Trabalho escravo" em uma embaladora de carvão, madeira ilegal queimada. Olhares tristes, cansados, rosto coberto de fuligem e o negrume do carvão pra todo lado. Obrigada, jornalista preguiçoso, por mandar a estagiária em todas essas pautas.

Continuei na assessoria, após esse estágio, já como profissional, mas em um local completamente diferente. Ás vezes noto que minha cara de menina engana, e que o traquejo pra gerenciar crises me falta, e muito. Trabalhar com clientes comerciais me despertou a parte visual do trabalho, de editoração gráfica. Todos os dias vejo bons profissionais em ação, e me sinto feliz por poder aprender. Em outros, quero surtar e arrancar todos os cabelos. Quero tirar a sapatilha de cetim do pé e jogar longe, quero chorar de raiva de episódios que nenhum jornalista de impresso deve passar, aposto minha coleção de filmes do Tarantino.

"É fácil ser assessor de imprensa". Que frase mais equivocada. A gente anda na corda, o tempo todo. Lida com dois lados da moeda. É privilegiado de uma forma e desprotegido de tantas outras.

Da menina que tinha medo de ligar e perguntar "você me daria uma entrevista", sobrou muito. A vontade de ser sempre melhor, que existia naquela época, por exemplo, é a mesma. Exatamente a mesma.